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A cada cinco minutos uma mulher á agredida no Brasil.

 

Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados (Simone de Beauvoir).

 

Cristina, estuprada pelo primo. Ele era mais velho e dizia a ela que ninguém acreditaria.

Maria, perseguida pelo ex-marido e assassinada. Ele não aceitava o fim do relacionamento.

Joana, agredida a socos pelo pai. Ele achou a roupa dela muito curta pra sair de casa.

Letícia, assediada no ônibus indo pro trabalho. Ele se masturbou e gozou nela.

Gabriela xingada pelo namorado. Ele não acha que ela seja bonita, ou magra o suficiente.

 

Mulheres sangram pelas ruas das cidades todos os dias, todas nós temos um caso (ou mais) e vivências de violência pra contar, e você homem, com certeza tem que parar pra ouvir!
A violência contra a mulher se manifesta de diversas formas: física, sexual, doméstica, moral, psicológica e patrimonial. Segundo a Convenção de Belém do Pará (1994), a violência contra a mulher é “qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como no privado” (Art. 1°). Ou seja, a violência contra mulher ocorre pois possuímos relações desiguais entre homens e mulheres, que não são naturais ou fruto das nossas diferenças biológicas, mas são construídas pela nossa sociedade desde que nascemos, e vão se reproduzindo nos mínimos detalhes de nossa vida cotidiana.

Mulheres de diferentes classes sociais, religiões, culturas, idades, origens, das mais novas às mais velhas, de diferentes escolaridades, raças, orientação sexual. TODAS elas podem sofrer, ou sofrem violência ao menos uma vez em suas vidas, porém, se faz necessário a nós um recorte de classe e raça. Mulheres pobres e mulheres negras são mais oprimidas pelo machismo, e isso se manifesta em números maiores de casos de violência, em mortes, sendo o racismo também estrutural da sociedade brasileira, colocando a mulher negra como inferior a branca.

As estatísticas são alarmantes e passam longe de representar o real número de casos no Brasil, mesmo com um canal anônimo de denúncias, e o estabelecimento por lei do atendimento específico em delegacias para mulheres. Mesmo hoje possuindo a tipificação do feminicídio como crime hediondo, e a Lei Maria da Penha, as mulheres não denunciam seus agressores. Ainda há imensa falta de preparo dos profissionais para o atendimento dessas mulheres, causando mais constrangimento e dor. Não há proteção para elas após as denúncias, colocando suas vidas em risco, fazendo assim, que elas se silenciem.

Mas as mulheres lutam! Se hoje temos um dia de luta pelo fim da violência contra mulher foi porque muitas gritaram basta, por si mesmas e por outras mulheres, assim como as irmãs Mirabal, Las Mariposas que morreram lutando pela liberdade política na República Dominicana, homenageadas pela data do 25 de novembro, aniversário de suas mortes.

Quiçá quiséramos nós que toda nossa luta e os direitos que conquistamos não corressem riscos. Mas como muito bem nos alertou Beauvoir basta alguma crise para que os diretos das mulheres sejam questionados, extinguidos e nossas vidas responsabilizadas, como agora estamos vendo.

A frase quase profética “bela, recatada e do lar” sintetizava e nos alertava que o golpe de 2016 também recairia sobre os direitos das mulheres. Não é à toa que sua figura símbolo vinha do Estado, nos deixando implícito que o que é de atribuição deste passa a ser de responsabilidade das mulheres. E agora, esses são os nossos novos dados:

– Em 2016 12 milhões de mulheres sofreram algum tipo de ofensa verbal.

– 5,2 milhões foram assediadas e humilhadas publicamente no transporte público.

– 1,4 milhões foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento.

– Em 2016 foram mais de 49 mil estupros registrados, um aumento de 3,5%;

– De janeiro a julho de 2017, somente 15% dos homens acusados por estupro foram presos;

– Temer cortou 61% das verbas destinadas ao atendimento de mulheres vítimas de violência;

– Temer reduziu em 54% o orçamento para políticas de incentivo à autonomia das mulheres;

– Em 2016 o Ligue 180 recebeu 68 mil relatos de violência doméstica e familiar, um aumento de 133% em relação a 2015. 58,86% das mulheres vítimas de violência doméstica são negras.

– Em dados de 2015, o número de morte de mulheres negras teve um aumento de 54,2%, enquanto o de mulheres brancas caiu.

– 65,9% das vítimas de violência obstétrica são negras

Estima-se que em TODOS ESSES CASOS 61% dos agressores eram conhecidos das vítimas.

Ainda, Congresso Nacional, com sua bancada religiosa e conservadora, conivente com o golpe de Estado, não se exime de seu papel de continuar violentando as mulheres. Impede a discussão da questão de gênero nas escolas, e se já não bastasse a tentativa de Eduardo Cunha em aprovar em 2015 o PL 5.069/2013 que visa dificultar o atendimento às mulheres que sofreram violência sexual, agora a PEC 181 “Cavalo de Tróia” nos assombra com a possibilidade de não podermos recorrer nem mesmo ao aborto legal, em casos de estupro, já previsto em lei, dado que para a PEC “a vida começa na concepção”. Mais uma vez querem controlar nossos corpos, querem nos impor carregar em nosso ventre o fruto de uma violência, e isso não vamos aceitar! Enquanto cerca de 4 mulheres morrem todos os dias por complicações resultantes de abortos clandestinos, e entre o índice de indução de aborto ilegal as mulheres brancas (1,7%) são metade do número de mulheres negras (3,5%), continuaremos lutando para que essa questão seja tratada de forma laica, como questão de saúde pública.

As mulheres se levantam e gritam: TODAS CONTRA OS 18. É nas ruas que vamos mostrar nossa força, que vamos barrar o conservadorismo. Nos organizando em nossos bairros, nas universidades, nas escolas, nos campo, aonde estivermos. Não permitiremos mais retrocessos!
Pensar em estratégias de combate à violência contra mulher é essencial para que possamos reduzir danos e acolher essas mulheres, discutindo relações de gênero e construindo novos valores, novos homens (entendendo seu papel como parceiros na construção do feminismo), e novas mulheres mais fortes.

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

 

 

 

 

 

 

 


Um Cavalo de Tróia sob os nossos úteros

Por Julia Aguiar*

Nos últimos anos pudemos acompanhar uma crescente mobilização das mulheres em nosso País. Na pauta, a luta por liberdades e direitos ganhou forma e força contra os ataques do então Presidente da Câmara – o deputado Eduardo Cunha (PMDB), materializadas por exemplo, na luta contra a PL 5.069/2013 que visa dificultar o atendimento às mulheres que sofreram violência sexual, principalmente no que tange à profilaxia adequada.

A ‘primavera das mulheres’ – como ficou conhecida – foi um importante passo na disputa de ideias da sociedade e na defesa de nossos direitos, e somou forças às mobilizações contra os golpistas e machistas que implementaram um golpe contra a então presidenta Dilma Rousseff.

Mas, se deste lado reagimos contra estes ataques, do outro, a bancada conservadora no Congresso Nacional continua, ainda hoje, avançando contra nossas pautas e contra a liberdade de nossos corpos, agora sob o aval do governo golpista de Michel Temer (PMDB).

Como expressão dos recentes ataques, temos a decisão da Comissão Especial da Câmara dos Deputados que aprovou na última quarta-feira (8), uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que muda a concepção de vida e dificulta o aborto legal, incluindo os já previstos pela lei.

A PEC do ‘Cavalo de Tróia’, como está sendo chamada por movimentos sociais, ganhou este nome pela manobra da bancada conservadora e religiosa que, através do relator Tadeu Mudalen (DEM), mudou dois artigos de uma proposta que anteriormente, versava somente sobre a ampliação da licença maternidade para a trabalhadora que tiver bebê prematuro.

A mudança que traz a definição de que ‘a vida começa na concepção’ abre um perigoso caminho, fortalecendo o discurso de proibição do aborto em todas as suas possibilidades, incluindo em casos de mulheres vítimas de estupro e risco à vida da mãe. Um verdadeiro retrocesso até mesmo em termos da legislação vigente.

Essa decisão dos parlamentares mostra o nível de comprometimento que os mesmos tem somente com suas visões ideológicas, sem nenhuma preocupação com a vida das mulheres no Brasil.

Segundo dados do Anis – Instituto de Bioética e Universidade de Brasília, somente em 2015, a cada um minuto uma mulher realizou aborto ilegal no Brasil. São milhares de mulheres, sobretudo jovens e pobres, das mais distintas religiões, que tiveram que interromper a gestação em condições precárias, pela total falta de assistência do Estado Brasileiro com suas vidas.

Enquanto outros países, incluindo o Chile, avançam no fortalecimento dos direitos reprodutivos das mulheres, o Brasil vive sob um verdadeiro ataque aos nossos corpos, um cavalo de Tróia sob nossos úteros que impede qualquer melhoria em nossas condições de vida.

É certo que a bancada fundamentalista, conservadora e religiosa não irá recuar facilmente de suas pautas, mas saibam que nós também não. Por isso, à nós mulheres só resta uma saída: fortalecer nossas lutas e mobilizações com o conjunto da classe trabalhadora, para que assim, possamos denunciar os retrocessos implementados e derrubarmos, definitivamente, todos os machistas e golpistas de seus próprios cavalos.

Julia Aguiar é Diretora de Mulheres da UNE e militante do Levante no Rio de Janeiro


[PAPO RETO] 28​ ​de​ ​setembro​ ​|​ ​Dia​ ​Latino-Americano​ ​e​ ​Caribenho​ ​pela​ ​legalização​ ​do​ ​aborto

Ser mulher em uma sociedade patriarcal não é uma tarefa fácil. Cotidianamente, vivenciamos opressões, frutos de um sistema capitalista que precisa reproduzir desigualdade, dominação e discriminação para que continue a explorar a classe trabalhadora para que sua margem de lucro seja sempre crescente e contínua. Não somente, o capitalismo tem uma aliança com o sistema patriarcal para oprimir e explorar as mulheres de forma mais violenta impondo papéis estruturantes na lógica de dominação na divisão sexual do trabalho.

Dentro da perspectiva da dominação, existe a divisão dos espaços de ocupação: para os homens o espaço público (a fala, as assembleias, as decisões, o mundo do trabalho) e às mulheres sobra o espaço privado (a casa, o cuidado). A contradição existente na ocupação do espaço privado pelas mulheres consiste em o não direito de comando ao mais privado dos espaços: o corpo. O corpo da mulher não deixa de ser um espaço legislado e comandado pelos homens, por isso a decisão do aborto não está vinculada a escolha da mulher, e é essa realidade que precisa ser transformada.

Uma das discussões mais presentes, porém, mais velada é a luta pela descriminalização do aborto no Brasil (onde já é legal o aborto por motivos de estupro, risco de vida à mãe e fetos anencéfalos). Ainda, existe em tramitação nesse atual congresso conservador ​projetos de lei que tem por objetivo criminalizar qualquer prática de abortamento (como o PL 5069/2013 ​que “tipifica crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas a quem induz a gestante à prática do aborto”).

Mas então por que, nós do projeto popular, devemos lutar pela descriminalização do aborto? Para responder a tal pergunta, basta olharmos os dados de pesquisa que são apresentados recorrentemente sobre a questão do aborto no nosso país. As mulheres que mais morrem em abortos clandestinos são as jovens que não tem acesso a uma educação sexual e ao planejamento familiar, vítimas de uma política que visa o sucateamento da saúde e da educação e de propostas fundamentalistas que não permitem o debate de gênero nas escolas. Além disso, elas são aquelas que precisam manter seus empregos precarizados para a garantia mínima de sobrevivência e que uma gravidez se torna um dificultador nesse processo.

Atualmente, as mortes relacionadas ao abortamento constituem a quinta maior causa de morte materna no país. Em 2015, mais de meio milhão ​de mulheres realizaram abortos clandestinos no Brasil. E estas são mulheres distantes de nossa realidade? Não, são nossas próprias mães, irmãs, amigas, vizinhas, primas, tias, etc. mulheres da classe trabalhadora que são forçadas a recorrerem a serviços improvisados e insalubres com uso de recursos e ferramentas inapropriadas, por falta de políticas públicas que pensem a vida concreta das mulheres. Na pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2013, se apontou que no Nordeste, por exemplo, o percentual de mulheres sem instrução que fizeram aborto provocado (37% do total de abortos) é sete vezes ​maior que o de mulheres com superior completo (5%).

As mulheres negras têm um risco três vezes maior de morrer por complicações do abortamento do que mulheres brancas e são também estas, de baixa escolaridade e com menos de 21 anos as que mais passam pelo processo sozinhas, sem o auxílio ou apoio de outros sujeitos. Entre as mulheres negras, o índice de aborto provocado (3,5% das mulheres) é o dobro ​daquele verificado entre as brancas (1,7% das mulheres). Fica evidente que a estrutura patriarcal e racista impacta a vida das mulheres.

Todos esses dados são reflexos de um estrutura de Estado, representada por bancadas conservadoras, pelo desmonte da saúde pública, pela retirada dos debates de gênero e sexualidade dos currículos escolares, pela extinção da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, que são processos que já vem de antes, mas que vêm se aprofundando cada vez mais na retomada de um projeto que visa explorar ainda mais os trabalhadores no governo golpista de Temer, e que estão deixando mulheres jovens, negras e da classe trabalhadora morrerem em situações desumanas.

É preciso dar assistência às mulheres, fazer com que elas saibam os direitos que tem, ter um corpo de profissionais, que inclua enfermeiras/os, médicas/os, assistentes sociais e psicólogas/os prontos a acompanhar as mulheres que necessitam, para que a intervenção – que por si só já é violenta e cheia de implicações – seja menos dolorida. O SUS deve ser a porta de acesso, o corpo profissional preparado, o que precisamos hoje, no Brasil, é que as mulheres parem de morrer na clandestinidade.

Por isso, pensar o aborto não por uma perspectiva moralista e conservadora ou por uma ideia restrita de liberdade individual da mulher, se faz necessário. É preciso que a luta pela descriminalização do aborto se faça na defesa da vida das mulheres, que, tem raça e tem classe. É preciso resistência para enfrentar os retrocessos que estamos passando nas políticas voltadas para mulheres. É preciso ter a coragem de denunciar todas as medidas que esse governo e o legislativo estão tomando contra a classe trabalhadora. É preciso organizar, formar e lutar pela vida das mulheres!

FORA TEMER! NENHUM DIREITO A MENOS PARA AS MULHERES! DIRETAS JÁ E CONSTITUINTE! MULHERES NO PODER! ABORTO LEGAL E SEGURO! É PELA VIDA DAS MULHERES!

 

Levante Popular da Juventude Setor de mulheres – Clara Camarão Natal/ RN

 


Dia 25 de julho: Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha

“Fortalecer a luta das mulheres negras para fortalecer a luta por uma nova sociedade”

“São tempos difíceis para as sonhadoras”. A verdade, porém, e a nossa história confirma, é que nunca foi fácil para as mulheres negras latino-americanas e caribenhas. E em tempos de golpismo e de avanço dos governos neoliberais, as contradições estruturais de um sistema capitalista-patriarcal-racista apenas se acirram.

Os povos da América Latina e Caribe passaram por processos de colonização que tiveram em comum a escravidão, a exploração e a dominação de seus corpos e das suas terras. É por isso que neste 25 de julho, dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, precisamos relembrar o histórico de lutas e resistência das mulheres negras, assim como apontar os caminhos coletivos de acúmulo de força popular para a transformação da realidade imposta por uma conjuntura de grande investida do projeto neoliberal em toda América Latina e Caribe.

Durante séculos, houve resistência à escravidão e o povo negro, tendo muitas mulheres entre suas lideranças, travou grandes lutas, revoltas e levantes. A escravidão deixou um vergonhoso legado de exploração, mercantilização e dominação do povo negro, se expressando e tomando forma nas relações sociais, na educação, no trabalho e na saúde. No sistema capitalista, para que a ordem social se mantenha e as relações de poder sejam estabelecidas, a violência se configura como uma das bases materiais de manutenção da exploração.

O “Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha” foi estabelecido em 1992, durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-caribenhas, em Santo Domingo (República Dominicana), com o intuito de provocar a reflexão sobre a condição das mulheres negras na América Latina e Caribe. Este dia de luta não resume a sua importância somente em demarcar a condição e a resistência da mulher negra, mas também contribuiu para a construção do nosso feminismo, o feminismo popular.

Temos compreensão de que esta é uma luta de toda a classe trabalhadora, uma vez que a exploração, dominação e todas as consequências de nossa formação social, de um capitalismo estruturado com o patriarcado e o racismo, não recaem somente sobre as mulheres, mas estruturam as relações e a vida de todo o povo brasileiro. Em tempos de leituras individualizantes, se faz ainda mais necessário compreender o sistema patriarcal-racista-capitalista e reafirmar a saída coletiva, alicerçada na organização e no protagonismo daquelas que sofrem a exploração e a opressão.

Não é à toa e nem conjuntural: as mulheres negras estão em maior vulnerabilidade social desde sempre no Brasil.

– 59,4% das mulheres brasileiras vítimas de violência são negras*;

– 68,8% das mulheres brasileiras mortas por agressão são negras*;

– A mulher negra ganha 60% menos que o homem branco no Brasil**.

As mulheres negras são as principais vítimas dos abortos clandestinos e dos índices de feminicídio, como apontou o mapa da violência de 2015, em que o feminicídio (quando o assassinato decorre pela condição de mulher da vítima) de mulheres negras aumentou 54% em 10 anos, enquanto o das mulheres brancas diminuiu. Sem contar com o aumento do encarceramento feminino, em que mulheres negras são 86% das encarceradas. Os dados são alarmantes e nos evidenciam o que já sabemos: o racismo, a exploração e a opressão vividas pelas mulheres negras diariamente no Brasil.

A separação e hierarquização do trabalho de homem e de mulher, bem como a separação e hierarquização do trabalho de mulheres brancas e mulheres negras, coloca as mulheres negras na base da pirâmide social, nos postos de trabalho mais precarizados e subalternizados. As mulheres negras têm maiores jornadas de trabalho, ganham metade do salário dos homens brancos, estando a maioria concentrada no trabalho informal e sem carteira assinada. São as responsáveis na maior parte das vezes pelo trabalho doméstico e pelas tarefas de cuidado, atividade invisibilizada pela sociedade e com baixa ou até mesmo nenhuma remuneração.

Em tempos de crise econômica, política e social, são inúmeros os retrocessos e extremamente perceptível o aumento do conservadorismo. É sintomático o aumento da violência contra as mulheres negras no campo e na cidade – as mulheres negras morrem duas vezes mais que as mulheres brancas -, enquanto a rede de apoio institucional às vítimas se torna praticamente inexistente. Recentemente o governo ilegítimo de Temer cortou 61% das verbas destinadas ao atendimento de mulheres vítimas de violência. Além disso, determinou o fim da Secretaria da Promoção da Igualdade Racial e da Secretaria de Política para as Mulheres.

Estamos vivenciando o desmantelamento dos direitos sociais outrora assegurados e conquistados historicamente pela classe trabalhadora por um governo golpista, patriarcal, racista e antipopular. Em menos de um ano, congelou os investimentos na educação pública, impôs a reforma do ensino médio, sufocou sistematicamente o Sistema Único de Saúde (SUS), fortaleceu o caráter genocida das polícias e as políticas de limpeza racial dos grandes centros urbanos.

As mulheres negras querem e podem decidir os rumos do país. Querem – e vão – transformar a política e mudar a realidade do povo brasileiro e latino americano, que carregam uma história de resistência diante de um racismo que ainda pesa sobre seus ombros. É por isso que a construção de um feminismo das mulheres da classe trabalhadora, que esteja presente nas universidades, nos bairros, nas cozinhas, nos pontos de ônibus, nas filas dos hospitais, dentro dos lares brasileiros, enfrentando as contradições, precisa ser parte do horizonte de construção do Projeto Popular para o Brasil.

Enquanto as mulheres negras da classe trabalhadora forem exploradas, estiverem fora dos espaços de produção do conhecimento, em trabalhos precarizados e subalternizados, encarceradas nos presídios superlotados, morrendo nas filas dos hospitais, vítimas de abortos clandestinos e do feminicídio, a libertação do nosso povo não será possível. É preciso mudar o mundo pra mudar a vida das mulheres e mudar a vida das mulheres para mudar o mundo!

Nós, jovens negras, somos as filhas e as netas de mulheres guerreiras da classe trabalhadora, que matam mais de um leão por dia para sobreviver e sustentar os seus. No dia 25 de julho, todas e todos nós estaremos nas ruas, em unidade com as mulheres e organizações da classe trabalhadora, contra as reformas da previdência e trabalhista, pela legalização e descriminalização do aborto, o fim do feminicídio e exigindo Fora Temer! Queremos Diretas Já!

Seguiremos de punho erguido, celebrando a resistência de Teresa de Benguela, Luisa Amanda Espinoza, Mariana Grajales Cuello, Negra Zeferina, Maria Felipa e de todas as mulheres negras latino-americanas e afro-caribenhas, até que todas sejamos livres!

*Dossiê Violência Contra as Mulheres, Agência Patrícia Galvão, 2016.

** IPEA, 2015.


A unidade necessária para derrotar o golpe

O Golpe parlamentar de 2016 que afastou a Presidente eleita Dilma Rousseff e vem impondo retrocessos e uma agenda neoliberal de retirada de direitos representa mais que uma perda de um governo, representa uma derrota de natureza estratégica. O que significa isso? À medida que a classe dominante tem o controle do aparelho de estado, o seu objetivo estratégico não é a conquista do poder, mas sim, neutralizar qualquer possibilidade que ameace o seu domínio. Em outras palavras: o objetivo estratégico da burguesia é a nossa destruição. Destruição que pode ser física, como também, destruição da nossa capacidade de organização e luta.

É isso que está em jogo com a criminalização de lideranças populares, a exemplo do Lula e militantes dos movimentos populares, de partidos políticos, como PT, dos movimentos populares e sindicais. A Reforma Trabalhista além de retirar direitos básicos, destrói a organização sindical no Brasil, empunhando um golpe brutal na resistência sindical e popular.

Não se trata, portanto, de uma derrota do PT ou das organizações que protagonizaram o último ciclo político no Brasil, mas uma derrota de toda a esquerda e do povo brasileiro. Se pudéssemos sintetizar esse momento numa imagem seria a de um cerco em que o inimigo avança em direção ao nosso aniquilamento, indistintamente. Infelizmente, ainda existe na esquerda brasileira posturas vacilantes ou oportunistas que acham que é possível se beneficiar desse cerco e tentam se auto construir em cima disso, como é o caso da posição oportunista, e de direita, de defesa da Operação Lava Jato, uma operação flagrantemente política, seletiva, autoritária, de inspiração fascista, que ameaça a democracia.

O que fazer diante desse cenário? Primeiro, sobreviver, resistir! E construir as condições para ofensiva.

A sobrevivência impõe a unidade ampla das forças populares como uma necessidade fundamental nessa conjuntura. Não se combate uma conjuntura de cerco e aniquilamento com sectarismo. Não se combate uma conjuntura de cerco e aniquilamento colocando as nossas divergências acima daquilo que nos une nesse momento que é a resistência a essa ofensiva.

Isso significa que todas as forças que se colocam contra Golpe, contra a retirada de direitos e ao desmonte do Estado devem compor uma frente ampla para fazer o enfrentamento ao inimigo principal. Momentos similares na história exigiu essa postura e a negativa ou a vacilação nessa tarefa custou muito caro as organizações populares e a todo o povo brasileiro.

Esse é o significado da Frente Brasil Popular nessa conjuntura. Reunir todas as forças populares e democráticas para resistir e preparar a ofensiva.

E o que isso tem a ver com a juventude?

Todos os momentos da história que a juventude e o movimento estudantil brasileiro, e a própria UNE, fizeram diferença na luta de classes e cumpriram um papel político importante foi quando se colocou como porta-voz das lutas do nosso povo. Foi assim na luta contra nazifascismo, na campanha “O petróleo é nosso!”, na luta contra Ditadura Militar e, mais recentemente, na luta contra o Golpe de 2016 e a retirada de direitos.

E num momento tão complexo como este, o mais difícil que a nossa geração já viveu, não podemos vacilar no compromisso com o povo brasileiro. Esse é o sentido principal da nossa luta e a condição fundamental para construção de um projeto popular para o Brasil.

A compreensão dos desafios do atual momento não afastam os demais desafios e críticas que temos apontado à entidade e que marcam, desde o princípio, a entrada do Levante Popular da Juventude na UNE. Esta compreensão nos levou a construir o Campo Popular, como uma alternativa a polarização despolitizada que prevalecia na entidade. Acreditamos que para fazer jus a história da UNE e as tarefas impostas pela luta de classes precisamos fazer da UNE um instrumento de organização e resistência da juventude, presente no dia a dia dos/as estudantes, com capacidade e centralidade na luta de massas, no trabalho de base, na agitação e propaganda e na aliança, a partir de ações concretas, com os movimentos populares e com o povo brasileiro, a exemplo do Centro Popular de Cultura (CPC), da UNE. E isso passa por mudanças na linha política e na condução da entidade.

O Campo Popular e os desafios que apontamos permanecem vigentes. Neste sentido, apresentamos em nossa resolução de movimento estudantil um programa e uma agenda para a entidade que orientará a construção do Campo Popular dentro da UNE, que passa por democratizar a entidade, descentralizar as decisões, de fortalecer e profissionalizar a comunicação com/as estudantes, de garantir mais transparência, participação e fiscalização no uso dos recursos da entidade, de construção da UNE nas bases, através da retomada do Conselho Nacional de Entidades de Base (CONEB), da organização de comitês em cada universidade.

Não podemos subordinar a luta política geral na sociedade à disputa de rumos da UNE. A universidade não é uma bolha e o movimento estudantil tem que estar a serviço dos interesses juventude e do povo brasileiro. Seguiremos buscando combinar a unidade ampla para defender os interesses da juventude e do povo brasileiro com a democratização da entidade e seu compromisso com a luta de massas.

Por isso, no 55º Congresso da UNE, o Levante Popular da Juventude, em coerência com esse compromisso e com as necessidades concretas que esse momento político nos impõe, construiu a chapa “Frente Brasil Popular: a unidade é a bandeira da esperança”.

Seguiremos construindo o Campo Popular dentro da UNE, nestes novos marcos de rearranjo de forças dentro da entidade, combinado com a unidade mais ampla da Frente Brasil Popular, para que a juventude e o povo brasileiro possam assumir as decisões sobre o presente e o o futuro do Brasil. A história da UNE se fez com muita luta, ocupando prédios, ocupando a arte, ocupando as ruas e ocupando o Brasil. Resgatar a história da entidade nos dá orgulho e uma grande responsabilidade com aqueles e aquelas que deram a vida por essa entidade. É com esse espírito e essa garra que nós do Levante Popular da Juventude seguiremos!

Pátria Livre! Venceremos!


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