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La Higuera, um lugar no mundo

Existem lugares que por se encontrar em sítios remotos, possuir climas inóspitos ou por não ter certos serviços públicos, não são atrativos para muitas pessoas. La Higuera é um deles. Lugar onde só chega quem realmente tem um autêntico interesse em conhecer.

Uma longa estrada de terra, entre montanhas, na qual as curvas vem uma atrás da outra, em conjunto com uma inclinação íngreme. Um clima seco que produz sulcos tanto na pele como no chão, chuvas só em um mês do ano, o mesmo mês onde se pode conseguir alguma fruta. O sol divide o dia em dois, toda atividade ao ar livre devem ser feitas antes das 11 da manhã ou após as 4 da tarde. Água, até recém começada a tarde e energia elétrica não existe. Internet, wi-fi, sinal de telefone não são conhecidas lá. Lugar onde fica que realmente tem um autêntico interesse em descobrir.

Um povoado empoeirado mais desses perdidos no meio da nada, com quase 2.000 metros de altitude, que ninguém tivesse conhecido se não for por que lá, na escola do povoado, uma das personalidades mais transcendentes do século XX foi assassinada: Ernesto “Che” Guevara.

 

Desde a pequena praça, à primeira vista podem-se visualizar três brigas do guerrilheiro nascido em Rosario, na Argentina. A nova escola primária, que assim como a maioria das casas e armazéns tem murais ou grafites feitos por viajantes e ativistas sociais de todo o mundo que chegaram a esta terra onde a presença da morte do Che os faz passar várias horas em ônibus raquíticos, por estradas de terra desenhadas em grandes morros cobertas com vegetal de terra seca – colmeias e arbustos- que secam a pele apenas de ficar perto da janela.

É que, embora existam repetidas promessas de asfalto e melhorias na estrada, a viagem entre Valle Grande – a cidade mais próxima – e La Higuera são umas longas 3 horas onde o sol é onipresente, somente interrompido por algumas pequenas cidades, como Pucará, auto chamada “a capital do céu”, que tanto no seu escudo como no posto de polícia mostra a fotografia mundialmente famosa do homem da estrela que o fotógrafo cubano Alberto Korda tirou na Praça da Revolução de La Habana.

 

A 20 metros da praça da cidade está o Museu Comunitário “La Higuera”, construído sobre a demolida escola onde, na segunda-feira 9 de outubro de 1967, após receber a ordem de La Paz e Washington, as balas do sargento Mario Terán bateram primeiro no antebraço e na coxa de Guevara para depois, numa segunda execução após o próprio Che ordenar que “apontasse bem”, perfurar o pescoço do líder guerrilheiro. O relógio marca 15 minutos para a 1 da tarde, Che estava dessangrando quando o sargento Bernardino Huanca entra no quarto, lhe dá uma chutada que o deixa com a boca para a cima e, a menos de um metro de distância, dispara direto ao coração. Uma hora antes, tinham levado Che para fora do lugar para tirar-lhe algumas fotos. Muitos vizinhos do povoado têm aquela lembrança. Lá, dentro desse quarto, hoje não há mais espaço livre nas paredes. Como se tratasse de um santuário de alguma divindade pagã, numerosas mensagens, agradecimentos, fotos, bandeiras e palavras lotam as paredes como se fosse o bem conhecido bar de La Habana “La Bodeguita del Médio”.

Ninguém na aldeia ou na área sabia quem era o Che Guevara. Um lugar onde até hoje não há televisão, rádio, jornais, nem internet, nem sinal de telefone, nem transporte de longa distância. As novidades do mundo não chegam neste ponto da Bolívia. Com isso, podemos imaginar como eram as notícias há meio século. “Se eu tivera sabido quem ele era, eu o tivesse ajudado a fugir” disse o senhor Florencio frente a minhas perguntas, enquanto descemos até a Quebrada del Churo, onde Guevara foi capturado e hoje têm uma pedra com uma estrela vermelha. Uma das duas estradas que descem para aquele lugar atravessam a fazenda do avô que, junto com seu filho Santos, cobram 10 pesos bolivianos, cerca de um dólar e meio, para quem quer andar uns 40 minutos de descida até o rio. Dom Florencio tinha 27 anos naquela tarde do domingo 8 de outubro, quando o combate terminou com o Che preso e começou a caravana para o povoado passando por sua fazenda. “Ele parecia um indigente, barbudo, sujo, magro, com roupas rasgadas e sapatos improvisados feitos com um pano”. Che tinha escrito no dia 10 de setembro em seu diário: “Atravessei o rio nadando com a mula, mas perdi meus sapatos enquanto o cruzava e agora estou com uns panos, coisa que não é nada engraçada.”

A caravana de soldados, reféns  e mortos em combate levou cerca de duas horas andando desde a Quebrada del Churo até La Higuera. À vista dos povoadores daquele tempo. Dona Hirma tinha 20 anos quando a caravana passou pela porta de sua casa, ela trabalhava como assistente de tipógrafa quando o mundo colocou seus olhos sobre seu povoado. “Começa um novo Vietnã?”, se perguntava Che em seu diário quando confirmava a intervenção dos EUA no combate. “O povo de La Higuera estava com medo, dificilmente se encorajava a espiar detrás da porta da sua casa aos estrangeiros com barba. Porque os militares pegavam e levavam preso a Valle Grande aos camponeses que ajudavam a guerrilha com comida ou recursos”, diz a senhora dona da loja “La Estrella” que fica em frente a praça. Sua loja oferece pão caseiro cozidos no forno de barro, queijos feitos com leite ordenhada todas as manhãs pela própria senhora de 70 anos. Depois de atirar nele, os militares expuseram o corpo do guerrilheiro cubano-argentino fora da escola, momento em que o povo conheceu pela primeira vez a imagem do perigoso revolucionário de quem tanto lhe falaram. Dona Hirma e uma amiga aproximaram-se levadas pela curiosidade para ver: “ficamos impressionadas com o olhar dele, ele tinha os olhos abertos”, lembra.

“Se alguma coisa fez bem o exército, foi introduzir a cultura do medo na região”, diz Leo, chefe do escritório de turismo de Valle Grande e grande conhecedor da história, enquanto vai de uma reunião para outra em plena organização dos eventos que serão realizados em outubro, nos quais se esperam atrair milhares de pessoas. “As pessoas da aldeia ficaram assustadas com a psicose criada pelo exército e os permanentes estados de cerco em que viviam”, acrescenta Leo. Estratégia que continua inclusive depois de que o líder guerrilheiro morreu: “vocês serão bombardeados por aviões soviéticos e cubanos por o terem matado”, lembra Dona Hirma que os militares tinham-lhe dito.

 

São 6 horas da tarde, a noite vem chegando depois de um pôr-do-sol entre as montanhas que tinge com tons violetas, celestiais e laranjas no horizonte além do Rio Grande. O céu é uma brilhantina por causa da ausência de energia elétrica, todas as estrelas servem de fundo da estátua do Che. Me encontro com Casiano, um menino curioso de 12 anos que consegue moedas para doces e refrigerastes guiando os turistas até a Quebrada del Churo. Quando lhe pergunto o que ele sabe sobre o Che, ele me conta uma história que o avô lhe disse: “quando a caravana de soldados e reféns atravessou a cidade, Che tinha um relógio no pulso e o quis dar de presente para um camponês que estava assistindo o espetáculo, mas os soldado não deixaram, embora Che insistiu que queria o dar para o trabalhador”. Quando o menino viu minha câmera, pediu-me para tirar uma foto dele e depois ele tirar uma de mim. É a sua primeira foto com uma câmera sem ser a do seu telefone. No dia seguinte, ele me convidou para jogar futebol no pátio da escola, sob a luz da lua cheia. Eu já virei seu amigo e ele será o único na aldeia em aprender a me chamar pelo meu nome e não de “Don” ou “gringo”. Ele é o menino rebelde do povoado.

Apesar da presença de tudo relacionado a morte do Che, La Higuera não vive do turismo, a maioria dos visitantes vem por umas horas tiram algumas fotos e vão embora. Plantações de milho, vacas leiteiras, batatas entre outros poucos cultivos garantem a dieta dos habitantes locais. Existe apenas uma escola primária, de modo que os adolescentes vão para Valle Grande ou Santa Cruz para estudar e não retornam. “Não há pessoas para trabalhar a terra, aquela que nos dá comida todos os dias”, lamenta Dona Hirma. É que hoje moram cerca de 50 pessoas, antes moravam 70. Seus dois filhos que ainda vivem na aldeia ganham a vida oferecendo transporte de La Higuera para Valle Grande em seus táxis. Consciente do jeito em que o turismo altera a identidade dos lugares, a senhora e a maioria dos vizinhos são a favor de uma maior exploração do turismo. O que geraria mais clientes apara sua loja e mais comensais para seus almoços e jantares caseiros. Ela sabe que se a estrada estiver pavimentada e a luz elétrica for colocada, um número maior de turistas serão encorajados a ir para tirar fotos com a estátua do Che que está em frente a sua casa.

Em frente a praça, funciona a escola primária. Na parte detrás tem um espaço – um campo de futebol – que faz as vezes de habitação comunitária para aqueles que querem ir para o povoado e não tem dinheiro para acomodação. Na porta vem até meu encontro Brian, um menino de 6 anos que sempre está sorrindo, ele me diz que não gosta de ir a escola, mas escuta-se os gritos de sua mãe desde a porta de sua casa e ele não tem escolha. “Você sabe quem é o homem na estátua?” lhe pergunto. “Sim, ele é um guerrilheiro que foi morto pela polícia”, ele responde antes de entrar na escola em que todas as paredes têm frases ou murais do Che. Ele me mostra que está carregando um ovo e uma batata para que lhe cozinhem o almoço na escola.

“Às 3 horas da tarde do dia 8 de outubro acaba o Combate del Churo, e o Che é capturado, às 7 chegam em La Higuera. O dia 9 de outubro ao meio-dia é atirado. Depois é levado de helicóptero para Valle Grande, onde o expõem em “La Lavanderia” do hospital da cidade e onde o fotógrafo francês Marc Hutten tira as famosas fotografias do Che morto com os olhos abertos. Lá foi onde o médico Ustary Arze toca o corpo do guerrilheiro e observa que ainda é quente e que não tem a rigidez de uma pessoa morta de mais de um dia. Assim, torna-se na primeira pessoa a relatar que Che havia morto naquele mesmo dia e não em 8 de outubro em combate, como tinha reivindicado pelo exército: o Che foi assassinado” conclui Christian, um historiador francês  fanático do Che que vive há anos em La Higuera e que, juntamente com a sua parceira, são os donos da hospedagem “Los Amigos”, a acomodação mais confortável da cidade. Christian vai para sua giblioteca e prande bega dois livros e os dá para mim. São “El combate del Churo y el asesinato del Che”, de Reginaldo Ustariz Arze e “El asesinato del Che em Bolivia: Revelaciones”, de Adys Cupull e Froilan González. Nesses livros, é denunciado que a ditadura do General Barrientos escondeu e silenciou muitas vozes e testemunhas para instalar a ideia de que Che morreu em combate no dia 8 de outubro, por isso é que por tanto tempo lembrou-se dessa data e não 9 outubro como a data em que Guevara havia morto.

 

Depois dessa foto famosa em “La Lavanderia”, o Che é levado ao necrotério e suas mãos são cortadas antes de ser enterrado em um túmulo comum localizado nas proximidades do cemitério de Valle Grande junto com outros 6 guerrilheiros, permanecendo lá em segredo por 30 anos. Até que em 1997 um dos militares negou a versão, até aquele momento mantida pelo exército boliviano, de que o Che tinha sido morto em combate e seu corpo queimado e as cinzas ortigadas pelo Rio Grande. Na atualidade, onde essa fossa estava, tem o “Mausoleo del Che” juntamente com um interessante museu com fotos, replicas do diário do Che e de sua vestimenta, bem como muitas informações históricas.

Don Ismael, tinha 6 anos quando a guerrilha esteve por aqui. Lembra-se de que os guerrilheiros passaram descendo de Abra del Picacho, uma pequena aldeia acima de La Higuera. Onde os guerrilheiros estiveram e até dançaram algumas músicas aproveitando a festa da aldeia. “Eles foram vários homens que passaram tranquilos, saudando como qualquer outro visitante. Não me lembro das armas, apenas suas grandes mochilas” ele me diz, enquanto com minha inocente ajuda ele mata um porco, trabalho que Dona Gregoria encomendou, que seguindo sua visão de negócios está se preparando para o próximo festival da aldeia, onde venderá chicharrón – gordura e couro de porco frito com batata e milho – e porco assado. “Você tem medo da morte?” me surpreende e acerto um “não”. “Todos nós dizemos isso, mas quando aparece, aí realmente percebemos o que sentimos diante dela”, continua. “E você gostaria de ser um soldado de Jesus?” pergunta Dom Ismael, faca na mão, raspando o couro do porco morto, é que ele é evangelista e frequenta um templo da Igreja Universal em Valle Grande. Ele compara a guerrilha com os soldados de Jesus: “como o Che, Jesus lutou contra o império, em seu caso o romano. Pregando o bem contra o mal de Satanás. Che procurava uma vida melhor para nós camponeses, mas os ricos não o deixaram” conclui, e já é hora de cortar o porco.

As pessoas do povoado começam a mexer, todos preparando algum alimento para vender. É a festa da Virgem de Guadalupe, padroeira do lugar – sim, a mesma Virgem de Guadalupe que o sacerdote Hidalgo y Costilla levantou como bandeira na luta pela independência do México. A tradição é fazer uma promessa à virgem de dançar por três dias seguidos. É por isso que, nos dias 7, 8 e 9 de setembro há uma festa em La Higuera e em todas as aldeias vizinhas. Naqueles dias, os originários de La Higuera que migraram procurando melhor sorte em outras terras, generalmente para Valle Grande, Santa Cruz ou Argentina, retornam para se reconectar  com sua terra. Uma roda de chicha, bebida de milho fermentado, e sucumbé, bebida quente feita com leite ordenhada pela manha, cravo, canela e singani, passam de mão em mão sob o som de bandas que tocam música vallegrandina, uma espécie de rancheiras mexicanas, com chapéu e violão texanos ao lado do altar da Virgem, cheio de velas coloridas e flores oferecidas por seus fiéis.  As pessoas dançam e depois sentam-se para experimentar carne de porco ou frango picante.

Nesta data, as noites silenciosas, escuras e tranquilas que caracterizam a cidade são alteradas pela chegada de pick-ups 4×4 polarizados, geradores elétricos, alto-falantes e até fogos de artifício. A mistura de pessoas que se encontra resulta interessante. Pode-se distinguir facilmente entre aqueles que ainda moram em La Higuera: geralmente mais retirados, tímidos, com chinelos nos pés, roupas de campo com restos de alguma carne ou trabalho com o gado; com os higuerenses que hoje vivem longe de suas terras: roupas urbanas, jeans, sapatos, tênis e cortes de cabelo que usam jogadores de futebol. Assim rapidamente pode-se diferenciar as celebridades do povoado, na que ostentam roupas europeias ou norte-americanas, com a pele e os cabelos cuidados, maquiagem, sapatos de couro finos e uma presença que tem um ar de superioridade.

 

Tudo isso a unos 200 metros da escola, hoje museu, onde as últimas palavras do “homem mais completo do mundo”, segundo Sartre, ainda ecoam nas paredes como um eco infinito: “Fique calmo, você está por matar um homem”.

Outubro será uma festa. Faz 50 anos desde a morte do revolucionário que fez que La Higuera não fosse jamais a mesma. Espera-se que mais de dez mil pessoas cheguem ou consigam chegara  esta vila de 50 almas e levem um pouquinho desta terra no coração, tal como aconteceu com quem escreve estas linhas.

Por Lautaro Actis


Nenhum compromisso na UNE?

por Paulo Henrique da Consulta Popular

Este pequeno texto faz alusão ao capítulo 8, do livro “O esquerdismo: doença infantil do comunismo”, do grande dirigente revolucionário russo Vladimir I. U. Lenin, que trata acerca da política de alianças num processo revolucionário. 100 anos após o triunfo do proletariado russo, é inegável a atualidade dessas ideias.

Neste sentido, quero dialogar e combater as concepções que afirmam que o Levante Popular da Juventude, em conjunto com a grande maioria do Campo Popular teria “capitulado” por ter realizado uma aliança de campo com o Campo Majoritário, no 55º Congresso da UNE. Estas concepções, ao meu ver, em sua grande maioria, expressam manifestações de “esquerdismo”, não à toa que advém de organizações que querem atingir seus objetivos “sem se deter em etapas intermediárias e sem compromissos”. Outra parte das críticas que estamos sofrendo, em especial por parte dos companheiros da Reconquistar a UNE, advém de uma concepção cristalizada de estratégia da disputa da entidade. Estratégia essa que consistia em unificar a oposição, com o objetivo de “tomar” a entidade. Essa estratégia foi implementada com sucesso em 2001, 2003, mas derrotada em 2005.

1 – A disputa da UNE não está acima da disputa geral da sociedade. Pode parecer uma ideia simples, mas que muitas vezes é negada, seja para legitimar posições oportunistas ou concepções sectárias. Não à toa o resultado eleitoral do Congresso expressou o atual processo de reorganização da esquerda brasileira e suas duas frentes políticas, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo. Ou não é verdade, que os companheiros que constituem o campo da Oposição de Esquerda, em sua imensa maioria se identificam com a Frente Povo Sem Medo?

2 – Os setores do chamado “Campo Democrático e Popular” estavam cindidos não só na UNE, mas em toda a sociedade. Foi a luta contra o Golpe que reunificou seus setores na Frente Brasil Popular. Afirmo isso, com o objetivo de evidenciar que a nossa movimentação durante o 55º Congresso da UNE não foi incoerente às nossas formulações estratégicas, muito menos um desvio pragmático. Pelo contrário, dialoga com nossa tática para o atual momento político, centrada na unidade das forças populares na luta contra o Golpe, contra a ofensiva neoliberal, por Diretas Já e Constituinte.

3 – No “Esquerdismo”, Lenin identifica dois critérios para avaliarmos se um compromisso é manifestação ou não do oportunismo. São eles: o referido compromisso é “imposto por condições objetivas”? Segundo, o compromisso abre mão da “abnegação revolucionária e da disposição de continuar a luta”?

4 – Todas as forças políticas no Congresso (ou sua grande maioria), sabem que nossa politica de alianças prioritária para o Congresso era fortalecer o Campo Popular ampliando para setores que compunham o Campo Majoritário e a Oposição de Esquerda. Fizemos todo o esforço possível para que este cenário se viabilizasse, mas objetivamente ele não aconteceu. Além disso, parte das forças políticas que constroem o Campo Popular estavam convencidos da necessidade de uma política de frente ampla, que possibilitasse um programa mais avançado para entidade e seu compromisso com a luta de massas. Este cenário que não era prioritário para nós, se fortaleceu durante o Congresso, em especial com a defesa das resoluções. Em todas as conversas que fizemos durante o Congresso, sempre apresentamos a possibilidade de uma aliança entre campos. O único cenário descartado por nós era o isolamento político.

5 – Esta aliança diminui “abnegação revolucionária” do Levante e sua disposição revolucionária de “continuar a luta”? Creio de sobremaneira que não. Nossas diferenças continuarão existindo, e continuaremos lutando pela democratização da entidade. Temos convergências importantes na análise de conjuntura e divergências na construção da entidade, continuaremos apresentando-as. Creio que, inclusive, esse combate de ideias, fará a entidade avançar.

6 – Há ainda os mais confusos que afirmam que nos aliamos à golpistas, em referência a presença da Juventude Socialista Brasileira n

a chapa da Frente Brasil Popular. Se é certo que o PSB não é homogêneo tendo dentro de si setores conservadores, é verdade também que sua juventude é progressista, constrói a Frente Brasil Popular em vários estados e está de acordo com o programa Fora Temer e Diretas Já.

7 – Parte dos setores que hoje nos criticam realizaram alianças em diversas universidades particulares pelo Brasil com os setores que compunham o Campo Majoritário. Nos parece que a crítica advinda desses setores é meramente oportunismo.

Por fim, tenho convicção de que o Levante Popular da Juventude seguirá convicto de sua estratégia de disputa da UNE e da sociedade.


13 DE MAIO: SEREMOS PALMARES NA LUTA PELA VERDADEIRA ABOLIÇÃO

 

Muitos de nós aprendemos nas escolas que foi o ato da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, pelas mãos da Princesa Isabel, responsável pela abolição da escravatura. Pior, o fato é narrado como “bondade” de uma princesa mais humanizada, pois “libertou” os escravizados por “cordialidade”. Mas não se narra o processo de resistência, as revoltas, os quilombos, paralisações dos escravizados, processo esse que ficou conhecido como quilombagem. Pensadores e lutadores como Clóvis Moura descreve que tais lutas negras foram fundamentais para a abolição. E precisamos conhecer esse lado da história, rompendo com velho olhar eurocêntrico, enaltecendo as lutadoras e lutadores populares da época.

O movimento negro há várias décadas denuncia a falsa abolição. O dia 13 de Maio é considerado o Dia Nacional de Denúncia ao Racismo. Uma data que serve para trazer a reflexão dos impactos da falsa abolição na vida das trabalhadoras e trabalhadores brasileiros, sobretudo as negras e os negros. E dessa maneira desmentir e fazer o enfrentamento à narrativa que não aborda a luta social dos escravizados.

Já o 20 de Novembro, desde a década de 70, o movimento negro passou a comemorar como dia nacional da consciência negra, lembrando a morte de Zumbi, o maior líder do Quilombo de Palmares.  Esvaziando totalmente a importância da Princesa Isabel no 13 de maio e dando visibilidade para Zumbi, Dandara, Ganga Zumba, e tantas outras lideranças que passaram por Palmares ou enfrentaram o racismo em suas vidas e na sociedade brasileira.

Há vários equívocos na narrativa que declara a abolição como uma bondade ou concessão do império, mas vamos destacar duas principais.  A primeira é que a liberdade real só vem com a garantia de direitos e isso a canetada de ouro não proporcionou.  A abolição “liberou” milhares de vítimas da maior crueldade e exploração da nossa história, sem garantir mínimas condições de vida: inclusão social, emprego, moradia, terra, educação, etc. Na realidade, só alterou os mecanismos de opressão e exploração contra a população negra, que saiu das senzalas e foi jogada nas cidades e, depois, nas favelas, sofrendo um processo de marginalização, que perpassou também pela sua cultura e tradição.

Em 2017, completam-se 129 da abolição, mas os indicadores sociais do nosso país ainda apontam a existência da desigualdade racial e social, uma evidência concreta de que não houve abolição e que a integração do/a negro/a na sociedade de classes foi a partir do racismo, da opressão e da exploração.  As  negras e negros são 54% da população, mas a sua participação no grupo dos 10% mais pobres do país é muito maior: 75%; a população negra está 73,5% mais exposta a viver em um domicílio com condições precárias do que brancos; a cada três jovens que são assassinados, dois são negros; o trabalhador negro tem o salário 47% menor do que de um trabalhador branco com o mesmo grau de formação; 56% das mulheres negras trabalham como domésticas; a taxa de analfabetismo das pessoas com 15 anos de idade ou mais é de 8,3% para brancos e 21% para negros. Esses são alguns dos vários dados que demonstram que o racismo é bem atual, aliás o mesmo se articula bem com o capitalismo.

Para o pensador e lutador Octavio Ianni, a abolição feita aos moldes da canetada de ouro serviu para colocar a população negra como exército industrial de reserva. Importante debate, pois no atual cenário onde o número de desempregados só aumenta, não podemos fugir do debate racial. Em 2016, o IBGE pela primeira vez investigou os desempregados considerando a cor ou raça da população. A taxa de desemprego das pessoas que se declararam de cor preta (14,4%) e parda (14,1%), foi maior do que das pessoas que se autodeclararam brancas (9,5%).

Vivemos sob a lógica de um racismo estrutural, ou seja, não estamos falando simplesmente de um preconceito, mas sim de uma opressão e exploração que se expressa em todas as formas e relações, especialmente na relação fundamental da sociedade capitalista, a relação capital-trabalho.  O pensador e lutador Florestan Fernandes em seu livro “A Integração do Negro na Sociedade de Classes” aborda esse debate, ao afirmar que, no Brasil, foi realizada uma falsa abolição e nunca a classe dominante se dispôs a resolver essa contradição, muito pelo contrário, sempre legou a população negra os trabalhos mais precarizados, e até análogo à escravidão, a baixa escolaridade e toda as mazelas sociais que afeta a vida das negras e negros. Tais elementos não são coincidência ou força do destino, fazem parte de uma lógica capitalista, racista e patriarcal.

O segundo equívoco é acreditar que extinção oficial da escravidão faria com que ela não existisse mais em nosso país. Estamos há um pouco mais de um século da canetada de ouro, ainda sim existem denúncias de trabalhadoras (es) de todas etnias em condições de escravidão. Segundo os dados do Ministério do Trabalho existe mais de 24 milhões de trabalhadores em situação análoga à escravidão, sendo que em 90% dos casos são em terceirizadas. Todos os anos o Ministério do Trabalho resgata trabalhadoras (es) em situação análoga à escravidão no campo e na cidade.

Todas essas questões só reafirmam o compromisso do Levante Popular da Juventude com o povo brasileiro. A população negra sempre lutou para ocupar o seu espaço, e foi essa luta que proporcionou algumas mudanças nas suas vidas. Florestan Fernandes, em sua obra, também afirma que raça e classe dialogam, dando condições ao povo brasileiro ser uma força revolucionária determinante na luta por um mundo mais justo sem exploração e sem racismo.

É do povo negro a resistência, a bravura, pois sempre esteve presente nas lutas sociais do nosso país. Neste dia 13 de maio, nós, a juventude do campo popular, temos a obrigação de narrar a história pela voz do povo, de reafirmar o compromisso que já decretamos desde a nossa primeira carta compromisso: de se somar ao movimento negro e de fazer lutas antirracistas. Na escravidão éramos Dandara, na Ditadura éramos Marighella e na atual conjuntura seremos Palmares, a ordem fora da ordem, construindo pouco a pouco para a revolução, cada célula é uma Palmares que grita para fora por justiça social, dando voz a cada vítima do racismo, enfrentando o capitalismo, conspirando: PÁTRIA LIVRE! VENCEREMOS!

POVO NEGRO UNIDO É POVO NEGRO FORTE QUE NÃO TEME A JUTA QUE NÃO TEME A MORTE !!!

JUVENTUDE QUE OUSAR LUTAR CONSTRÓI O PODER POPULAR!!!

 


Na Venezuela, quem dá o golpe é o parlamento

O que de fato está acontecendo na Venezuela? Essa é a primeira pergunta que todos nós, que desejamos e lutamos por um América Latina livre e soberana devíamos fazer antes de reproduzir notícias falsas fabricadas nas redações da mesma mídia golpista que derrubou o governo eleito democraticamente no Brasil.

A morte de Hugo Chávez e a crise internacional fizeram com que a complexa situação na Venezuela entrasse em outro patamar. A direita venezuelana colocou em marcha uma nova estratégia para derrubada do governo, pois a tentativa fracassada de golpe clássico em 2002 – uso de setores das forças armadas e sequestro do presidente – lhe impôs quase uma década de derrotas. A atual estratégia é a mesmo aplicada no Paraguai em 2012 e no Brasil em 2016, porém com intensidade correspondente ao conflito do país: utilizar as vias legais para dar o verniz democrático ao golpe parlamentar.

A crise econômica internacional – que provocou a queda brutal nos preços do barril de petróleo (de 125 dólares em 2012 para 50 hoje) – impôs a Venezuela, quarta maior produtora de petróleo do mundo, mudanças econômicas profundas. Assim como a maior parte dos países do mundo, ela viu sua economia perder recursos e, com isso, seus programas e medidas que beneficiavam o povo pobre passaram a enfrentar grandes dificuldades. Estas dificuldades foram muito bem utilizadas pela oposição para criar uma situação de ingovernabilidade e caos através da guerra econômica declarada pela burguesia e, portanto, forçar a renúncia ou a retirada de Maduro do poder. Neste contexto, a oposição conquistou maioria do Parlamento nas eleições de 2015.

De lá para cá, praticamente todas a medidas de recuperação econômica enviadas pelo poder executivo ao congresso foram automaticamente rejeitadas e, assim, aprofundam e atrasam qualquer possibilidade de recuperação da economia gerando enormes sacrifícios ao povo venezuelano como o desabastecimento resultante da guerra econômica. A escalada do conflito obrigou então o governo a adotar uma série de medidas legais para continuar governando o país mesmo com a declarada sabotagem do parlamento.

A nova escalada do conflito tem início em 9 de janeiro de 2107, quando a Assembleia venezuelana simplesmente decidiu não reconhecer o presidente eleito como chefe da nação. Alguém viu a mesma gritaria como agora? Alguém viu a palavra “golpe” ser usada nesse caso? Não, nenhuma palavra sobre uma Assembleia que simplesmente resolveu destituir o presidente eleito, rompendo com a constituição daquele país. Diante disso, uma série de leis especiais foram promulgados pelo governo, visto que agora a Assembleia não somente faz oposição e sabota mas, também,  desconhece legalmente o presidente. A partir de então, o conflito entre poderes passa a ser um fator constante e o TSJ – Tribunal Supremo de Justiça -, equivalente ao STF no Brasil, passa atuar para a sua resolução.

O que de fato ocorreu na última semana?

Não foi, nem de perto, um “autogolpe” como saíram às pressas a proclamar nas redações da mídia golpista e, infelizmente, nas análises de setores da esquerda. O TSJ já havia solicitado que a Assembleia não nomeasse três deputados eleitos pelo Estado do Amazonas que, comprovadamente, cometeram crimes eleitorais (imaginem se o STF resolve de fato atuar aqui nessas questões…) e que, portanto, não deveriam ser empossados. Por se tratarem de três opositores ao governo a Assembleia descumpriu a ordem do TSJ (lembram do caso Renan e STF?) e, dessa forma, o TSJ considerou a Assembleia incapaz de cumprir suas funções e assumiu o controle dessas.

Em nenhum momento o parlamento foi fechado ou dissolvido, muito menos a pedido do executivo. Portanto, em nenhum momento se descumpriu a constituição e a lei e nenhuma ditadura foi implantada. Isso tudo só existiu na bem articulada rede golpista que, através de suas mídias, rapidamente divulgou uma avalanche de mentiras e cenas de uma ditadura que nunca existiu. O governo de Nicolas Maduro atuou inclusive para restabelecer a ordem, pois acatou a interpretação de inconstitucionalidade proferida pela procuradora-geral e, através do Conselho de Defesa do país (órgão previsto na constituição venezuelana) solicitou ao TSJ que revisse a decisão e devolvesse o poder da Assembleia aos parlamentares.

Portanto, estamos diante de uma articulação que já derrubou dois governos legítimos na América Latina com este mesmo método. É mais uma tentativa de golpe por parte da direita venezuelana via parlamento e grande mídia continental – que conta agora com a força do governo golpista brasileiro que reuniu as pressas o Mercosul para expulsar e isolar a Venezuela. Por sorte, a Venezuela conta com um Judiciário que não se acovarda nem se rende diante dos golpistas como no Brasil.

É dever nosso defender esse projeto de soberania e que luta bravamente em meio à crise e problemas internos, que são manipulados pelos inimigos que nada desejam a não ser a volta ao modelo servil e de miséria que reinava na Venezuela. Denunciar essa rede de mentiras é a tarefa para manter um presidente eleito democraticamente de um país símbolo de soberania diante do imperialismo e de conquistas inigualáveis para o povo latino-americano nas últimas décadas.


15M: um marco na luta contra o golpismo

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Mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas neste 15 de março em protesto contra os retrocessos promovidos pelo governo golpista de Temer. Em todo o Brasil, nas grandes metrópoles e em milhares de pequenos municípios do interior, as ruas foram tomadas por organizações de juventude, entidades sindicais, movimentos sociais do campo e da cidade. No intuito de chamar a atenção da população para os gigantescos retrocessos que estão por vir, o Ministério da Fazenda foi ocupado, assim como diversos prédios da Previdência Social também foram alvo da atenção de milhares em marcha pelas ruas do país. Linhas de ônibus, trens e metrôs paralisaram a circulação de pessoas, numa mostra de força e disposição dos setores organizados em resistirem ao extermínio do futuro promovido por Temer e sua quadrilha.

A Rede Globo, controladora dos maiores veículos de informação e envolvida até o pescoço com os setores golpistas, deu pouca visibilidade para os atos, dada a proporção que estes alcançaram. Não se deveria esperar coisa diferente. Sendo parte orgânica da defesa das elites brasileiras, esconde-se sob o manto do jornalismo imparcial para, ora ser parcial (que paradoxo!), ora ser negligente com os fatos. Tudo de acordo com seus interesses e de seus correligionários.

O conjunto das medidas propostas pelo governo Temer representa não apenas um atraso econômico promovido pela retomada do neoliberalismo no Brasil. É também um governo que carrega consigo valores que há décadas o povo trabalhador vem tentando derrubar – vide o discurso de Temer no dia 8 de março (uma pérola!). A Reforma da Previdência proposta por Temer nada mais é que a castração do futuro de milhões de trabalhadoras e trabalhadores que durante anos deram duro de sol a sol, e que agora veem ameaçado o seu direito de se aposentar com dignidade. Aos jovens e ainda aos milhões que nem nasceram, restará a previdência privada, ou seja, uma contribuição para os setores do capital financeiro daquilo que é direito conquistado com anos de luta. Querem especular com o dinheiro do povo!

O que a Globo não quer mostrar é o fato de que o crescente descontentamento da população como um todo, e não apenas dos setores organizados que saíram às ruas neste 15M, pode sim inaugurar um novo período nas lutas da classe trabalhadora contra os usurpadores da nação.

Os ratos do plim plim já começaram a pular do barco em naufrágio. Mudam o discurso, fazem algumas críticas, fingem que não têm culpa no cartório. Mas o povo não é bobo, e sabe que o Temer também é filhote da Globo. O manto do jornalismo imparcial já está em farrapos!

As manifestações aumentarão e será cada vez maior a diversidade de pessoas nas lutas contra o projeto de desmonte e entrega de nosso país. O 15M é o marco de um ciclo de lutas que a classe trabalhadora enfrentará na defesa da dignidade para os brasileiros e brasileiras e contra o golpismo.


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