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La Higuera, um lugar no mundo

Existem lugares que por se encontrar em sítios remotos, possuir climas inóspitos ou por não ter certos serviços públicos, não são atrativos para muitas pessoas. La Higuera é um deles. Lugar onde só chega quem realmente tem um autêntico interesse em conhecer.

Uma longa estrada de terra, entre montanhas, na qual as curvas vem uma atrás da outra, em conjunto com uma inclinação íngreme. Um clima seco que produz sulcos tanto na pele como no chão, chuvas só em um mês do ano, o mesmo mês onde se pode conseguir alguma fruta. O sol divide o dia em dois, toda atividade ao ar livre devem ser feitas antes das 11 da manhã ou após as 4 da tarde. Água, até recém começada a tarde e energia elétrica não existe. Internet, wi-fi, sinal de telefone não são conhecidas lá. Lugar onde fica que realmente tem um autêntico interesse em descobrir.

Um povoado empoeirado mais desses perdidos no meio da nada, com quase 2.000 metros de altitude, que ninguém tivesse conhecido se não for por que lá, na escola do povoado, uma das personalidades mais transcendentes do século XX foi assassinada: Ernesto “Che” Guevara.

 

Desde a pequena praça, à primeira vista podem-se visualizar três brigas do guerrilheiro nascido em Rosario, na Argentina. A nova escola primária, que assim como a maioria das casas e armazéns tem murais ou grafites feitos por viajantes e ativistas sociais de todo o mundo que chegaram a esta terra onde a presença da morte do Che os faz passar várias horas em ônibus raquíticos, por estradas de terra desenhadas em grandes morros cobertas com vegetal de terra seca – colmeias e arbustos- que secam a pele apenas de ficar perto da janela.

É que, embora existam repetidas promessas de asfalto e melhorias na estrada, a viagem entre Valle Grande – a cidade mais próxima – e La Higuera são umas longas 3 horas onde o sol é onipresente, somente interrompido por algumas pequenas cidades, como Pucará, auto chamada “a capital do céu”, que tanto no seu escudo como no posto de polícia mostra a fotografia mundialmente famosa do homem da estrela que o fotógrafo cubano Alberto Korda tirou na Praça da Revolução de La Habana.

 

A 20 metros da praça da cidade está o Museu Comunitário “La Higuera”, construído sobre a demolida escola onde, na segunda-feira 9 de outubro de 1967, após receber a ordem de La Paz e Washington, as balas do sargento Mario Terán bateram primeiro no antebraço e na coxa de Guevara para depois, numa segunda execução após o próprio Che ordenar que “apontasse bem”, perfurar o pescoço do líder guerrilheiro. O relógio marca 15 minutos para a 1 da tarde, Che estava dessangrando quando o sargento Bernardino Huanca entra no quarto, lhe dá uma chutada que o deixa com a boca para a cima e, a menos de um metro de distância, dispara direto ao coração. Uma hora antes, tinham levado Che para fora do lugar para tirar-lhe algumas fotos. Muitos vizinhos do povoado têm aquela lembrança. Lá, dentro desse quarto, hoje não há mais espaço livre nas paredes. Como se tratasse de um santuário de alguma divindade pagã, numerosas mensagens, agradecimentos, fotos, bandeiras e palavras lotam as paredes como se fosse o bem conhecido bar de La Habana “La Bodeguita del Médio”.

Ninguém na aldeia ou na área sabia quem era o Che Guevara. Um lugar onde até hoje não há televisão, rádio, jornais, nem internet, nem sinal de telefone, nem transporte de longa distância. As novidades do mundo não chegam neste ponto da Bolívia. Com isso, podemos imaginar como eram as notícias há meio século. “Se eu tivera sabido quem ele era, eu o tivesse ajudado a fugir” disse o senhor Florencio frente a minhas perguntas, enquanto descemos até a Quebrada del Churo, onde Guevara foi capturado e hoje têm uma pedra com uma estrela vermelha. Uma das duas estradas que descem para aquele lugar atravessam a fazenda do avô que, junto com seu filho Santos, cobram 10 pesos bolivianos, cerca de um dólar e meio, para quem quer andar uns 40 minutos de descida até o rio. Dom Florencio tinha 27 anos naquela tarde do domingo 8 de outubro, quando o combate terminou com o Che preso e começou a caravana para o povoado passando por sua fazenda. “Ele parecia um indigente, barbudo, sujo, magro, com roupas rasgadas e sapatos improvisados feitos com um pano”. Che tinha escrito no dia 10 de setembro em seu diário: “Atravessei o rio nadando com a mula, mas perdi meus sapatos enquanto o cruzava e agora estou com uns panos, coisa que não é nada engraçada.”

A caravana de soldados, reféns  e mortos em combate levou cerca de duas horas andando desde a Quebrada del Churo até La Higuera. À vista dos povoadores daquele tempo. Dona Hirma tinha 20 anos quando a caravana passou pela porta de sua casa, ela trabalhava como assistente de tipógrafa quando o mundo colocou seus olhos sobre seu povoado. “Começa um novo Vietnã?”, se perguntava Che em seu diário quando confirmava a intervenção dos EUA no combate. “O povo de La Higuera estava com medo, dificilmente se encorajava a espiar detrás da porta da sua casa aos estrangeiros com barba. Porque os militares pegavam e levavam preso a Valle Grande aos camponeses que ajudavam a guerrilha com comida ou recursos”, diz a senhora dona da loja “La Estrella” que fica em frente a praça. Sua loja oferece pão caseiro cozidos no forno de barro, queijos feitos com leite ordenhada todas as manhãs pela própria senhora de 70 anos. Depois de atirar nele, os militares expuseram o corpo do guerrilheiro cubano-argentino fora da escola, momento em que o povo conheceu pela primeira vez a imagem do perigoso revolucionário de quem tanto lhe falaram. Dona Hirma e uma amiga aproximaram-se levadas pela curiosidade para ver: “ficamos impressionadas com o olhar dele, ele tinha os olhos abertos”, lembra.

“Se alguma coisa fez bem o exército, foi introduzir a cultura do medo na região”, diz Leo, chefe do escritório de turismo de Valle Grande e grande conhecedor da história, enquanto vai de uma reunião para outra em plena organização dos eventos que serão realizados em outubro, nos quais se esperam atrair milhares de pessoas. “As pessoas da aldeia ficaram assustadas com a psicose criada pelo exército e os permanentes estados de cerco em que viviam”, acrescenta Leo. Estratégia que continua inclusive depois de que o líder guerrilheiro morreu: “vocês serão bombardeados por aviões soviéticos e cubanos por o terem matado”, lembra Dona Hirma que os militares tinham-lhe dito.

 

São 6 horas da tarde, a noite vem chegando depois de um pôr-do-sol entre as montanhas que tinge com tons violetas, celestiais e laranjas no horizonte além do Rio Grande. O céu é uma brilhantina por causa da ausência de energia elétrica, todas as estrelas servem de fundo da estátua do Che. Me encontro com Casiano, um menino curioso de 12 anos que consegue moedas para doces e refrigerastes guiando os turistas até a Quebrada del Churo. Quando lhe pergunto o que ele sabe sobre o Che, ele me conta uma história que o avô lhe disse: “quando a caravana de soldados e reféns atravessou a cidade, Che tinha um relógio no pulso e o quis dar de presente para um camponês que estava assistindo o espetáculo, mas os soldado não deixaram, embora Che insistiu que queria o dar para o trabalhador”. Quando o menino viu minha câmera, pediu-me para tirar uma foto dele e depois ele tirar uma de mim. É a sua primeira foto com uma câmera sem ser a do seu telefone. No dia seguinte, ele me convidou para jogar futebol no pátio da escola, sob a luz da lua cheia. Eu já virei seu amigo e ele será o único na aldeia em aprender a me chamar pelo meu nome e não de “Don” ou “gringo”. Ele é o menino rebelde do povoado.

Apesar da presença de tudo relacionado a morte do Che, La Higuera não vive do turismo, a maioria dos visitantes vem por umas horas tiram algumas fotos e vão embora. Plantações de milho, vacas leiteiras, batatas entre outros poucos cultivos garantem a dieta dos habitantes locais. Existe apenas uma escola primária, de modo que os adolescentes vão para Valle Grande ou Santa Cruz para estudar e não retornam. “Não há pessoas para trabalhar a terra, aquela que nos dá comida todos os dias”, lamenta Dona Hirma. É que hoje moram cerca de 50 pessoas, antes moravam 70. Seus dois filhos que ainda vivem na aldeia ganham a vida oferecendo transporte de La Higuera para Valle Grande em seus táxis. Consciente do jeito em que o turismo altera a identidade dos lugares, a senhora e a maioria dos vizinhos são a favor de uma maior exploração do turismo. O que geraria mais clientes apara sua loja e mais comensais para seus almoços e jantares caseiros. Ela sabe que se a estrada estiver pavimentada e a luz elétrica for colocada, um número maior de turistas serão encorajados a ir para tirar fotos com a estátua do Che que está em frente a sua casa.

Em frente a praça, funciona a escola primária. Na parte detrás tem um espaço – um campo de futebol – que faz as vezes de habitação comunitária para aqueles que querem ir para o povoado e não tem dinheiro para acomodação. Na porta vem até meu encontro Brian, um menino de 6 anos que sempre está sorrindo, ele me diz que não gosta de ir a escola, mas escuta-se os gritos de sua mãe desde a porta de sua casa e ele não tem escolha. “Você sabe quem é o homem na estátua?” lhe pergunto. “Sim, ele é um guerrilheiro que foi morto pela polícia”, ele responde antes de entrar na escola em que todas as paredes têm frases ou murais do Che. Ele me mostra que está carregando um ovo e uma batata para que lhe cozinhem o almoço na escola.

“Às 3 horas da tarde do dia 8 de outubro acaba o Combate del Churo, e o Che é capturado, às 7 chegam em La Higuera. O dia 9 de outubro ao meio-dia é atirado. Depois é levado de helicóptero para Valle Grande, onde o expõem em “La Lavanderia” do hospital da cidade e onde o fotógrafo francês Marc Hutten tira as famosas fotografias do Che morto com os olhos abertos. Lá foi onde o médico Ustary Arze toca o corpo do guerrilheiro e observa que ainda é quente e que não tem a rigidez de uma pessoa morta de mais de um dia. Assim, torna-se na primeira pessoa a relatar que Che havia morto naquele mesmo dia e não em 8 de outubro em combate, como tinha reivindicado pelo exército: o Che foi assassinado” conclui Christian, um historiador francês  fanático do Che que vive há anos em La Higuera e que, juntamente com a sua parceira, são os donos da hospedagem “Los Amigos”, a acomodação mais confortável da cidade. Christian vai para sua giblioteca e prande bega dois livros e os dá para mim. São “El combate del Churo y el asesinato del Che”, de Reginaldo Ustariz Arze e “El asesinato del Che em Bolivia: Revelaciones”, de Adys Cupull e Froilan González. Nesses livros, é denunciado que a ditadura do General Barrientos escondeu e silenciou muitas vozes e testemunhas para instalar a ideia de que Che morreu em combate no dia 8 de outubro, por isso é que por tanto tempo lembrou-se dessa data e não 9 outubro como a data em que Guevara havia morto.

 

Depois dessa foto famosa em “La Lavanderia”, o Che é levado ao necrotério e suas mãos são cortadas antes de ser enterrado em um túmulo comum localizado nas proximidades do cemitério de Valle Grande junto com outros 6 guerrilheiros, permanecendo lá em segredo por 30 anos. Até que em 1997 um dos militares negou a versão, até aquele momento mantida pelo exército boliviano, de que o Che tinha sido morto em combate e seu corpo queimado e as cinzas ortigadas pelo Rio Grande. Na atualidade, onde essa fossa estava, tem o “Mausoleo del Che” juntamente com um interessante museu com fotos, replicas do diário do Che e de sua vestimenta, bem como muitas informações históricas.

Don Ismael, tinha 6 anos quando a guerrilha esteve por aqui. Lembra-se de que os guerrilheiros passaram descendo de Abra del Picacho, uma pequena aldeia acima de La Higuera. Onde os guerrilheiros estiveram e até dançaram algumas músicas aproveitando a festa da aldeia. “Eles foram vários homens que passaram tranquilos, saudando como qualquer outro visitante. Não me lembro das armas, apenas suas grandes mochilas” ele me diz, enquanto com minha inocente ajuda ele mata um porco, trabalho que Dona Gregoria encomendou, que seguindo sua visão de negócios está se preparando para o próximo festival da aldeia, onde venderá chicharrón – gordura e couro de porco frito com batata e milho – e porco assado. “Você tem medo da morte?” me surpreende e acerto um “não”. “Todos nós dizemos isso, mas quando aparece, aí realmente percebemos o que sentimos diante dela”, continua. “E você gostaria de ser um soldado de Jesus?” pergunta Dom Ismael, faca na mão, raspando o couro do porco morto, é que ele é evangelista e frequenta um templo da Igreja Universal em Valle Grande. Ele compara a guerrilha com os soldados de Jesus: “como o Che, Jesus lutou contra o império, em seu caso o romano. Pregando o bem contra o mal de Satanás. Che procurava uma vida melhor para nós camponeses, mas os ricos não o deixaram” conclui, e já é hora de cortar o porco.

As pessoas do povoado começam a mexer, todos preparando algum alimento para vender. É a festa da Virgem de Guadalupe, padroeira do lugar – sim, a mesma Virgem de Guadalupe que o sacerdote Hidalgo y Costilla levantou como bandeira na luta pela independência do México. A tradição é fazer uma promessa à virgem de dançar por três dias seguidos. É por isso que, nos dias 7, 8 e 9 de setembro há uma festa em La Higuera e em todas as aldeias vizinhas. Naqueles dias, os originários de La Higuera que migraram procurando melhor sorte em outras terras, generalmente para Valle Grande, Santa Cruz ou Argentina, retornam para se reconectar  com sua terra. Uma roda de chicha, bebida de milho fermentado, e sucumbé, bebida quente feita com leite ordenhada pela manha, cravo, canela e singani, passam de mão em mão sob o som de bandas que tocam música vallegrandina, uma espécie de rancheiras mexicanas, com chapéu e violão texanos ao lado do altar da Virgem, cheio de velas coloridas e flores oferecidas por seus fiéis.  As pessoas dançam e depois sentam-se para experimentar carne de porco ou frango picante.

Nesta data, as noites silenciosas, escuras e tranquilas que caracterizam a cidade são alteradas pela chegada de pick-ups 4×4 polarizados, geradores elétricos, alto-falantes e até fogos de artifício. A mistura de pessoas que se encontra resulta interessante. Pode-se distinguir facilmente entre aqueles que ainda moram em La Higuera: geralmente mais retirados, tímidos, com chinelos nos pés, roupas de campo com restos de alguma carne ou trabalho com o gado; com os higuerenses que hoje vivem longe de suas terras: roupas urbanas, jeans, sapatos, tênis e cortes de cabelo que usam jogadores de futebol. Assim rapidamente pode-se diferenciar as celebridades do povoado, na que ostentam roupas europeias ou norte-americanas, com a pele e os cabelos cuidados, maquiagem, sapatos de couro finos e uma presença que tem um ar de superioridade.

 

Tudo isso a unos 200 metros da escola, hoje museu, onde as últimas palavras do “homem mais completo do mundo”, segundo Sartre, ainda ecoam nas paredes como um eco infinito: “Fique calmo, você está por matar um homem”.

Outubro será uma festa. Faz 50 anos desde a morte do revolucionário que fez que La Higuera não fosse jamais a mesma. Espera-se que mais de dez mil pessoas cheguem ou consigam chegara  esta vila de 50 almas e levem um pouquinho desta terra no coração, tal como aconteceu com quem escreve estas linhas.

Por Lautaro Actis


[PAPO RETO] 28​ ​de​ ​setembro​ ​|​ ​Dia​ ​Latino-Americano​ ​e​ ​Caribenho​ ​pela​ ​legalização​ ​do​ ​aborto

Ser mulher em uma sociedade patriarcal não é uma tarefa fácil. Cotidianamente, vivenciamos opressões, frutos de um sistema capitalista que precisa reproduzir desigualdade, dominação e discriminação para que continue a explorar a classe trabalhadora para que sua margem de lucro seja sempre crescente e contínua. Não somente, o capitalismo tem uma aliança com o sistema patriarcal para oprimir e explorar as mulheres de forma mais violenta impondo papéis estruturantes na lógica de dominação na divisão sexual do trabalho.

Dentro da perspectiva da dominação, existe a divisão dos espaços de ocupação: para os homens o espaço público (a fala, as assembleias, as decisões, o mundo do trabalho) e às mulheres sobra o espaço privado (a casa, o cuidado). A contradição existente na ocupação do espaço privado pelas mulheres consiste em o não direito de comando ao mais privado dos espaços: o corpo. O corpo da mulher não deixa de ser um espaço legislado e comandado pelos homens, por isso a decisão do aborto não está vinculada a escolha da mulher, e é essa realidade que precisa ser transformada.

Uma das discussões mais presentes, porém, mais velada é a luta pela descriminalização do aborto no Brasil (onde já é legal o aborto por motivos de estupro, risco de vida à mãe e fetos anencéfalos). Ainda, existe em tramitação nesse atual congresso conservador ​projetos de lei que tem por objetivo criminalizar qualquer prática de abortamento (como o PL 5069/2013 ​que “tipifica crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas a quem induz a gestante à prática do aborto”).

Mas então por que, nós do projeto popular, devemos lutar pela descriminalização do aborto? Para responder a tal pergunta, basta olharmos os dados de pesquisa que são apresentados recorrentemente sobre a questão do aborto no nosso país. As mulheres que mais morrem em abortos clandestinos são as jovens que não tem acesso a uma educação sexual e ao planejamento familiar, vítimas de uma política que visa o sucateamento da saúde e da educação e de propostas fundamentalistas que não permitem o debate de gênero nas escolas. Além disso, elas são aquelas que precisam manter seus empregos precarizados para a garantia mínima de sobrevivência e que uma gravidez se torna um dificultador nesse processo.

Atualmente, as mortes relacionadas ao abortamento constituem a quinta maior causa de morte materna no país. Em 2015, mais de meio milhão ​de mulheres realizaram abortos clandestinos no Brasil. E estas são mulheres distantes de nossa realidade? Não, são nossas próprias mães, irmãs, amigas, vizinhas, primas, tias, etc. mulheres da classe trabalhadora que são forçadas a recorrerem a serviços improvisados e insalubres com uso de recursos e ferramentas inapropriadas, por falta de políticas públicas que pensem a vida concreta das mulheres. Na pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2013, se apontou que no Nordeste, por exemplo, o percentual de mulheres sem instrução que fizeram aborto provocado (37% do total de abortos) é sete vezes ​maior que o de mulheres com superior completo (5%).

As mulheres negras têm um risco três vezes maior de morrer por complicações do abortamento do que mulheres brancas e são também estas, de baixa escolaridade e com menos de 21 anos as que mais passam pelo processo sozinhas, sem o auxílio ou apoio de outros sujeitos. Entre as mulheres negras, o índice de aborto provocado (3,5% das mulheres) é o dobro ​daquele verificado entre as brancas (1,7% das mulheres). Fica evidente que a estrutura patriarcal e racista impacta a vida das mulheres.

Todos esses dados são reflexos de um estrutura de Estado, representada por bancadas conservadoras, pelo desmonte da saúde pública, pela retirada dos debates de gênero e sexualidade dos currículos escolares, pela extinção da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, que são processos que já vem de antes, mas que vêm se aprofundando cada vez mais na retomada de um projeto que visa explorar ainda mais os trabalhadores no governo golpista de Temer, e que estão deixando mulheres jovens, negras e da classe trabalhadora morrerem em situações desumanas.

É preciso dar assistência às mulheres, fazer com que elas saibam os direitos que tem, ter um corpo de profissionais, que inclua enfermeiras/os, médicas/os, assistentes sociais e psicólogas/os prontos a acompanhar as mulheres que necessitam, para que a intervenção – que por si só já é violenta e cheia de implicações – seja menos dolorida. O SUS deve ser a porta de acesso, o corpo profissional preparado, o que precisamos hoje, no Brasil, é que as mulheres parem de morrer na clandestinidade.

Por isso, pensar o aborto não por uma perspectiva moralista e conservadora ou por uma ideia restrita de liberdade individual da mulher, se faz necessário. É preciso que a luta pela descriminalização do aborto se faça na defesa da vida das mulheres, que, tem raça e tem classe. É preciso resistência para enfrentar os retrocessos que estamos passando nas políticas voltadas para mulheres. É preciso ter a coragem de denunciar todas as medidas que esse governo e o legislativo estão tomando contra a classe trabalhadora. É preciso organizar, formar e lutar pela vida das mulheres!

FORA TEMER! NENHUM DIREITO A MENOS PARA AS MULHERES! DIRETAS JÁ E CONSTITUINTE! MULHERES NO PODER! ABORTO LEGAL E SEGURO! É PELA VIDA DAS MULHERES!

 

Levante Popular da Juventude Setor de mulheres – Clara Camarão Natal/ RN

 


O GOLPE FUNDAMENTALISTA E A CAIXA DE PANDORA

Na mitologia grega, a caixa de Pandora foi uma criação de Zeus. Um artefato em formato de caixa que continha em seu interior todos os males do mundo. A caixa foi dada a Pandora, o motivo pelo qual a mesma leva seu nome e, segundo a mitologia, a curiosidade de Pandora foi tamanha que acabou abrindo a caixa e libertando todos os males, com exceção da esperança, que ficou no fundo da caixa.

O golpe de 2015 implementado no Brasil contra a presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff não se limitou apenas as esferas do Executivo e a tomada do cargo pelo presidente golpista Michel Temer (PMDB). A narrativa do golpe foi construída com mãos de ferro por amplos setores do Legislativo, da Mídia e, evidentemente, do Judiciário.

Aliás, como diria Romero Jucá, do mesmo partido do presidente golpista: “Temos que estancar a sangria, com STF, com tudo”.

Em meio a uma agenda de retrocessos implementada diaramente pelas forças conservadoras da nossa sociedade, não podemos esquecer dois pontos centrais: o primeiro, é de que sempre existiu um forte enfrentamento das forças conservadoras em barrar quaisquer direitos para as LGBT’s, mulheres e negras/os no Brasil. E em segundo, que sempre houve luta e resistência de nossa população para impedir o avanço conservador.

Contudo, o golpe implementado abriu uma “fresta” na história, que tem culminado em um verdadeiro ataque devastador dos três poderes as liberdades e aos direitos da população LGBT, negra e mulheres da classe trabalhadora.

No hall de retrocessos, podemos citar o aumento das candidaturas conservadoras e da chamada bancada BBB (bala, boi e bíblia) no Legislativo, a extinção do ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos, o projeto de lei Escola sem Partido, o veto ao ensino de gênero e sexualidade nas escolas e, como expressão dos últimos acontecimentos, a decisão do Tribunal de Justiça do DF que autoriza práticas de reversão sexual por parte de psicólogos.

Desde o começo esse golpe foi feito contra nós. Em tempos de crise, cabe ressaltar que os retrocessos atingem também toda a população LGBT, de negras/os e mulheres da classe trabalhadora, e com toda essa onda de conservadorismo, não podemos ter uma avaliação diferente.

Por isso, é tempo de resistirmos em unidade contra toda essa política excludente, tirando a tão necessária esperança do fundo da caixa, e soma-la a luta concreta. Afinal, os males no Brasil nada tem haver com Pandora, e sim com um golpe que é machista, racista e LGBTfóbico, oriundo das camadas mais elevadas da sociedade, onde moram – todos eles – nos Palácios da Intolerância.

Gabriel Campelo
Levante Popular da Juventude
Diretor LGBT da UNE


SOBRE O JUIZ E A LIMINAR

No dia 15 de setembro o juiz federal da 14ª vara, Waldemar Cláudio de Carvalho, concedeu liminar que dá abertura para que os/as psicólogos/as ofereçam terapia de reversão sexual à população LGBT. Isso ocorreu devido a Ação Popular organizada pela psicóloga presbiteriana Rozangela Alves Justino, que foi punida pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) por descumprir a Resolução 001/99 que coloca que “a homossexualidade não constitui não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão” e o Código de Ética da Psicologia. A missionária Rozângela deu também entrevistas afirmando que tal decisão do CFP era nazista, derivado de uma ditadura gay que tinha caráter discriminatório de heterofobia.

O juiz que concedeu a liminar tem histórico progressista, é também aquele que proferiu a sentença em forma de poesia, como também foi atuante no cumprimento de 20% de cotas raciais em um concurso na cidade de Brasília. Mas porque então ele toma ação tão conservadora? Na ata de audiência o tema em que se gira a argumentação é o artigo 5º da Constituição Brasileira de 1988, no seu inciso LXXIII, que diz: “qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência”.

Sim, o argumento do juiz é que a censura pública (punição na qual os profissionais estão sujeitos pelo órgão que regulamenta a profissão, por exemplo) viola o preceito constitucional de liberdade científica, colocando que a Resolução da CFP infringe o direito constitucional do patrimônio cultural brasileiro. Em outras palavras, por impedir a investigação e prática da reversão sexual o povo brasileiro é violado por impedimento de se conhecer. Esse é o argumento do juiz que, apesar de boa compreensão da complexidade do tema de diversidade sexual, concede esse retrocesso.

É pelo lema de “liberdade de expressão” que o conservadorismo nos coloca mais uma derrota. É um movimento comum da direita, cooptação das bandeiras, palavras de ordem e discurso das esquerdas e dos setores progressistas. O que não podemos é deixar acontecer o que já alerta Criolo, o anzol da direita, fazer a esquerda virar peixe. Temos que olhar com seriedade os avanços e os riscos de colocar sobre o lema tão indefinido uma energia total de luta. É pela liberdade de expressão que fundamentamos nossa existência e nossa luta? Caso sim, até que ponto? Caso não, por onde traçar nossas ações coletivas?

Além disso, nessa conjuntura em que se acirram as lutas entre a elite e o povo, com derrotas nos direitos historicamente conquistados (como a ameaça da entrega da nossa água, petróleo, empresas estatais, desmonte da Educação Pública, Reforma Trabalhista), coloca a ofensiva neoliberal no desmonte e desvalorização do Estado, para que assim se fortaleça o governo das corporações e do mercado. Além disso, não esqueçamos, elite brasileira, além de exploradora, é atrelada aos valores mais retrógrados de existência, essa é uma marca das classes dominantes latino-americanas.

Ainda, sabemos que o Judiciário do nosso país é um negócio de família. O acesso a essas instâncias de poder é historicamente de famílias que participam daquele grupo que detêm o comando econômico e político de nosso país. Um exemplo disso é o envolvimento ativo do Judiciário no golpe vivenciado em 2016, nas palavras de Jucá “com STF e tudo”.

Grifemos, não são períodos democráticos vividos em contexto do neo-desenvolvimentismo dos governos Lula e Dilma. Não podemos analisar a conjuntura a partir de uma realidade política ilusória, temos que ser certeiros na análise para acertarmos nas ações de resposta. São tempos de golpe! É tempo de acirramento das lutas entre os detentores e os/as explorados/as e oprimidos/as! Eles vão partir para ofensiva e nós coletivamente organizados/as podemos reagir.

Não sou tão pessimista na resistência do nosso povo, nem teria como sê-lo. A juventude, as mulheres, a negritude, os/as LGBT’s foram protagonistas nas lutas dos últimos tempos, inclusive na luta contra o Temer. O que me parece ser o caminho é a necessidade de fazermos um balanço da luta pró-LBGT dos últimos períodos e perceber os avanços e limites para esse novo período político. Para nós são tempos de a) retomadas, incentivo e fortalecimento da auto-organização dos/as oprimidos/as por um projeto de país novo que contemplem a sua existência; b) de voltar para os trabalhos de base, formando o nosso povo sobre as questões da diversidade sexual e de gênero; c) de construir espaços de unidade dos movimentos sociais para que se insira nas pautas da esquerda essa demanda; d) incentivar a juventude entrar nas Escolas e Universidades, valorizando uma educação crítica do mundo; e) fortalecer o debate sobre o controle popular do judiciário.

Como nos ensina Paulo Freire, temos que tornar o futuro inexorável e fatalista em um futuro das possibilidades. Então, ânimo revolucionário! Há para além do golpe e do conservadorismo um futuro com um pote da ouro no final do arco-íris chamado: emancipação humana.

Sigamos fortes!

 

Texto de Arthur Nóbrega, militante do Levante Popular da Juventude da Paraíba


Venezuela: a batalha de nossa época

Em 1936, a vitória da Frente Popular na Espanha pôs fim a monarquia e instaurou a República popular. Com apoio e presença de amplos setores da esquerda (anarquistas, comunistas, socialistas, democratas) construiu um programa de reformas populares profundas. Sem dúvida, essa vitória levou a reação imediata dos restauradores monarquistas, frações burguesas ameaçadas pelas reformas e das forças nazifascistas que, nesta época, já detinham o poder na Alemanha e na Itália. A guerra civil não tardou e seu desfecho, como sabemos, foi trágico: a reação, apoiada militarmente pela aviação da Alemanha nazista e por soldados da Itália fascista, derrotou a República em 1939 e as forças revolucionárias sofreram perdas aos milhares numa das mais sangrentas páginas da história da luta dos povos. No poder, o general fascista Franco ficaria até 1975.

Entretanto, foi em meio a esse horror que homens e mulheres comprometidos com a revolução deram um de seus maiores exemplos de unidade e solidariedade mundial: as Brigadas internacionalistas de apoio e combate que, segundo registros, chegaram a quase cem mil pessoas que partiram para lutar na Espanha.

Mas o que esse distante capítulo da luta revolucionária do século 20 tem a ver com a América Latina do século 21? Tudo. Certamente qualquer comparação entre eventos históricos podem levar a grandes equívocos, principalmente o de se pensar que a história se repete da mesma forma. Porém, o importante é resgatar as dinâmicas que levaram a estes eventos bem como suas consequências no plano da luta de classes e, nesse caso, a derrota da Espanha revolucionária foi o prelúdio da Segunda Guerra Mundial e demonstrou todo o horror que a reação nazifascista promoveria. A situação atual da Venezuela também guarda essa característica: uma derrota do seu processo revolucionário irá mudar o quadro da luta de classes em nossa América Latina. Em 2017 estamos diante de uma das maiores ofensivas imperialistas das últimas décadas em nosso território. Um por um, os governos que no início do século 21 assumiram, com maior ou menor intensidade e em que pese os erros cometidos, uma agenda progressista e de reformas estão sendo golpeados e retirados do poder. A experiência de maior profundidade desses governos foi a Venezuela e seu projeto de revolução bolivariana, liderado pelo comandante Hugo Chávez. Numa criativa combinação da questão nacional com o horizonte socialista, não só a renda do petróleo foi colocada a serviço das necessidades do povo venezuelano e latino-americano, como também se incentivou e impulsionou a organização popular e a formação de uma consciência revolucionária e fortemente anti-imperialista, algo que ficou pendente em outros processos, como o brasileiro.

Em alto e bom som se proclamou que o destino da Venezuela era o socialismo e com firmeza se construía, desde as bases populares, a firmeza de que o processo não avançaria sem enfrentar seu inimigo principal: o imperialismo. Não é necessário falarmos aqui de qual foi a reação dos inimigos: desde golpe e sequestro do presidente Chávez em 2002; negação de participação nas eleições; sabotagem econômica e política, dentre outras coisas. Mesmo assim, não conseguiram destruir o processo revolucionário e nem destituir o governo e, desde o início de 2017, adotaram a estratégia de terra arrasada: incendeiam o país para governar o que sobrar. Sem demora colocaram a Venezuela as portas da guerra civil. Sem demora as corporações que controlam a economia e a informação mundial organizaram uma campanha de guerra econômica e de mentiras e deslegitimação do governo venezuelano. A direita latino-americana, o imperialismo e a mídia cumprem seu papel. Mas e a esquerda latino-americana?

De forma inacreditável, em um momento crucial da luta de classes no continente, parte dela vacila, por incompreensão ou irresponsabilidade, demostrando que ainda não superamos ideologicamente os impactos das derrotas sofridas desde os fins dos anos 80. Adotam, sem questionar, o discurso da reação de que na Venezuela está posta uma ditatura. Mas qual ditadura convoca uma Assembleia Constituinte e chama o povo para decidir seus destinos? Reproduzem que o governo reprime manifestantes, como se estes fossem os heróis da liberdade, mas esquecem que estes heróis usam métodos de terrorismo ensinados pela CIA para derrubar governos pelo mundo, são heróis que elogiam o ditador chileno Augusto Pinochet, heróis que queimam hospitais e pessoas consideradas chavistas. Tudo isso em nome de uma suposta democracia universal, abstrata, que clama por eleições livres, desde que os desejos populares não contaminem tais eleições. Não compreendem que a derrota da revolução venezuelana é o aprofundamento da reação imperialista no continente, é o prenúncio do aumento da violência e cerco sobre a esquerda continental. Não nos esqueçamos que o governo estadunidense já colocou sobre a mesa a opção da invasão militar e que este mesmo governo está sendo conivente com grupos nazifascistas que promoveram a nova MARCHA SOBRE ROMA* ocorrida nos Estados Unidos a poucos dias.

A Venezuela é a Espanha de nossa época. Seu exemplo de resistência em uma conjuntura tão difícil para as forças populares; sua incansável denúncia da interferência imperialista dos Estados Unidos em nosso continente; a bravura de seu povo que enfrenta uma brutal violência e mesmo assim se coloca na linha de frente do processo, tudo isso por si só já bastaria para que todas as forças de esquerda e progressistas se colocassem ao seu lado. Defendê-la, da mesma forma que milhares de revolucionários e revolucionárias fizeram com a República espanhola é tarefa de quem luta pela libertação da América Latina. Não é hora para vacilos, deixemos que os erros e desvios sejam corrigidos pelo próprio povo venezuelano. É tempo de aprofundarmos nossa formação e consciência revolucionárias, de exercitar de fato a solidariedade e o internacionalismo entre os povos, de abandonar idealismos e romantismos sobre processos reais de transformação e, só assim, teremos a chance de derrotar nossos inimigos.
* Marcha fascista ocorrida em 1922 na cidade de Roma, Itália, que contou com milhares de participantes e marcou a ascensão ao poder do ditador Benito Mussolini


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