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Carta aos jovens internacionalistas

Quando Lula se tornou presidente, provavelmente nós ainda éramos pequenos e não nos importávamos muito com política. Talvez ainda fosse o tempo em que a gente acreditava em tudo o que o Jornal Nacional mostrava e ia absorvendo as opiniões, por vezes conservadoras, que a família dividia no almoço de domingo. Era um período em que a televisão a cabo ainda não estava tão popularizada e a nossa única opção de lazer nas noites de sábado, sobretudo nas cidades pequenas, era assistir ao programa Zorra Total. Minha primeira imagem do presidente Lula foi construção desse programa. Lembro-me do quadro em que dois moços, limpadores de janelas de prédio, olhavam para cima, de um lado para o outro e diziam: “olha o Lula indo. Olha o Lula vindo.”

Sim, companheiras e companheiros, Lula estava fazendo aquilo que hoje é o dever de qualquer internacionalista: sair da própria zona de conforto para ver a realidade com os próprios olhos. Sim, o presidente Lula viajou muito, mas não só para os Estados Unidos ou para a Inglaterra. Ele foi para outros países da América Latina, foi para África, foi para a Ásia; lugares que só eram lembrados como lar das tragédias ou como terras exóticas.

A situação no Brasil mudou muito e talvez nós nem tivéssemos percebido. Nós estávamos preocupados em crescer. Depois em passar no vestibular. Porém, percebemos que, dentre as nossas opções profissionais, de repente apareceu esse “negócio de nome chique que serve pra gente ser diplomata.” As Relações Internacionais estavam em cena. O Brasil passou a ter projeção no mundo e esse mundo esperava algo de nós. Pela primeira vez estávamos à altura para corresponder, não apenas porque tínhamos recursos econômicos e importância política, mas também pelo fato de que a inserção do Brasil no cenário internacional nos elevou a autoestima.

Muitas vezes nós não gostamos das grades curriculares dos nossos cursos, sobretudo daqueles que têm mais anos de existência, pois são muito conservadoras e, tenho tranquilidade em dizer, colonizadas. Considero normal e me solidarizo com as e os colegas que se decepcionam com o curso, com as teorias que não nos ajudam a entender nossa realidade latino-americana e com as opções profissionais distantes do que almejamos. Em outras palavras, geralmente pintam para nós um cenário que não é o nosso. E não é o nosso porque o Brasil mudou e não é mais um país subordinado aos interesses imperialistas das grandes potências. Agora temos autonomia para decidir com quem vamos negociar; aí os países ricos figuram como uma opção dentre várias e não mais como a única. Quando percebemos isso, que o mundo é bem maior do achávamos, vemos que não podemos mais ficar parados e que temos que buscar alternativas. Nesse processo, a parceria de professores que também acham que o mundo é bem maior do que as teorias antigas é fundamental.

Para mim, também foi fundamental nesse processo o surgimento da AMERI – Articulação do Movimento Estudantil de Relações Internacionais. A AMERI foi a ponte que faltava para que passássemos das meras reclamações para a atuação, para a pesquisa de alternativas, para o descobrimento de outros conhecimentos, sobre o Brasil e sobre o restante do mundo.

Em outubro de 2013 ocorreu o primeiro encontro nacional da AMERI, na Universidade Federal de Uberlândia. Por morar em São Paulo, participei da organização do evento de maneira um tanto periférica e, por não acompanhar de perto todo o processo, ainda me restava aquele pouquinho de dúvida se aquilo tudo daria certo ou não. E deu. Hoje temos um espaço consolidado onde podemos discutir temas marginalizados e lutar por aquilo em que acreditamos, pela popularização das Relações Internacionais, pela democratização da política externa, pela integração latino-americana, contra as opressões, contra a criminalização dos movimentos sociais, dentre tantas outras pautas.

Posso afirmar, principalmente para aquelas e aqueles que como eu ainda estão na graduação, que quando entramos na universidade, a política externa já era tema dos noticiários, estava em debate na mesa do boteco, cada um(a) querendo opinar. Isso não ocorreu à toa, mas foi um movimento construído a partir da percepção do presidente Lula de que a Política Externa é uma ferramenta para determinar e dar consequência ao tipo de desenvolvimento interno que se quer para o país. Quando essa relação, tão óbvia mas tão nebulosa, é finalmente revelada, nós conseguimos ver a política externa como uma política pública e não como uma política de Estado. Por ser pública, está sujeita ao escrutínio da população e deve sofrer interferência dos mais diversos grupos de interesse, sobretudo das classes trabalhadoras.

Ainda temos muito a avançar nessa visão de Política Externa como Política Pública, mas sem dúvida a reorientação dos assuntos internacionais dada pelo presidente Lula foi fundamental no processo de percepção dessa relação. Quando a defendemos, demonstramos que temos um compromisso muito forte com o povo brasileiro; reconhecemos que uma política externa calcada na solidariedade real entre os povos tem muito mais referência social do que uma que considere os países como empresas de tamanhos variados.

Por tudo isso, luto pela popularização das Relações Internacionais, uma vez que entendo que não é apenas uma elite a detentora do conhecimento necessário para a elaboração das diretrizes de atuação internacional do país. Por isso também luto pela criação do Conselho Nacional de Política Externa e pelas eleições diretas para o Parlasul. É nesse sentido que me coloco ao lado dos movimentos sociais, das classes oprimidas e dos marginalizados pela História, essa com H maiúsculo.

 

Natália Lima de Araújo
Bacharelado em Relações Internacionais – IRI/USP


A nossa luta é diária e por sobrevivência

Por Vitória Lessa

homofobia

Estou diariamente em contato -seja pelo meu círculo de amigos, seja pela minha militância- com notícias de jovens LGBTs sendo brutalmente assassinados e por isso me é tão clara a imprescindibilidade da criminalização da homofobia no Brasil. Assim, fico chocada ao ver pessoas comumente defendendo que é exagero, que são casos isolados, crimes passionais, que ser LGBT é moda.
A influência da religião cristã, e muitas vezes do fundamentalismo religioso, no Brasil é visível nas esferas política e social. Na primeira, é estampadamente visível a propaganda discriminatória feita por alguns líderes religiosos (com uma crescente influência e presença no quadro político brasileiro) que defendem que a homossexualidade é proibida pelo primeiro testamento da bíblia. Embora sejam facilmente manipuláveis as interpretações de escritos de mais de 5 mil anos, a religião não pode entrar como mérito em questões políticas em um Estado laico.
No segunda, temos uma sociedade brasileira muito marcada por ideais conservadores, herança da ditadura militar quando a defesa da moral e dos bons costumes de uma família margarina serviam imperavam ditando regras sociais e justificando atos terríveis. Esse conservadorismo, advindo da religião ou não, desponta em um país heteronormativo e patriarcal.
O primeiro significa que o padrão aceitável pela maior parte da população é a heterossexualidade, enquanto o segundo significa que as estruturas de nossa sociedade foram erguidas através da submissão da mulher ao homem. Ambas as características influenciam diretamente no elevado grau de homofobia presente em nossa nação. Em um país onde é valorizado ser homem, portanto (na visão do senso comum) “macho”, “bruto”, “garanhão” e heterossexual, a vida de qualquer um que se oponha a isso não é fácil.
Ilustrativamente: seja uma mulher que “recusa” tal homem, seja um homem que se nega a prestar tal papel, o homossexual não se encaixa num sistema patriarcal e heteronormativo.
Infelizmente a vida de um homossexual no Brasil frequentemente segue a mesma sequência: é criado, como qualquer menino, para crescer e ser um garanhão másculo que subjuga as mulheres ou para ser uma princesa feminina em busca de um casamento com um rapaz lindo, no qual ela prestará o papel de esposa submissa e prestativa (na casa e na cama); chega a adolescência e ele/ela começa a se ver diferente dos colegas, passando por um momento complicado de auto conhecimento e dúvidas, os/as colegas notam, também, que ele/ela é diferente e começam as provocações e até agressões; e finalmente, os/as LGBT se assume primeiro para si mesmo, em um processo complicado e longo (afinal não foi assim que aprendeu que seria) e depois para sua família, muitas vezes em uma experiência traumática.
A discriminação vai acompanhá-lo/a por toda sua vida, seja pela sua família, seja por “amigo/as”, seja por estranhos na rua, seja por colegas de escola/faculdade/trabalho, etc. Seus relacionamentos nunca serão tranquilos, demonstrações de afeto sempre poderão representar uma ameaça, apresentar o/a parceiro/a a família pode nunca ser possível. Não é raro perder vagas de empregos, sofrer perseguição de professores/as/chefes por razões homofóbicas e ter pessoas queridas se afastando.
No entanto a pior discriminação sempre será a violenta. O/A LGBT hoje não tem segurança para andar nas ruas. Basta que alguém ache que está muito “afetado/a” ou “pintoso/a” para desencadear um espancamento sério ou assassinato. O Brasil é oficialmente, segundo dados de ONGs LGBT, o país com maior número de assassinatos LGBTfóbicos não institucionalizados. Isto porque existem países, como o Irã, onde a homossexualidade é crime com pena de morte até os dias de hoje e nesses locais a violência homofóbica é institucional.
Como eu disse, tornou-se comum e (ao meu ver) aceito ouvir casos de assassinatos motivados puramente por ódio à orientação sexual/identidade de gênero de alguém. A mobilização contra essa tentativa de genocídio (declarado, inclusive, diversas vezes por agressores que querem eliminar essa “praga” ou “raça”) é ínfima. Em contrapartida, a incitação à violência é amplamente divulgada por sujeitos como Marcos Feliciano e Silas Malafaia que estimulam o combate aos homossexuais. Os resultados de suas campanhas já são visíveis: enquanto em 2010 eram 240 os assassinatos homofóbicos, em 2014 o número subiu para 271.
Ainda assim os dados -não oficiais, visto que não existe oficialmente esse censo-não são 100% confiáveis, visto que muitos assassinatos LGBTfobicos podem ser registrados como crimes passionais/acidentes/desaparecimentos/etc. Além disso o número de mortes de transexuais e travestis é muito mais alto e muito menos divulgado, visto que essa população é na maioria das vezes marginalizada (e me orgulho muito de minhas amigas trans que hoje vivem realidades diferentes, não podia deixar de falar, pois-embora eu não tenha propriedade- tenho consciência da dificuldade que é fugir desse destino).
A nossa luta é diária e é por sobrevivência. Porque toda vez que eu leio -note-se que pela 6ª vez essa semana- que “jovem homossexual é assassinado a facadas em metro em SP” eu recebo a exata mensagem que o assassino desejava passar: eu sou a próxima.
#criminalizeahomofobia
#criminalizeatransfobia
#resistencialgbt
#levantecontrahomofobia


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