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[PAPO RETO] 28​ ​de​ ​setembro​ ​|​ ​Dia​ ​Latino-Americano​ ​e​ ​Caribenho​ ​pela​ ​legalização​ ​do​ ​aborto

Ser mulher em uma sociedade patriarcal não é uma tarefa fácil. Cotidianamente, vivenciamos opressões, frutos de um sistema capitalista que precisa reproduzir desigualdade, dominação e discriminação para que continue a explorar a classe trabalhadora para que sua margem de lucro seja sempre crescente e contínua. Não somente, o capitalismo tem uma aliança com o sistema patriarcal para oprimir e explorar as mulheres de forma mais violenta impondo papéis estruturantes na lógica de dominação na divisão sexual do trabalho.

Dentro da perspectiva da dominação, existe a divisão dos espaços de ocupação: para os homens o espaço público (a fala, as assembleias, as decisões, o mundo do trabalho) e às mulheres sobra o espaço privado (a casa, o cuidado). A contradição existente na ocupação do espaço privado pelas mulheres consiste em o não direito de comando ao mais privado dos espaços: o corpo. O corpo da mulher não deixa de ser um espaço legislado e comandado pelos homens, por isso a decisão do aborto não está vinculada a escolha da mulher, e é essa realidade que precisa ser transformada.

Uma das discussões mais presentes, porém, mais velada é a luta pela descriminalização do aborto no Brasil (onde já é legal o aborto por motivos de estupro, risco de vida à mãe e fetos anencéfalos). Ainda, existe em tramitação nesse atual congresso conservador ​projetos de lei que tem por objetivo criminalizar qualquer prática de abortamento (como o PL 5069/2013 ​que “tipifica crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas a quem induz a gestante à prática do aborto”).

Mas então por que, nós do projeto popular, devemos lutar pela descriminalização do aborto? Para responder a tal pergunta, basta olharmos os dados de pesquisa que são apresentados recorrentemente sobre a questão do aborto no nosso país. As mulheres que mais morrem em abortos clandestinos são as jovens que não tem acesso a uma educação sexual e ao planejamento familiar, vítimas de uma política que visa o sucateamento da saúde e da educação e de propostas fundamentalistas que não permitem o debate de gênero nas escolas. Além disso, elas são aquelas que precisam manter seus empregos precarizados para a garantia mínima de sobrevivência e que uma gravidez se torna um dificultador nesse processo.

Atualmente, as mortes relacionadas ao abortamento constituem a quinta maior causa de morte materna no país. Em 2015, mais de meio milhão ​de mulheres realizaram abortos clandestinos no Brasil. E estas são mulheres distantes de nossa realidade? Não, são nossas próprias mães, irmãs, amigas, vizinhas, primas, tias, etc. mulheres da classe trabalhadora que são forçadas a recorrerem a serviços improvisados e insalubres com uso de recursos e ferramentas inapropriadas, por falta de políticas públicas que pensem a vida concreta das mulheres. Na pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2013, se apontou que no Nordeste, por exemplo, o percentual de mulheres sem instrução que fizeram aborto provocado (37% do total de abortos) é sete vezes ​maior que o de mulheres com superior completo (5%).

As mulheres negras têm um risco três vezes maior de morrer por complicações do abortamento do que mulheres brancas e são também estas, de baixa escolaridade e com menos de 21 anos as que mais passam pelo processo sozinhas, sem o auxílio ou apoio de outros sujeitos. Entre as mulheres negras, o índice de aborto provocado (3,5% das mulheres) é o dobro ​daquele verificado entre as brancas (1,7% das mulheres). Fica evidente que a estrutura patriarcal e racista impacta a vida das mulheres.

Todos esses dados são reflexos de um estrutura de Estado, representada por bancadas conservadoras, pelo desmonte da saúde pública, pela retirada dos debates de gênero e sexualidade dos currículos escolares, pela extinção da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, que são processos que já vem de antes, mas que vêm se aprofundando cada vez mais na retomada de um projeto que visa explorar ainda mais os trabalhadores no governo golpista de Temer, e que estão deixando mulheres jovens, negras e da classe trabalhadora morrerem em situações desumanas.

É preciso dar assistência às mulheres, fazer com que elas saibam os direitos que tem, ter um corpo de profissionais, que inclua enfermeiras/os, médicas/os, assistentes sociais e psicólogas/os prontos a acompanhar as mulheres que necessitam, para que a intervenção – que por si só já é violenta e cheia de implicações – seja menos dolorida. O SUS deve ser a porta de acesso, o corpo profissional preparado, o que precisamos hoje, no Brasil, é que as mulheres parem de morrer na clandestinidade.

Por isso, pensar o aborto não por uma perspectiva moralista e conservadora ou por uma ideia restrita de liberdade individual da mulher, se faz necessário. É preciso que a luta pela descriminalização do aborto se faça na defesa da vida das mulheres, que, tem raça e tem classe. É preciso resistência para enfrentar os retrocessos que estamos passando nas políticas voltadas para mulheres. É preciso ter a coragem de denunciar todas as medidas que esse governo e o legislativo estão tomando contra a classe trabalhadora. É preciso organizar, formar e lutar pela vida das mulheres!

FORA TEMER! NENHUM DIREITO A MENOS PARA AS MULHERES! DIRETAS JÁ E CONSTITUINTE! MULHERES NO PODER! ABORTO LEGAL E SEGURO! É PELA VIDA DAS MULHERES!

 

Levante Popular da Juventude Setor de mulheres – Clara Camarão Natal/ RN

 


Dia 25 de julho: Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha

“Fortalecer a luta das mulheres negras para fortalecer a luta por uma nova sociedade”

“São tempos difíceis para as sonhadoras”. A verdade, porém, e a nossa história confirma, é que nunca foi fácil para as mulheres negras latino-americanas e caribenhas. E em tempos de golpismo e de avanço dos governos neoliberais, as contradições estruturais de um sistema capitalista-patriarcal-racista apenas se acirram.

Os povos da América Latina e Caribe passaram por processos de colonização que tiveram em comum a escravidão, a exploração e a dominação de seus corpos e das suas terras. É por isso que neste 25 de julho, dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, precisamos relembrar o histórico de lutas e resistência das mulheres negras, assim como apontar os caminhos coletivos de acúmulo de força popular para a transformação da realidade imposta por uma conjuntura de grande investida do projeto neoliberal em toda América Latina e Caribe.

Durante séculos, houve resistência à escravidão e o povo negro, tendo muitas mulheres entre suas lideranças, travou grandes lutas, revoltas e levantes. A escravidão deixou um vergonhoso legado de exploração, mercantilização e dominação do povo negro, se expressando e tomando forma nas relações sociais, na educação, no trabalho e na saúde. No sistema capitalista, para que a ordem social se mantenha e as relações de poder sejam estabelecidas, a violência se configura como uma das bases materiais de manutenção da exploração.

O “Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha” foi estabelecido em 1992, durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-caribenhas, em Santo Domingo (República Dominicana), com o intuito de provocar a reflexão sobre a condição das mulheres negras na América Latina e Caribe. Este dia de luta não resume a sua importância somente em demarcar a condição e a resistência da mulher negra, mas também contribuiu para a construção do nosso feminismo, o feminismo popular.

Temos compreensão de que esta é uma luta de toda a classe trabalhadora, uma vez que a exploração, dominação e todas as consequências de nossa formação social, de um capitalismo estruturado com o patriarcado e o racismo, não recaem somente sobre as mulheres, mas estruturam as relações e a vida de todo o povo brasileiro. Em tempos de leituras individualizantes, se faz ainda mais necessário compreender o sistema patriarcal-racista-capitalista e reafirmar a saída coletiva, alicerçada na organização e no protagonismo daquelas que sofrem a exploração e a opressão.

Não é à toa e nem conjuntural: as mulheres negras estão em maior vulnerabilidade social desde sempre no Brasil.

– 59,4% das mulheres brasileiras vítimas de violência são negras*;

– 68,8% das mulheres brasileiras mortas por agressão são negras*;

– A mulher negra ganha 60% menos que o homem branco no Brasil**.

As mulheres negras são as principais vítimas dos abortos clandestinos e dos índices de feminicídio, como apontou o mapa da violência de 2015, em que o feminicídio (quando o assassinato decorre pela condição de mulher da vítima) de mulheres negras aumentou 54% em 10 anos, enquanto o das mulheres brancas diminuiu. Sem contar com o aumento do encarceramento feminino, em que mulheres negras são 86% das encarceradas. Os dados são alarmantes e nos evidenciam o que já sabemos: o racismo, a exploração e a opressão vividas pelas mulheres negras diariamente no Brasil.

A separação e hierarquização do trabalho de homem e de mulher, bem como a separação e hierarquização do trabalho de mulheres brancas e mulheres negras, coloca as mulheres negras na base da pirâmide social, nos postos de trabalho mais precarizados e subalternizados. As mulheres negras têm maiores jornadas de trabalho, ganham metade do salário dos homens brancos, estando a maioria concentrada no trabalho informal e sem carteira assinada. São as responsáveis na maior parte das vezes pelo trabalho doméstico e pelas tarefas de cuidado, atividade invisibilizada pela sociedade e com baixa ou até mesmo nenhuma remuneração.

Em tempos de crise econômica, política e social, são inúmeros os retrocessos e extremamente perceptível o aumento do conservadorismo. É sintomático o aumento da violência contra as mulheres negras no campo e na cidade – as mulheres negras morrem duas vezes mais que as mulheres brancas -, enquanto a rede de apoio institucional às vítimas se torna praticamente inexistente. Recentemente o governo ilegítimo de Temer cortou 61% das verbas destinadas ao atendimento de mulheres vítimas de violência. Além disso, determinou o fim da Secretaria da Promoção da Igualdade Racial e da Secretaria de Política para as Mulheres.

Estamos vivenciando o desmantelamento dos direitos sociais outrora assegurados e conquistados historicamente pela classe trabalhadora por um governo golpista, patriarcal, racista e antipopular. Em menos de um ano, congelou os investimentos na educação pública, impôs a reforma do ensino médio, sufocou sistematicamente o Sistema Único de Saúde (SUS), fortaleceu o caráter genocida das polícias e as políticas de limpeza racial dos grandes centros urbanos.

As mulheres negras querem e podem decidir os rumos do país. Querem – e vão – transformar a política e mudar a realidade do povo brasileiro e latino americano, que carregam uma história de resistência diante de um racismo que ainda pesa sobre seus ombros. É por isso que a construção de um feminismo das mulheres da classe trabalhadora, que esteja presente nas universidades, nos bairros, nas cozinhas, nos pontos de ônibus, nas filas dos hospitais, dentro dos lares brasileiros, enfrentando as contradições, precisa ser parte do horizonte de construção do Projeto Popular para o Brasil.

Enquanto as mulheres negras da classe trabalhadora forem exploradas, estiverem fora dos espaços de produção do conhecimento, em trabalhos precarizados e subalternizados, encarceradas nos presídios superlotados, morrendo nas filas dos hospitais, vítimas de abortos clandestinos e do feminicídio, a libertação do nosso povo não será possível. É preciso mudar o mundo pra mudar a vida das mulheres e mudar a vida das mulheres para mudar o mundo!

Nós, jovens negras, somos as filhas e as netas de mulheres guerreiras da classe trabalhadora, que matam mais de um leão por dia para sobreviver e sustentar os seus. No dia 25 de julho, todas e todos nós estaremos nas ruas, em unidade com as mulheres e organizações da classe trabalhadora, contra as reformas da previdência e trabalhista, pela legalização e descriminalização do aborto, o fim do feminicídio e exigindo Fora Temer! Queremos Diretas Já!

Seguiremos de punho erguido, celebrando a resistência de Teresa de Benguela, Luisa Amanda Espinoza, Mariana Grajales Cuello, Negra Zeferina, Maria Felipa e de todas as mulheres negras latino-americanas e afro-caribenhas, até que todas sejamos livres!

*Dossiê Violência Contra as Mulheres, Agência Patrícia Galvão, 2016.

** IPEA, 2015.


A unidade necessária para derrotar o golpe

O Golpe parlamentar de 2016 que afastou a Presidente eleita Dilma Rousseff e vem impondo retrocessos e uma agenda neoliberal de retirada de direitos representa mais que uma perda de um governo, representa uma derrota de natureza estratégica. O que significa isso? À medida que a classe dominante tem o controle do aparelho de estado, o seu objetivo estratégico não é a conquista do poder, mas sim, neutralizar qualquer possibilidade que ameace o seu domínio. Em outras palavras: o objetivo estratégico da burguesia é a nossa destruição. Destruição que pode ser física, como também, destruição da nossa capacidade de organização e luta.

É isso que está em jogo com a criminalização de lideranças populares, a exemplo do Lula e militantes dos movimentos populares, de partidos políticos, como PT, dos movimentos populares e sindicais. A Reforma Trabalhista além de retirar direitos básicos, destrói a organização sindical no Brasil, empunhando um golpe brutal na resistência sindical e popular.

Não se trata, portanto, de uma derrota do PT ou das organizações que protagonizaram o último ciclo político no Brasil, mas uma derrota de toda a esquerda e do povo brasileiro. Se pudéssemos sintetizar esse momento numa imagem seria a de um cerco em que o inimigo avança em direção ao nosso aniquilamento, indistintamente. Infelizmente, ainda existe na esquerda brasileira posturas vacilantes ou oportunistas que acham que é possível se beneficiar desse cerco e tentam se auto construir em cima disso, como é o caso da posição oportunista, e de direita, de defesa da Operação Lava Jato, uma operação flagrantemente política, seletiva, autoritária, de inspiração fascista, que ameaça a democracia.

O que fazer diante desse cenário? Primeiro, sobreviver, resistir! E construir as condições para ofensiva.

A sobrevivência impõe a unidade ampla das forças populares como uma necessidade fundamental nessa conjuntura. Não se combate uma conjuntura de cerco e aniquilamento com sectarismo. Não se combate uma conjuntura de cerco e aniquilamento colocando as nossas divergências acima daquilo que nos une nesse momento que é a resistência a essa ofensiva.

Isso significa que todas as forças que se colocam contra Golpe, contra a retirada de direitos e ao desmonte do Estado devem compor uma frente ampla para fazer o enfrentamento ao inimigo principal. Momentos similares na história exigiu essa postura e a negativa ou a vacilação nessa tarefa custou muito caro as organizações populares e a todo o povo brasileiro.

Esse é o significado da Frente Brasil Popular nessa conjuntura. Reunir todas as forças populares e democráticas para resistir e preparar a ofensiva.

E o que isso tem a ver com a juventude?

Todos os momentos da história que a juventude e o movimento estudantil brasileiro, e a própria UNE, fizeram diferença na luta de classes e cumpriram um papel político importante foi quando se colocou como porta-voz das lutas do nosso povo. Foi assim na luta contra nazifascismo, na campanha “O petróleo é nosso!”, na luta contra Ditadura Militar e, mais recentemente, na luta contra o Golpe de 2016 e a retirada de direitos.

E num momento tão complexo como este, o mais difícil que a nossa geração já viveu, não podemos vacilar no compromisso com o povo brasileiro. Esse é o sentido principal da nossa luta e a condição fundamental para construção de um projeto popular para o Brasil.

A compreensão dos desafios do atual momento não afastam os demais desafios e críticas que temos apontado à entidade e que marcam, desde o princípio, a entrada do Levante Popular da Juventude na UNE. Esta compreensão nos levou a construir o Campo Popular, como uma alternativa a polarização despolitizada que prevalecia na entidade. Acreditamos que para fazer jus a história da UNE e as tarefas impostas pela luta de classes precisamos fazer da UNE um instrumento de organização e resistência da juventude, presente no dia a dia dos/as estudantes, com capacidade e centralidade na luta de massas, no trabalho de base, na agitação e propaganda e na aliança, a partir de ações concretas, com os movimentos populares e com o povo brasileiro, a exemplo do Centro Popular de Cultura (CPC), da UNE. E isso passa por mudanças na linha política e na condução da entidade.

O Campo Popular e os desafios que apontamos permanecem vigentes. Neste sentido, apresentamos em nossa resolução de movimento estudantil um programa e uma agenda para a entidade que orientará a construção do Campo Popular dentro da UNE, que passa por democratizar a entidade, descentralizar as decisões, de fortalecer e profissionalizar a comunicação com/as estudantes, de garantir mais transparência, participação e fiscalização no uso dos recursos da entidade, de construção da UNE nas bases, através da retomada do Conselho Nacional de Entidades de Base (CONEB), da organização de comitês em cada universidade.

Não podemos subordinar a luta política geral na sociedade à disputa de rumos da UNE. A universidade não é uma bolha e o movimento estudantil tem que estar a serviço dos interesses juventude e do povo brasileiro. Seguiremos buscando combinar a unidade ampla para defender os interesses da juventude e do povo brasileiro com a democratização da entidade e seu compromisso com a luta de massas.

Por isso, no 55º Congresso da UNE, o Levante Popular da Juventude, em coerência com esse compromisso e com as necessidades concretas que esse momento político nos impõe, construiu a chapa “Frente Brasil Popular: a unidade é a bandeira da esperança”.

Seguiremos construindo o Campo Popular dentro da UNE, nestes novos marcos de rearranjo de forças dentro da entidade, combinado com a unidade mais ampla da Frente Brasil Popular, para que a juventude e o povo brasileiro possam assumir as decisões sobre o presente e o o futuro do Brasil. A história da UNE se fez com muita luta, ocupando prédios, ocupando a arte, ocupando as ruas e ocupando o Brasil. Resgatar a história da entidade nos dá orgulho e uma grande responsabilidade com aqueles e aquelas que deram a vida por essa entidade. É com esse espírito e essa garra que nós do Levante Popular da Juventude seguiremos!

Pátria Livre! Venceremos!


Dia do Meio Ambiente – podemos comemorar?

Ontem, no dia 5 de junho, comemoraram no mundo inteiro, o Dia do Meio Ambiente. A data foi estabelecida em 1972, na Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente. Mas será que temos algo a comemorar neste dia?

Não é novidade pra ninguém que estamos vivendo uma profunda crise no nosso país. A cada dia um novo escândalo político, uma nova medida relâmpago como o congelamento dos investimentos sociais por 20 anos, a reforma do ensino médio, a reforma da previdência, o desmonte do Sistema Único e Saúde (SUS), e por aí vai.

O meio ambiente não fica de fora. O desmatamento da Amazônia volta a crescer após a aprovação do novo Código Florestal, as grandes cidades passam por racionamento de água, a Samarco/BHP/Vale destruiu uma região e contaminou um rio inteiro, a seca (e agora as enchentes) maltratou os camponeses no nordeste e o cerrado – sim, o bioma inteiro – pode desaparecer.

Por isso não falamos em apenas uma crise, mas sim em várias crises conjugadas: econômica, política, social e ambiental. Olhando assim, parece que esse monte de notícia não tem ligação nenhuma. Mas na realidade as razões pra tudo isso estão intimamente ligadas. Esses acontecimentos também não têm raízes só no Brasil. Eles respondem a mudanças internacionais e que nos afetam diretamente.

O lucro acima da vida

Desde 2008 vivemos uma profunda crise econômica que começou nos Estados Unidos e depois foi atingindo todos os países. Essa crise foi causada pela própria dinâmica de funcionamento do capitalismo atualmente que tem se tornado cada vez mais financeirizado, ou seja, que se preocupa em garantir seu lucro mesmo que seja sobre coisas fictícias. Os capitalistas continuam lucrando, mas menos do que gostariam, por isso buscam saídas não se importando com o preço que os trabalhadores precisem pagar.

Essas saídas, para eles, significam aumentar a sua capacidade de lucrar e isso acontece fundamentalmente das seguintes formas: a primeira é aumentando a exploração sobre a força de trabalho, ou seja, retirando os direitos trabalhistas e sociais, causando desemprego, fazendo as pessoas trabalharem mais por salários menores. A segunda maneira é se apropriar ainda mais dos recursos dos Estados nacionais, garantindo que todo o dinheiro arrecadado vá para pagar suas dívidas e financiar o seu investimento. A terceira, e que queremos chamar atenção, é atacar os bens naturais, ou seja, a terra, a água, as florestas, o petróleo, os minérios. As grandes empresas transnacionais ao se apropriarem dos bens naturais conseguem garantir o que chamam de lucro extraordinário, pois esses bens são produzidos pela natureza, bens comuns, necessários à todos, mas que passam a gerar lucros privados. Estes são os grandes interesses que estão em jogo.

Meio ambiente no Brasil
  • A maior biodiversidade do planeta: 2 milhões de especies de animais, plantas e fungos
  • Em 2016, foram desmatados 7.989km2 de floresta amazônica, o equivalente a mais de 2 mil campos de futebol por dia
  • Foram utilizados 890 mil toneladas de agrotóxicos no Brasil em 2015. É como se cada pessoa estivesse exposta a 4,3 kg de veneno durante o ano
  • O Crime da Samarco/Vale/BHP Billiton, em Mariana, despejou 55 milhões de metros cúbicos de lama e contaminou 850km do rio doce, de Mariana até o oceano. 19 pessoas morreram e milhares ficaram sem água e sem condições de pescar

Agronegócio – vilão do meio ambiente

Quando falamos em crise ambiental estamos nos referindo a uma série de situações combinadas: a degradação dos solos, a escassez de água, a perda de biodiversidade, o acúmulo de lixo tóxico, a redução das florestas e a poluição dos rios, as secas mais longas em várias partes do mundo, as mudanças climáticas, a acidificação dos oceanos, etc.

No Dia do Meio Ambiente são feitas várias atividades nas escolas, nas ONGs, nos programas de TV e vários outros espaços. No entanto, muitas vezes se coloca a culpa da crise ambiental no desperdício individual ou no papel de bala que é jogado no chão. Se fala que a culpa é de todo mundo e nós sabemos que quando a culpa é de todos, na verdade não é de ninguém. É claro que as ações individuais são importantes, mas elas estão longe de ser as principais causadoras dos problemas ambientais.

Dentre todos os vilões responsáveis pela destruição do meio ambiente, há um que merece todo destaque: o agronegócio. O agronegócio é um sistema de produção que funde todas as dimensões da economia capitalista: agricultura, indústria, comércio e finanças. É fácil reconhecê-lo, pois ele se fundamenta na grande monocultura, com uso intensivo de tecnologias como sementes modificadas, fertilizantes qúimicos, máquinas pesadas e agrotóxicos, e depende das multinacionais que fornecem essas tecnologias. Além disso, seu foco é produzir mercadorias, e não comida.

O agronegócio constrói um discurso de modernidade e sustentabilidade para tentar esconder a sua verdadeira essência que é concentrar a terra e explorar o ser humano e a natureza ao máximo. Por isso, não podemos falar de preservação do meio ambiente e de justiça social se não entendermos o papel do agronegócio e, consequentemente, sem fazer enfrentamento a ele.

Agronegócio, mineração e crise hídrica

Outra manifestação da crise ambiental é a falta de água, que tem provocado racionamento em grandes cidades como São Paulo e Brasília. O que a mídia não fala ao noticiar a crise hídrica é que a destruição do cerrado é uma das suas principais causas.

O cerrado é um dos biomas mais antigos do planeta, e é extremamente biodiverso. No entanto, desde a década de 1970, é também um dos principais espaços de expansão do agronegócio. O uso de máquina pesadas nas áreas de recarga dos aquíferos provoca compactação dos solos. Quando vêm as chuvas, a água não consegue infiltrar como antes e, como consequência, o nível dos aquíferos diminui. Sem os aquíferos para alimentar os rios, eles desaparecem. É importante ressaltar que a mineração também é uma grande responsáveis pela crise hídrica, pois é nas rochas que água fica armazenada para os períodos sem chuva.

Casos emblemáticos – agronegócio e meio ambiente
  1. Em 2013, um avião pulverizou agrotóxicos sobre uma escola na cidade de Rio Verde, no estado de Goiás. 100 pessoas, a maioria crianças, foram hospitalizadas com sintomas de intoxicação.
  2. Estudo da UFMT mostrou a contaminação generalizada na cidade de Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. Foram encontrados agrotóxicos na água da chuva, sangue e urina de professores, poços de água de beber, e inclusive no leite materno.
  3. No Mato Grosso do Sul, indígenas dos povos Guarani e Kaiowá que vivem na Terra Indígena Tey’i Juçu relataram em 2015 e 2016 ataques sofridos com a pulverização aérea de agrotóxicos sobre suas aldeias, acompanhadas de ameças de pistoleiros. Além de sofrer intoxicações, a água da comunidade foi contaminada.
  4. Após 3 anos trabalhando como misturador de agrotóxicos na empresa Del Monte, em Limoeiro do Norte (CE), o trabalhador Vanderlei Matos da Silva faleceu com diagnóstico de Insuficiência Renal Aguda, Hemorragia Digestiva Alta e Insuficiência Hepática Aguda. Em 2013, a Justiça reconheceu neste caso pela primeira vez a relação entre o manuseio de agrotóxico e a morte de um trabalhador.

Agricultura Familiar e Agroecologia defendendo a natureza

Quem olha a destruição do meio ambiente causada pelo agronegócio deve se perguntar: sempre foi assim? Por quanto tempo o planeta ainda vai aguentar?

Felizmente, desde que existe o agronegócio, existe também resistência e pessoas que lutam por uma outra forma de viver no campo e produzir alimentos saudáveis. Hoje, um número cada vez maior de camponeses está fazendo a transição para o modelo da agroecologia.

Como o próprio nome já diz, agroecologia é uma forma de fazer uma agricultura ecológica, em harmonia com a Natureza. Resgatando os conhecimentos do passado, e incorporando novas técnicas, a agroecologia não se limita à produção de alimentos: também fala de reforma agrária, igualdade entre homens e mulheres e preços justos para quem produz e quem consome.

Ao invés do monocultivo do agronegócio, a agroecologia propõe os cultivos consorciados e a agrofloresta. Desta forma, mantemos o equilíbrio do solo, pois se uma planta retira certo nutriente, a outra repõe. E com o ecossistema equilibrado, plantas e insetos que eram considerados pragas, agora convivem em harmonia com a produção.

A adubação é feita utilizando esterco de animais do próprio local, compostagem ou mesmo os chamados adubos verdes, que são plantas com capacidade de regenerar a fertilidade do solo.

A agroecologia também tem um papel fundamental na preservação da água. Além de não contaminar a água com agrotóxicos, os sistemas agroecológicos têm o poder de recuperar nascentes. Ao deixar o solo vivo e saudável, mantemos abertos os poros que levam a água da superfície para mananciais e aquíferos.

A agroecologia é um modelo de produção que enfrenta o agronegócio, pois tem como objetivo produzir alimentos saudáveis e não mercadorias. Além disso, ao invés de usar grandes extensões de terra concentrada na mão de poucos ruralistas, a agroecologia necessita que cada família camponesa tenha seu pedaço de terra para trabalhar.

As agroindústrias para processar os alimentos também são muitos importantes no sistema agroecológico, pois coloca nas mãos dos agricultores os instrumentos para agregar valor aos produtos fugir da grande indústria de alimentos.


Um Plano Popular para enfrentar a crise  

O golpe no Brasil não tratou apenas da mudança na condução política do país, com a substituição orquestrada de Dilma por Temer. Trata-se de um profundo processo de reorganização político-econômica, com o objetivo de ampliar os lucros dos capitalistas, a partir da retirada de direitos conquistados pelos trabalhadores desde o processo de redemocratização no pós-ditadura militar.

Estas conquistas, além de melhorarem as condições objetivas da vida do povo, contribuem também para a formação da consciência política das gerações atingidas. Há um nível de cristalização do que a população aceita ou não no que diz respeito a manutenção de seus direitos, e as constantes lutas de resistência travadas – especialmente pelos setores organizados (mas com ampla aceitação da população, veja-se o grau de impopularidade do governo e suas medidas) – desde o processo de impeachment de Dilma revelam que as reformas propostas por Temer não serão aceitas passivamente. Os massivos protestos de Brasília e Rio de Janeiro nos dias 24 e 28 passados são prova disso.

Contudo, apenas o enfrentamento de resistência às reformas não é suficiente para retomar os rumos de desenvolvimento do país. É preciso que haja um enfrentamento propositivo, com capacidade de apontar não apenas medidas de restabelecimento da antiga política econômica, mas que apontem uma nova política de desenvolvimento e geração de empregos e renda; aprofundem a democracia, prevenindo golpes e ações de desestabilização; que amplifiquem os direitos da população trabalhadora, verdadeira construtora da Nação; reorganize o sistema tributário, desonerando os mais pobres e taxando as grandes fortunas; revise o sistema da dívida pública que sangra os cofres num claro intuito de manter o país de joelhos; crie mecanismos de proteção às populações vulneráveis; entre outras tantas medidas necessárias.

Assim, foi lançado pela Frente Brasil Popular nesta segunda (29) o Plano Popular de Emergência, um conjunto de propostas construídas com o intuito de apontar medidas de superação da crise pela qual o país atravessa, em suas dimensões econômica, política, social e ambiental. Além disso, o plano tem por objetivo subsidiar o debate com o conjunto da população brasileira, através do enraizamento da Frente Brasil Popular em cada canto do país.

Dentre as primeiras medidas apontadas pelo plano está a convocação imediata de eleições diretas para presidência. A incapacidade de Temer em levar adiante as reformas – fruto da resistência proporcionada pelas lutas que se travaram – levou setores do golpe a forçar a sua substituição na presidência, construindo para isso a alternativa das eleições indiretas. Mesmo que a vocalização da mídia golpista sobre o assunto não seja uníssona, há grande chance de Temer cair. Contudo, a via das eleições indiretas é inaceitável.

A votação do processo de impeachment em abril de 2016 mostrou ao Brasil quem são os parlamentares que compõem a maioria do Congresso: funcionários de carreira do poder econômico, em defesa dos interesses de seus investidores de campanha, de suas “famílias”, enfim, contra a população. A atual composição do congresso não tem a legitimidade e a menor condição ética e moral de eleger quem vai comandar o país. Assim, a saída apontada pela Frente Brasil Popular e o conjunto das forças que a compõem como pré-condição para a realização de todas as outras medidas propostas pelo Plano Popular de Emergência é a convocação imediata de eleições diretas de um novo chefe de Estado. Só assim será possível devolver um caminho de legitimidade para a política e a economia brasileiras.

Ainda, a retomada do desenvolvimento e estabilidade política no médio e longo prazo dependem também de medidas que transformem qualitativamente nossa democracia. Assim, o plano propõe a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, com objetivo de restabelecer o pacto democrático criado pela Constituição de 1988, mas desde lá sequestrado pelo poder econômico e incapaz de abarcar as transformações de que necessita a sociedade brasileira. Apenas com o estabelecimento de novas regras para a política, imunes à influência perniciosa dos interesses capitalistas, é que podemos refundar o Estado brasileiro e recolocar os interesses de seu povo em primeiro lugar.


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