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Desmonte da educação: mais um golpe contra a vida do povo negro

Defender e construir uma grande campanha em torno da garantia da educação pública é tarefa de todo o povo brasileiro

Por Elder Reis*

 

O golpe em curso no Brasil carrega a marca da execução de um plano contra o povo, imposto pela classe dominante, que nunca pensou um projeto soberano de desenvolvimento para o país. Isso se expressa na constante aprovação de uma série de medidas antipopulares, que desmontam cotidianamente direitos sociais conquistados a muito suor e muita luta. Exemplos recentes são os impactos de medidas como a reforma do ensino médio, a lei da mordaça, bem como o corte de verbas das universidades públicas, as alterações no FIES e no PROUNI que representam um verdadeiro ataque e desmonte da educação pública brasileira.

Tais medidas, executadas pelo governo golpista de Temer, atingem a vida de toda a população, mas atinge de forma diferenciada a vida da população negra. Considerando que essas políticas contribuíram para uma ampliação do ensino, permitindo que a população negra pudesse ter uma possibilidade real de ingressar no ensino superior. É necessário também levar em conta que os ataques sofridos pelo povo negro não são apenas conjunturais, fazem parte de um processo de formação social e econômica do Brasil, baseado na escravização e coisificação dos negros e das negras.

A sociedade brasileira foi construída, desde o princípio, sob as bases do racismo, através da escravização de milhões de negros traficados de África, onde passam constituir uma extensão das posses do senhor de engenho. Estamos falando de uma sociedade construída por mais de 300 anos sob um longo processo de escravização – a última em todo o mundo a abolir o regime escravocrata. O racismo passa a acompanhar o desenvolvimento do país, se fazendo presente nas instituições que dão forma ao Estado brasileiro. Tendo como uma de suas bases a violência, que se desdobra no genocídio, feminicídio, criminalização da pobreza e no encarceramento em massa. Impactando, sobretudo, a juventude e as mulheres negras. A quantidade de mulheres negras encarceradas, por exemplo, aumentou em mais de 500% na ultima década, segundo dados da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos.

Um exemplo de como o racismo estrutura a nossa sociedade se expressa na negação histórica do nosso acesso à educação universal, pública, gratuita e de qualidade; ao passo que nos negam também o direito de ter a nossa história de luta e resistência contada nos currículos da educação básica e do ensino superior. Em 2003 o movimento negro conquistou, através da lei 10.639/03, a implementação do ensino da história e cultura afro-brasileiras nos currículos da educação fundamental e média. Tal conquista representou um passo importante no reconhecimento pelo Estado do seu papel na construção diária de uma sociedade marcada pela desigualdade racial.

Hoje, segundo dados do IBGE, cerca de 58,5% da juventude brasileira está inserida no ensino superior. Desse percentual, 45% são estudantes negros, sendo que a maioria da juventude negra está inserida em universidades privadas. Apesar de termos vivido uma ampliação no acesso ao ensino superior, ainda somos poucos e poucas a terem ingressado nesse nível de ensino, especialmente nas universidades públicas. Conseguimos acessar a universidade a partir da efetivação da política de cotas, bem como através dos programas FIES e o PROUNI que possibilitaram uma ampliação da educação superior e, consequentemente, um passo maior na democratização do acesso ao ensino.

Atualmente, o governo golpista tenta nos impor goela abaixo o esfacelamento desses programas, bem como ataques à lei de cotas. Prova disso é a tramitação no Congresso Nacional da proposta de medida provisória nº 785 de 2017, conhecida como “Reforma do FIES”, impondo um novo arranjo para o programa com maior restrição no acesso do povo pobre e periférico à universidade, na medida em que passa a classificar os estudantes em três categorias, onde apenas uma dessas contempla estudantes com renda familiar de até três salários mínimos. As outras duas categorias destinam o financiamento a estudantes que possuam renda familiar superior à renda per capita de três salários mínimos. Isso implica na exclusão de milhares de jovens negros e periféricos do acesso e permanência nas universidades. Estima-se que, com a aprovação da MP 745/17, haverá uma diminuição de mais de 600 mil vagas para as classes populares.

Estamos no mês de novembro, onde resgatamos a história de luta e resistência do povo negro. Nesse momento, resgatar a rebeldia do povo negro que há 500 anos organizam planos de revolta e esperança, significa afirmar a necessidade de construção de uma sociedade onde não sejamos criminalizados, mortos ou mesmo destituídos dos nossos direitos por conta da nossa raça. Significa também dizer que uma nova sociedade é possível e, no momento em que estamos vivendo de tantas incertezas e ataques, ela é mais que necessária.

Diante de todo esse cenário, defender e construir uma grande campanha em torno da garantia da educação pública, universal, gratuita e de qualidade é tarefa de todo o povo brasileiro. Por uma educação que conte a nossa história a partir da nossa perspectiva, contribuindo para que consigamos construir uma sociedade onde caibam todos os sonhos do nosso povo, e caiba também o sonho do povo negro. E essa é uma tarefa de todos nós, pois “sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”. Esse é um dos primeiros passos para a construção de um Projeto Nacional e soberano. Então vamos lá, fazê-lo.

 

*Diretor de Combate ao Racismo da UNE e Militante Levante Popular da Juventude na Bahia


Pelo Direito do povo de permanecer na universidade: Contra o desmonte do FIES!

Por Júlia Louzada*

O Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), é um programa do Ministério da Educação (MEC), que nasceu no bojo de outros programas de expansão ao acesso do Ensino Superior no Brasil.

Mesmo com diversas contradições pelo vínculo com as grandes empresas de educação, o FIES possibilitou uma conquista concreta para mais de dois milhões de estudantes: ingressar na universidade e transformar a sua realidade.

Desde o golpe, um conjunto de retrocessos tem sido imposto a educação brasileira, do ensino básico até a universidade, e a Medida Provisória nº 785 de 2017 é mais um desses ataques!

Denominada ‘Reforma do FIES’, a MP 785/2017, foi colocada em tramitação em 7 de julho deste ano e corre em regime de urgência para ser implementada já nas matrículas do primeiro semestre de 2018. Ontem, no dia 31 de novembro, ela foi aprovada pelo plenário da Câmara e encaminhada ao Senado, onde seu prazo limite para a votação é o dia 17 de novembro.

O programa que só em 2014 atendeu mais de 700 mil estudantes, será reduzido a menos de 100 mil beneficiados. Hoje todas as bolsas são concedidas a estudantes com renda familiar até três salários mínimos. Com a nova proposta o programa passa a classificar os estudantes em três faixas, na qual apenas a primeira corresponde a estudantes com renda até três salários mínimos, as outras duas se destinam a rendas superiores, com isso o Fies restringirá o acesso dos estudantes mais vulneráveis socialmente.

A MP também concretiza outros retrocessos e descaracteriza o propósito do programa ao alterar a forma de pagamento, diminuir o tempo de carência para iniciar o pagamento pós formado e no modelo de gestão, ainda, restringe as fontes de recurso do financiamento. Além disso, a MP não fixa taxas de juros para a segunda e terceira faixa de renda criadas, deixando essa definição a critério de bancos privados.

Vale ressaltar também que até o ano passado dados do MEC indicaram que 50,07% dos financiamentos do FIES eram ocupados por negros e negras, que historicamente tiveram acesso ao ensino superior barrado.  Com todos esses fatores é evidente que a função social que o FIES vinha cumprindo fica cada vez mais comprometida.

O relator do Projeto, Alex Canzani, deputado federal pelo PTB-PR, que votou a favor do golpe, recebeu uma doação declarada em sua campanha de duzentos mil reais, do Centro de Ensino Atenas Maranhense, incorporado em 2011 ao grupo Króton –  uma das maiores empresas de educação no mundo. Se quem paga a banda escolhe a música, podemos presumir que as grandes empresas de educação seguirão ganhando com essa mudança. Assim como seguem ganhando os grandes bancos e o Capital Financeiro com o aumento na taxa de juros.

Enquanto isso nós, estudantes brasileiros, seguimos vendo o aprofundamento do golpe em nosso cotidiano: a ‘Reforma do FIES’ – que já vimos: é um grande desmonte do programa; a Reforma Trabalhista; o congelamento dos gastos em Saúde e Educação pelos próximos vinte anos (EC 95/2016, antiga PEC 55); o fim dos recursos do Pré-Sal para a Educação; a tentativa de Reforma da Previdência e mais uma longa lista de retrocessos para os trabalhadores.

A juventude brasileira tem memória e se recorda de um tempo muito recente no qual a universidade era um espaço que não nos pertencia. Somos milhares de estudantes que representam o primeiro ou a primeira das suas famílias a ingressar na universidade e a concluir um curso superior.

Seguiremos na luta por uma universidade pública, gratuita e de qualidade. Até alcançarmos esse longo caminhar, que mesmo em uma conjuntura tão complexa permanece sendo nosso horizonte. Defenderemos o diretos de todos e todas as estudantes permanecerem nas universidades particulares com programas de acesso como o PROUNI e o FIES.

Nós conquistamos nosso espaço na universidade e resistiremos bravamente para nela permanecer!

*Militante do Levante Popular da Juventude
Diretora de Políticas Educacionais da União Nacional dos Estudantes


La Higuera, um lugar no mundo

Existem lugares que por se encontrar em sítios remotos, possuir climas inóspitos ou por não ter certos serviços públicos, não são atrativos para muitas pessoas. La Higuera é um deles. Lugar onde só chega quem realmente tem um autêntico interesse em conhecer.

Uma longa estrada de terra, entre montanhas, na qual as curvas vem uma atrás da outra, em conjunto com uma inclinação íngreme. Um clima seco que produz sulcos tanto na pele como no chão, chuvas só em um mês do ano, o mesmo mês onde se pode conseguir alguma fruta. O sol divide o dia em dois, toda atividade ao ar livre devem ser feitas antes das 11 da manhã ou após as 4 da tarde. Água, até recém começada a tarde e energia elétrica não existe. Internet, wi-fi, sinal de telefone não são conhecidas lá. Lugar onde fica que realmente tem um autêntico interesse em descobrir.

Um povoado empoeirado mais desses perdidos no meio da nada, com quase 2.000 metros de altitude, que ninguém tivesse conhecido se não for por que lá, na escola do povoado, uma das personalidades mais transcendentes do século XX foi assassinada: Ernesto “Che” Guevara.

 

Desde a pequena praça, à primeira vista podem-se visualizar três brigas do guerrilheiro nascido em Rosario, na Argentina. A nova escola primária, que assim como a maioria das casas e armazéns tem murais ou grafites feitos por viajantes e ativistas sociais de todo o mundo que chegaram a esta terra onde a presença da morte do Che os faz passar várias horas em ônibus raquíticos, por estradas de terra desenhadas em grandes morros cobertas com vegetal de terra seca – colmeias e arbustos- que secam a pele apenas de ficar perto da janela.

É que, embora existam repetidas promessas de asfalto e melhorias na estrada, a viagem entre Valle Grande – a cidade mais próxima – e La Higuera são umas longas 3 horas onde o sol é onipresente, somente interrompido por algumas pequenas cidades, como Pucará, auto chamada “a capital do céu”, que tanto no seu escudo como no posto de polícia mostra a fotografia mundialmente famosa do homem da estrela que o fotógrafo cubano Alberto Korda tirou na Praça da Revolução de La Habana.

 

A 20 metros da praça da cidade está o Museu Comunitário “La Higuera”, construído sobre a demolida escola onde, na segunda-feira 9 de outubro de 1967, após receber a ordem de La Paz e Washington, as balas do sargento Mario Terán bateram primeiro no antebraço e na coxa de Guevara para depois, numa segunda execução após o próprio Che ordenar que “apontasse bem”, perfurar o pescoço do líder guerrilheiro. O relógio marca 15 minutos para a 1 da tarde, Che estava dessangrando quando o sargento Bernardino Huanca entra no quarto, lhe dá uma chutada que o deixa com a boca para a cima e, a menos de um metro de distância, dispara direto ao coração. Uma hora antes, tinham levado Che para fora do lugar para tirar-lhe algumas fotos. Muitos vizinhos do povoado têm aquela lembrança. Lá, dentro desse quarto, hoje não há mais espaço livre nas paredes. Como se tratasse de um santuário de alguma divindade pagã, numerosas mensagens, agradecimentos, fotos, bandeiras e palavras lotam as paredes como se fosse o bem conhecido bar de La Habana “La Bodeguita del Médio”.

Ninguém na aldeia ou na área sabia quem era o Che Guevara. Um lugar onde até hoje não há televisão, rádio, jornais, nem internet, nem sinal de telefone, nem transporte de longa distância. As novidades do mundo não chegam neste ponto da Bolívia. Com isso, podemos imaginar como eram as notícias há meio século. “Se eu tivera sabido quem ele era, eu o tivesse ajudado a fugir” disse o senhor Florencio frente a minhas perguntas, enquanto descemos até a Quebrada del Churo, onde Guevara foi capturado e hoje têm uma pedra com uma estrela vermelha. Uma das duas estradas que descem para aquele lugar atravessam a fazenda do avô que, junto com seu filho Santos, cobram 10 pesos bolivianos, cerca de um dólar e meio, para quem quer andar uns 40 minutos de descida até o rio. Dom Florencio tinha 27 anos naquela tarde do domingo 8 de outubro, quando o combate terminou com o Che preso e começou a caravana para o povoado passando por sua fazenda. “Ele parecia um indigente, barbudo, sujo, magro, com roupas rasgadas e sapatos improvisados feitos com um pano”. Che tinha escrito no dia 10 de setembro em seu diário: “Atravessei o rio nadando com a mula, mas perdi meus sapatos enquanto o cruzava e agora estou com uns panos, coisa que não é nada engraçada.”

A caravana de soldados, reféns  e mortos em combate levou cerca de duas horas andando desde a Quebrada del Churo até La Higuera. À vista dos povoadores daquele tempo. Dona Hirma tinha 20 anos quando a caravana passou pela porta de sua casa, ela trabalhava como assistente de tipógrafa quando o mundo colocou seus olhos sobre seu povoado. “Começa um novo Vietnã?”, se perguntava Che em seu diário quando confirmava a intervenção dos EUA no combate. “O povo de La Higuera estava com medo, dificilmente se encorajava a espiar detrás da porta da sua casa aos estrangeiros com barba. Porque os militares pegavam e levavam preso a Valle Grande aos camponeses que ajudavam a guerrilha com comida ou recursos”, diz a senhora dona da loja “La Estrella” que fica em frente a praça. Sua loja oferece pão caseiro cozidos no forno de barro, queijos feitos com leite ordenhada todas as manhãs pela própria senhora de 70 anos. Depois de atirar nele, os militares expuseram o corpo do guerrilheiro cubano-argentino fora da escola, momento em que o povo conheceu pela primeira vez a imagem do perigoso revolucionário de quem tanto lhe falaram. Dona Hirma e uma amiga aproximaram-se levadas pela curiosidade para ver: “ficamos impressionadas com o olhar dele, ele tinha os olhos abertos”, lembra.

“Se alguma coisa fez bem o exército, foi introduzir a cultura do medo na região”, diz Leo, chefe do escritório de turismo de Valle Grande e grande conhecedor da história, enquanto vai de uma reunião para outra em plena organização dos eventos que serão realizados em outubro, nos quais se esperam atrair milhares de pessoas. “As pessoas da aldeia ficaram assustadas com a psicose criada pelo exército e os permanentes estados de cerco em que viviam”, acrescenta Leo. Estratégia que continua inclusive depois de que o líder guerrilheiro morreu: “vocês serão bombardeados por aviões soviéticos e cubanos por o terem matado”, lembra Dona Hirma que os militares tinham-lhe dito.

 

São 6 horas da tarde, a noite vem chegando depois de um pôr-do-sol entre as montanhas que tinge com tons violetas, celestiais e laranjas no horizonte além do Rio Grande. O céu é uma brilhantina por causa da ausência de energia elétrica, todas as estrelas servem de fundo da estátua do Che. Me encontro com Casiano, um menino curioso de 12 anos que consegue moedas para doces e refrigerastes guiando os turistas até a Quebrada del Churo. Quando lhe pergunto o que ele sabe sobre o Che, ele me conta uma história que o avô lhe disse: “quando a caravana de soldados e reféns atravessou a cidade, Che tinha um relógio no pulso e o quis dar de presente para um camponês que estava assistindo o espetáculo, mas os soldado não deixaram, embora Che insistiu que queria o dar para o trabalhador”. Quando o menino viu minha câmera, pediu-me para tirar uma foto dele e depois ele tirar uma de mim. É a sua primeira foto com uma câmera sem ser a do seu telefone. No dia seguinte, ele me convidou para jogar futebol no pátio da escola, sob a luz da lua cheia. Eu já virei seu amigo e ele será o único na aldeia em aprender a me chamar pelo meu nome e não de “Don” ou “gringo”. Ele é o menino rebelde do povoado.

Apesar da presença de tudo relacionado a morte do Che, La Higuera não vive do turismo, a maioria dos visitantes vem por umas horas tiram algumas fotos e vão embora. Plantações de milho, vacas leiteiras, batatas entre outros poucos cultivos garantem a dieta dos habitantes locais. Existe apenas uma escola primária, de modo que os adolescentes vão para Valle Grande ou Santa Cruz para estudar e não retornam. “Não há pessoas para trabalhar a terra, aquela que nos dá comida todos os dias”, lamenta Dona Hirma. É que hoje moram cerca de 50 pessoas, antes moravam 70. Seus dois filhos que ainda vivem na aldeia ganham a vida oferecendo transporte de La Higuera para Valle Grande em seus táxis. Consciente do jeito em que o turismo altera a identidade dos lugares, a senhora e a maioria dos vizinhos são a favor de uma maior exploração do turismo. O que geraria mais clientes apara sua loja e mais comensais para seus almoços e jantares caseiros. Ela sabe que se a estrada estiver pavimentada e a luz elétrica for colocada, um número maior de turistas serão encorajados a ir para tirar fotos com a estátua do Che que está em frente a sua casa.

Em frente a praça, funciona a escola primária. Na parte detrás tem um espaço – um campo de futebol – que faz as vezes de habitação comunitária para aqueles que querem ir para o povoado e não tem dinheiro para acomodação. Na porta vem até meu encontro Brian, um menino de 6 anos que sempre está sorrindo, ele me diz que não gosta de ir a escola, mas escuta-se os gritos de sua mãe desde a porta de sua casa e ele não tem escolha. “Você sabe quem é o homem na estátua?” lhe pergunto. “Sim, ele é um guerrilheiro que foi morto pela polícia”, ele responde antes de entrar na escola em que todas as paredes têm frases ou murais do Che. Ele me mostra que está carregando um ovo e uma batata para que lhe cozinhem o almoço na escola.

“Às 3 horas da tarde do dia 8 de outubro acaba o Combate del Churo, e o Che é capturado, às 7 chegam em La Higuera. O dia 9 de outubro ao meio-dia é atirado. Depois é levado de helicóptero para Valle Grande, onde o expõem em “La Lavanderia” do hospital da cidade e onde o fotógrafo francês Marc Hutten tira as famosas fotografias do Che morto com os olhos abertos. Lá foi onde o médico Ustary Arze toca o corpo do guerrilheiro e observa que ainda é quente e que não tem a rigidez de uma pessoa morta de mais de um dia. Assim, torna-se na primeira pessoa a relatar que Che havia morto naquele mesmo dia e não em 8 de outubro em combate, como tinha reivindicado pelo exército: o Che foi assassinado” conclui Christian, um historiador francês  fanático do Che que vive há anos em La Higuera e que, juntamente com a sua parceira, são os donos da hospedagem “Los Amigos”, a acomodação mais confortável da cidade. Christian vai para sua giblioteca e prande bega dois livros e os dá para mim. São “El combate del Churo y el asesinato del Che”, de Reginaldo Ustariz Arze e “El asesinato del Che em Bolivia: Revelaciones”, de Adys Cupull e Froilan González. Nesses livros, é denunciado que a ditadura do General Barrientos escondeu e silenciou muitas vozes e testemunhas para instalar a ideia de que Che morreu em combate no dia 8 de outubro, por isso é que por tanto tempo lembrou-se dessa data e não 9 outubro como a data em que Guevara havia morto.

 

Depois dessa foto famosa em “La Lavanderia”, o Che é levado ao necrotério e suas mãos são cortadas antes de ser enterrado em um túmulo comum localizado nas proximidades do cemitério de Valle Grande junto com outros 6 guerrilheiros, permanecendo lá em segredo por 30 anos. Até que em 1997 um dos militares negou a versão, até aquele momento mantida pelo exército boliviano, de que o Che tinha sido morto em combate e seu corpo queimado e as cinzas ortigadas pelo Rio Grande. Na atualidade, onde essa fossa estava, tem o “Mausoleo del Che” juntamente com um interessante museu com fotos, replicas do diário do Che e de sua vestimenta, bem como muitas informações históricas.

Don Ismael, tinha 6 anos quando a guerrilha esteve por aqui. Lembra-se de que os guerrilheiros passaram descendo de Abra del Picacho, uma pequena aldeia acima de La Higuera. Onde os guerrilheiros estiveram e até dançaram algumas músicas aproveitando a festa da aldeia. “Eles foram vários homens que passaram tranquilos, saudando como qualquer outro visitante. Não me lembro das armas, apenas suas grandes mochilas” ele me diz, enquanto com minha inocente ajuda ele mata um porco, trabalho que Dona Gregoria encomendou, que seguindo sua visão de negócios está se preparando para o próximo festival da aldeia, onde venderá chicharrón – gordura e couro de porco frito com batata e milho – e porco assado. “Você tem medo da morte?” me surpreende e acerto um “não”. “Todos nós dizemos isso, mas quando aparece, aí realmente percebemos o que sentimos diante dela”, continua. “E você gostaria de ser um soldado de Jesus?” pergunta Dom Ismael, faca na mão, raspando o couro do porco morto, é que ele é evangelista e frequenta um templo da Igreja Universal em Valle Grande. Ele compara a guerrilha com os soldados de Jesus: “como o Che, Jesus lutou contra o império, em seu caso o romano. Pregando o bem contra o mal de Satanás. Che procurava uma vida melhor para nós camponeses, mas os ricos não o deixaram” conclui, e já é hora de cortar o porco.

As pessoas do povoado começam a mexer, todos preparando algum alimento para vender. É a festa da Virgem de Guadalupe, padroeira do lugar – sim, a mesma Virgem de Guadalupe que o sacerdote Hidalgo y Costilla levantou como bandeira na luta pela independência do México. A tradição é fazer uma promessa à virgem de dançar por três dias seguidos. É por isso que, nos dias 7, 8 e 9 de setembro há uma festa em La Higuera e em todas as aldeias vizinhas. Naqueles dias, os originários de La Higuera que migraram procurando melhor sorte em outras terras, generalmente para Valle Grande, Santa Cruz ou Argentina, retornam para se reconectar  com sua terra. Uma roda de chicha, bebida de milho fermentado, e sucumbé, bebida quente feita com leite ordenhada pela manha, cravo, canela e singani, passam de mão em mão sob o som de bandas que tocam música vallegrandina, uma espécie de rancheiras mexicanas, com chapéu e violão texanos ao lado do altar da Virgem, cheio de velas coloridas e flores oferecidas por seus fiéis.  As pessoas dançam e depois sentam-se para experimentar carne de porco ou frango picante.

Nesta data, as noites silenciosas, escuras e tranquilas que caracterizam a cidade são alteradas pela chegada de pick-ups 4×4 polarizados, geradores elétricos, alto-falantes e até fogos de artifício. A mistura de pessoas que se encontra resulta interessante. Pode-se distinguir facilmente entre aqueles que ainda moram em La Higuera: geralmente mais retirados, tímidos, com chinelos nos pés, roupas de campo com restos de alguma carne ou trabalho com o gado; com os higuerenses que hoje vivem longe de suas terras: roupas urbanas, jeans, sapatos, tênis e cortes de cabelo que usam jogadores de futebol. Assim rapidamente pode-se diferenciar as celebridades do povoado, na que ostentam roupas europeias ou norte-americanas, com a pele e os cabelos cuidados, maquiagem, sapatos de couro finos e uma presença que tem um ar de superioridade.

 

Tudo isso a unos 200 metros da escola, hoje museu, onde as últimas palavras do “homem mais completo do mundo”, segundo Sartre, ainda ecoam nas paredes como um eco infinito: “Fique calmo, você está por matar um homem”.

Outubro será uma festa. Faz 50 anos desde a morte do revolucionário que fez que La Higuera não fosse jamais a mesma. Espera-se que mais de dez mil pessoas cheguem ou consigam chegara  esta vila de 50 almas e levem um pouquinho desta terra no coração, tal como aconteceu com quem escreve estas linhas.

Por Lautaro Actis


Nenhum compromisso na UNE?

por Paulo Henrique da Consulta Popular

Este pequeno texto faz alusão ao capítulo 8, do livro “O esquerdismo: doença infantil do comunismo”, do grande dirigente revolucionário russo Vladimir I. U. Lenin, que trata acerca da política de alianças num processo revolucionário. 100 anos após o triunfo do proletariado russo, é inegável a atualidade dessas ideias.

Neste sentido, quero dialogar e combater as concepções que afirmam que o Levante Popular da Juventude, em conjunto com a grande maioria do Campo Popular teria “capitulado” por ter realizado uma aliança de campo com o Campo Majoritário, no 55º Congresso da UNE. Estas concepções, ao meu ver, em sua grande maioria, expressam manifestações de “esquerdismo”, não à toa que advém de organizações que querem atingir seus objetivos “sem se deter em etapas intermediárias e sem compromissos”. Outra parte das críticas que estamos sofrendo, em especial por parte dos companheiros da Reconquistar a UNE, advém de uma concepção cristalizada de estratégia da disputa da entidade. Estratégia essa que consistia em unificar a oposição, com o objetivo de “tomar” a entidade. Essa estratégia foi implementada com sucesso em 2001, 2003, mas derrotada em 2005.

1 – A disputa da UNE não está acima da disputa geral da sociedade. Pode parecer uma ideia simples, mas que muitas vezes é negada, seja para legitimar posições oportunistas ou concepções sectárias. Não à toa o resultado eleitoral do Congresso expressou o atual processo de reorganização da esquerda brasileira e suas duas frentes políticas, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo. Ou não é verdade, que os companheiros que constituem o campo da Oposição de Esquerda, em sua imensa maioria se identificam com a Frente Povo Sem Medo?

2 – Os setores do chamado “Campo Democrático e Popular” estavam cindidos não só na UNE, mas em toda a sociedade. Foi a luta contra o Golpe que reunificou seus setores na Frente Brasil Popular. Afirmo isso, com o objetivo de evidenciar que a nossa movimentação durante o 55º Congresso da UNE não foi incoerente às nossas formulações estratégicas, muito menos um desvio pragmático. Pelo contrário, dialoga com nossa tática para o atual momento político, centrada na unidade das forças populares na luta contra o Golpe, contra a ofensiva neoliberal, por Diretas Já e Constituinte.

3 – No “Esquerdismo”, Lenin identifica dois critérios para avaliarmos se um compromisso é manifestação ou não do oportunismo. São eles: o referido compromisso é “imposto por condições objetivas”? Segundo, o compromisso abre mão da “abnegação revolucionária e da disposição de continuar a luta”?

4 – Todas as forças políticas no Congresso (ou sua grande maioria), sabem que nossa politica de alianças prioritária para o Congresso era fortalecer o Campo Popular ampliando para setores que compunham o Campo Majoritário e a Oposição de Esquerda. Fizemos todo o esforço possível para que este cenário se viabilizasse, mas objetivamente ele não aconteceu. Além disso, parte das forças políticas que constroem o Campo Popular estavam convencidos da necessidade de uma política de frente ampla, que possibilitasse um programa mais avançado para entidade e seu compromisso com a luta de massas. Este cenário que não era prioritário para nós, se fortaleceu durante o Congresso, em especial com a defesa das resoluções. Em todas as conversas que fizemos durante o Congresso, sempre apresentamos a possibilidade de uma aliança entre campos. O único cenário descartado por nós era o isolamento político.

5 – Esta aliança diminui “abnegação revolucionária” do Levante e sua disposição revolucionária de “continuar a luta”? Creio de sobremaneira que não. Nossas diferenças continuarão existindo, e continuaremos lutando pela democratização da entidade. Temos convergências importantes na análise de conjuntura e divergências na construção da entidade, continuaremos apresentando-as. Creio que, inclusive, esse combate de ideias, fará a entidade avançar.

6 – Há ainda os mais confusos que afirmam que nos aliamos à golpistas, em referência a presença da Juventude Socialista Brasileira n

a chapa da Frente Brasil Popular. Se é certo que o PSB não é homogêneo tendo dentro de si setores conservadores, é verdade também que sua juventude é progressista, constrói a Frente Brasil Popular em vários estados e está de acordo com o programa Fora Temer e Diretas Já.

7 – Parte dos setores que hoje nos criticam realizaram alianças em diversas universidades particulares pelo Brasil com os setores que compunham o Campo Majoritário. Nos parece que a crítica advinda desses setores é meramente oportunismo.

Por fim, tenho convicção de que o Levante Popular da Juventude seguirá convicto de sua estratégia de disputa da UNE e da sociedade.


13 DE MAIO: SEREMOS PALMARES NA LUTA PELA VERDADEIRA ABOLIÇÃO

 

Muitos de nós aprendemos nas escolas que foi o ato da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, pelas mãos da Princesa Isabel, responsável pela abolição da escravatura. Pior, o fato é narrado como “bondade” de uma princesa mais humanizada, pois “libertou” os escravizados por “cordialidade”. Mas não se narra o processo de resistência, as revoltas, os quilombos, paralisações dos escravizados, processo esse que ficou conhecido como quilombagem. Pensadores e lutadores como Clóvis Moura descreve que tais lutas negras foram fundamentais para a abolição. E precisamos conhecer esse lado da história, rompendo com velho olhar eurocêntrico, enaltecendo as lutadoras e lutadores populares da época.

O movimento negro há várias décadas denuncia a falsa abolição. O dia 13 de Maio é considerado o Dia Nacional de Denúncia ao Racismo. Uma data que serve para trazer a reflexão dos impactos da falsa abolição na vida das trabalhadoras e trabalhadores brasileiros, sobretudo as negras e os negros. E dessa maneira desmentir e fazer o enfrentamento à narrativa que não aborda a luta social dos escravizados.

Já o 20 de Novembro, desde a década de 70, o movimento negro passou a comemorar como dia nacional da consciência negra, lembrando a morte de Zumbi, o maior líder do Quilombo de Palmares.  Esvaziando totalmente a importância da Princesa Isabel no 13 de maio e dando visibilidade para Zumbi, Dandara, Ganga Zumba, e tantas outras lideranças que passaram por Palmares ou enfrentaram o racismo em suas vidas e na sociedade brasileira.

Há vários equívocos na narrativa que declara a abolição como uma bondade ou concessão do império, mas vamos destacar duas principais.  A primeira é que a liberdade real só vem com a garantia de direitos e isso a canetada de ouro não proporcionou.  A abolição “liberou” milhares de vítimas da maior crueldade e exploração da nossa história, sem garantir mínimas condições de vida: inclusão social, emprego, moradia, terra, educação, etc. Na realidade, só alterou os mecanismos de opressão e exploração contra a população negra, que saiu das senzalas e foi jogada nas cidades e, depois, nas favelas, sofrendo um processo de marginalização, que perpassou também pela sua cultura e tradição.

Em 2017, completam-se 129 da abolição, mas os indicadores sociais do nosso país ainda apontam a existência da desigualdade racial e social, uma evidência concreta de que não houve abolição e que a integração do/a negro/a na sociedade de classes foi a partir do racismo, da opressão e da exploração.  As  negras e negros são 54% da população, mas a sua participação no grupo dos 10% mais pobres do país é muito maior: 75%; a população negra está 73,5% mais exposta a viver em um domicílio com condições precárias do que brancos; a cada três jovens que são assassinados, dois são negros; o trabalhador negro tem o salário 47% menor do que de um trabalhador branco com o mesmo grau de formação; 56% das mulheres negras trabalham como domésticas; a taxa de analfabetismo das pessoas com 15 anos de idade ou mais é de 8,3% para brancos e 21% para negros. Esses são alguns dos vários dados que demonstram que o racismo é bem atual, aliás o mesmo se articula bem com o capitalismo.

Para o pensador e lutador Octavio Ianni, a abolição feita aos moldes da canetada de ouro serviu para colocar a população negra como exército industrial de reserva. Importante debate, pois no atual cenário onde o número de desempregados só aumenta, não podemos fugir do debate racial. Em 2016, o IBGE pela primeira vez investigou os desempregados considerando a cor ou raça da população. A taxa de desemprego das pessoas que se declararam de cor preta (14,4%) e parda (14,1%), foi maior do que das pessoas que se autodeclararam brancas (9,5%).

Vivemos sob a lógica de um racismo estrutural, ou seja, não estamos falando simplesmente de um preconceito, mas sim de uma opressão e exploração que se expressa em todas as formas e relações, especialmente na relação fundamental da sociedade capitalista, a relação capital-trabalho.  O pensador e lutador Florestan Fernandes em seu livro “A Integração do Negro na Sociedade de Classes” aborda esse debate, ao afirmar que, no Brasil, foi realizada uma falsa abolição e nunca a classe dominante se dispôs a resolver essa contradição, muito pelo contrário, sempre legou a população negra os trabalhos mais precarizados, e até análogo à escravidão, a baixa escolaridade e toda as mazelas sociais que afeta a vida das negras e negros. Tais elementos não são coincidência ou força do destino, fazem parte de uma lógica capitalista, racista e patriarcal.

O segundo equívoco é acreditar que extinção oficial da escravidão faria com que ela não existisse mais em nosso país. Estamos há um pouco mais de um século da canetada de ouro, ainda sim existem denúncias de trabalhadoras (es) de todas etnias em condições de escravidão. Segundo os dados do Ministério do Trabalho existe mais de 24 milhões de trabalhadores em situação análoga à escravidão, sendo que em 90% dos casos são em terceirizadas. Todos os anos o Ministério do Trabalho resgata trabalhadoras (es) em situação análoga à escravidão no campo e na cidade.

Todas essas questões só reafirmam o compromisso do Levante Popular da Juventude com o povo brasileiro. A população negra sempre lutou para ocupar o seu espaço, e foi essa luta que proporcionou algumas mudanças nas suas vidas. Florestan Fernandes, em sua obra, também afirma que raça e classe dialogam, dando condições ao povo brasileiro ser uma força revolucionária determinante na luta por um mundo mais justo sem exploração e sem racismo.

É do povo negro a resistência, a bravura, pois sempre esteve presente nas lutas sociais do nosso país. Neste dia 13 de maio, nós, a juventude do campo popular, temos a obrigação de narrar a história pela voz do povo, de reafirmar o compromisso que já decretamos desde a nossa primeira carta compromisso: de se somar ao movimento negro e de fazer lutas antirracistas. Na escravidão éramos Dandara, na Ditadura éramos Marighella e na atual conjuntura seremos Palmares, a ordem fora da ordem, construindo pouco a pouco para a revolução, cada célula é uma Palmares que grita para fora por justiça social, dando voz a cada vítima do racismo, enfrentando o capitalismo, conspirando: PÁTRIA LIVRE! VENCEREMOS!

POVO NEGRO UNIDO É POVO NEGRO FORTE QUE NÃO TEME A JUTA QUE NÃO TEME A MORTE !!!

JUVENTUDE QUE OUSAR LUTAR CONSTRÓI O PODER POPULAR!!!

 


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