Monthly Archives: março 2015

Essa história é nossa

Por Amanda Quaresma (Levante do Pará) e Lira Alli (Levante de São Paulo)

O que nós, jovens, temos a ver com a ditadura? Por que lembrar o dia do golpe, 51 anos depois, sendo que a ditadura já tinha acabado quando nós nascemos? Nós não temos dúvidas de que esse passado segue deixando marcar profundas e violentas que afetam diretamente nossas vidas.

Essa história é nossa porque mesmo depois da ditadura “acabar” no Brasil, a polícia nunca alterou sua forma de funcionamento e tem uma prática de tortura, desaparecimentos e assassinatos que afeta em especial a juventude negra, pobre e das periferias. (E é nossa também a história dos povos negros escravizados, outra parte “esquecida” e “mal acabada” da nossa história)

Essa história é nossa porque ainda somos reféns da grande imprensa construída pela e com a Ditadura. A Rede Globo, maior representante de tudo que há de mais antidemocrático em termos de mídia em nosso país, manipula informações e sonega impostos como se não fosse nada. E não é coincidência que o aniversário de 50 anos da Rede Globo ocorra no próximo mês. Ela e a Ditadura em nosso país funcionaram como carne e unha: atuando sempre juntas para impedir qualquer avanço democrático ou de direitos.

Essa história é nossa porque a Ditadura brasileira fortaleceu o pensamento conservador que criminaliza e assassina tudo que não é “normal” ou não se encaixa nos padrões da “moral e bons costumes”: homossexuais, mulheres solteiras, negros, doentes mentais… a resposta para a ditadura sempre foi prender e matar, e o Brasil ainda hoje sofre com índices alarmantes de violência contra mulheres e LGBTs.

Essa história é nossa porque nossa transição democrática foi inacabada. Porque nossa democracia não é lá muito democrática (é só ver o número de milionários brancos ou o número de mulheres negras no congresso), e é necessário democratizar mais as estruturas de poder em nosso país. As empresas que financiam campanhas (que são as mesmas que financiaram a ditadura) têm mais poder do que o povo na escolha do destino de nosso país e isso precisa mudar. Amanhã completa 1 ano que Gilmar Mendes sentou em cima de uma ação no STF que ia proibir o financiamento empresarial de campanhas. #DevolveGilmar!

Essa história é nossa porque o Congresso Nacional buscar apressar a aprovação da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos perpetuando a lógica de encarceramento que não resolve nada, só piora. Se queremos enfrentar a violência e a criminalidade em nosso país, devemos mudar a lógica de massacrar e penalizar a juventude negra, pobre e periférica que é quem ocupa em massa os presídios. Devemos dar alternativas de vida, educação e trabalho para a juventude e não jogá-la no presídio.

Devemos nos apropriar cada vez mais de toda a nossa história e o dia 1º de Abril é um dos dias em que pra sempre iremos lembrar do que aconteceu, para que nunca mais se repita. Enfrentando todo autoritarismo e a lógica da impunidade que permanece viva até os dias de hoje.

Fazer a memória viva: parar de homenagear ditadores em ruas, praças e escolas e homenagear as lutadoras e os lutadores do povo brasileiro. Tornar os locais que foram usados pela repressão em locais de memória que contem a história da resistência. Construir a justiça a exemplo de outros países da América Latina que puniram exemplarmente os envolvidos em violações aos direitos humanos. Que o Estado Brasileiro cumpra as recomendações da Comissão Nacional da Verdade e a Sentença da Corte Interamericana de Direitos. Que a Lei de Anistia seja revista.

Só construiremos um futuro com paz, democracia e justiça se interrompermos o ciclo de impunidade e violência que existe hoje em nosso país. Enfrentar as profundas feridas provocadas pela ditadura faz parte desse processo. Nós, filhos da democracia, não esqueceremos jamais da história de nosso povo e daquelas e daqueles que foram assassinados, torturados e violentados enquanto lutavam por liberdade e democracia. A luta deles vive em nós. Ditadura Nunca mais!

Por memória, verdade e justiça!


Nome social é aprovado na UFSM

A invisibilidade trans é recorrente em diversos espaços, problema social evidenciado através de alguns índices. No ano passado, o Brasil foi o país onde ocorreu o maior número de mortes de travestis e transexuais no mundo, segundo dados do movimento Transrevolução(2014). Foram assassinadas cerca de 134 pessoas transexuais.

Quando falamos sobre inserção no mercado de trabalho e educação, esses dados mostram a raiz dos problemas: estima-se que 90% das travestis e transexuais brasileiras se prostituem para sobreviver. Isso é um número apavorante comparado às 95 pessoas trans que no ano passado realizaram o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Esses indivíduos são diariamente colocados à margem da sociedade desde o processo de identificação, o que interfere diretamente nos seus direitos básicos como o acesso a educação e a saúde, sendo também desrespeitados em outros tantos âmbitos sociais.

Nossas escolas e universidades têm avançado lentamente nos processos do nome social. No último dia 27 foi aprovado por unanimidade na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) a utilização do nome social para estudantes, técnicos administrativos e professores. Além disso, poderá ser utilizado já para a inscrição no Sistema Integrado de Seleção Unificada (SISU). Será também opcional o nome social ou civil no diploma de conclusão de curso de graduação ou pós-graduação.

O nome social é um direito de importância coletiva e individual, pois permite à pessoa se identificar no meio social e como sujeito. Entendemos que o nome social é uma política de inclusão desses indivíduos para que possamos modificar o atual modelo de Universidade, tornando-a cada vez mais popular e inclusiva.

Entendemos que a universidade tem o papel de avançar além dos direitos mínimos dos sujeitos Trans, não somente garantindo o acesso, como também a permanência, formando profissionais que estejam preparados para atender as especificidades desses sujeitos e viabilizando espaços em que também sejam protagonistas. É papel da universidade se posicionar colocando-se juntamente na luta para combater a Transfobia. Isso tudo só é possível a partir da mudança da estrutura e do modelo que temos de Universidade, e percebendo o papel dessa na construção de políticas, e desconstrução de qualquer preconceito que venha a ferir esses sujeitos.

A luta pela institucionalização do nome social é uma das pautas do movimento LGBT

A luta pela institucionalização do nome social é uma das pautas do movimento LGBT


As empresas que financiaram a ditadura são as mesmas que controlam o atual sistema político

Nesse dia 31 de março completam-se 51 anos do golpe militar que depôs o presidente João Goulart e impôs uma ditadura de duas décadas ao povo brasileiro. Durante o período de 1964 a 1985 foram diversos crimes e atrocidades cometidos por agentes do Estado contra aqueles e aquelas que levantaram a bandeira da resistência.

O relatório da Comissão Nacional da Verdade, divulgado em dezembro de 2014, foi importante passo para a reconstituição da memória e da verdade. Nele estão listados mais de 400 nomes entre mortos e desaparecidos na ditadura, dentre os quais, 208 pessoas não tiveram seus corpos localizados. A violação de direitos humanos se estendeu através das prisões arbitrárias, torturas e ocultações de cadáveres promovidas sistematicamente enquanto políticas de Estado.

Para dar suporte e legitimação ao regime foram criadas leis repressivas e órgãos de informação com o objetivo de vigiar, capturar e eliminar quem fosse considerado inimigo. Entre 1964 e 1969, a ditadura baixou decretos conhecidos como Atos Institucionais, para suspender direitos políticos, estabelecer eleições indiretas para presidentes, dissolver os partidos existentes e impedir a liberdade de expressão.

Mesmo após a imensa mobilização social, iniciada pelas greves operárias do ABC paulista nos anos 80 e que culminaram na campanha pelas Diretas Já, muitas estruturas da ditadura se mantiveram ativas e impediram que houvesse a justiça em relação às violações dos direitos humanos. Uma norma jurídica que possui grande responsabilidade pela blindagem dos agentes militares é a Lei da Anistia, assinada em 1979, em uma correlação de forças favorável aos ditadores e torturadores.

Naquele ano ainda se vivia o período mais duro da ditadura, com milhares de presos políticos. Por isso, a sociedade desejava a anistia. Porém os ditadores aproveitaram a oportunidade para se “autoanistiarem”. Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos considerou a Lei de Anistia contrária às normas jurídicas internacionais, pois os crimes contra a humanidade não podem ser anistiados e recomendou ao Brasil a revisão dessa Lei. Mesmo assim, o parecer do Supremo Tribunal Federal manteve interpretação atual, que livra a pele dos torturadores.

Conforme demonstraram as investigações da Comissão Nacional da Verdade, o regime militar utilizava métodos específicos de violência, degradantes e desumanos, para diferentes segmentos da população. Conforme se apurou em depoimentos, a violência sexual e de gênero era utilizado como instrumento de poder.

O relatório por fim apresenta 29 recomendações ao Estado brasileiro que dizem respeitos ao reconhecimento dos crimes, à necessidade da continuidade das investigações e a mudanças jurídicas permitam a responsabilização dos agentes envolvidos. Sem a realização da justiça, com a punição dos responsáveis pelos crimes, não é possível impedir que as violações de direitos humanos sigam acontecendo atualmente. Não será possível desmilitarização das Polícias Militares, que foram criadas durante a ditadura militar, nem o combate do extermínio da juventude preta e pobre das periferias.

O envolvimento das empresas com a ditadura

Durante a ditadura, a repressão política não foi realizada por apenas um órgão. O que ocorria era a articulação do Exécito, Marinha e Aeronáutica, além das Polícias Civil e Militar e frequentemente o apoio de agentes da sociedade civil. O principal órgão de repressão criado pela ditadura era o DOI-CODI, comandado pelo torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. O DOI-CODI foi montado a partir da Operação Bandeirante (OBAN), entidade de combate à subversão que contou com o apoio logístico e financeiro de diversos empresários. Como divulga o relatório da Comissão Nacional da Verdade, entre os doadores privados estão o Grupo Ultra, a Ford, a GM, o grupo Camargo Corrêa, a Folha de São Paulo, Amador Aguiar (Bradesco).

Quando comparamos essa lista com os principais financiadores de campanha eleitorais, encontramos as mesmas empresas, ou aquelas que foram favorecidas pelo modelo de desenvolvimento concentrador e protecionista da ditadura militar. Vejamos, na lista dos maiores financiadores de campanha: entre 2002 e 2012, a Camargo Corrêa “investiu” mais de 170 milhões de reais nos seus candidatos. Nas eleições de 2014 a construtora Andrade Gutierrez (33 milhões de reais) e o banco Bradesco (mais de 30 milhões de reais) estão entre os dez maiores financiadores de campanha.

O banqueiro Gastão Vidigal, dono do Banco Mercantil, os empresários Israel Klabin, presidente da Klabin, José Ermírio de Moraes, da indústria de cimento Votorantim, Henri Burke, da Gerdau são outros exemplos de agentes civis que arrecadam recursos para a ditadura, ligados a grupos econômicos que interferem na nossa democracia.

As empresas que pagaram a tortura são as mesmas que controlam atualmente o nosso sistema político. Favoreceram-se do modelo de desenvolvimento concentrador e protecionista da década de 70 e hoje são as maiores beneficiárias dos contratos públicos e esquemas de corrupção. Em função do grande desiquilíbrio causado pelo financiamento privado de campanha, nunca existiu tão pouco povo dentro do Congresso Nacional.

Nesse momento de polarização da sociedade, em que a direita vai para as ruas pedindo intervenção militar, é nossa principal tarefa construir unidade contra os golpistas e denunciar a podridão do sistema político herdado da ditadura. Sua reforma profunda dependerá da força do povo organizado para exigir uma Constituinte Exclusiva e Soberana.


Enfrentar a direita e construir a Constiuinte

Papo Reto

Temos dito que estamos vivendo uma ofensiva conservadora. Nossos inimigos estão vindo com tudo pra cima de nós, por meio de suas velhas armas, como  a grande mídia e a ampla maioria no sistema político e, agora, também ocupando o nosso espaço de luta, as ruas. Com milhões de brasileiros nas ruas, majoritariamente da classe média  e eleitores de Áecio Neves, trouxeram a pauta do ‘Fora Dilma’ e suas faixas e cartazes apontaram como fazer Impechamnt da presidente ou Golpe Militar. Não tiveram sucesso, mas a força social da direita nas ruas é exitosa pelo fato de conseguir fortalecer a agenda conservadora no Congresso Nacional.

A Câmara dos Deputados vota a PEC 171/93, que propõe a Redução da Maioridade Penal de 18 anos para 16 anos, em sessão extradionária com pauta única. Essa é uma resposta conservadora, pois é uma medida ineficaz para o problema da  violência. As pesquisas demonstram que os 54 países que reduziram a maioridade penal não  registraram redução da violência.  Na real, é uma forma de aprofundar a criminalização da pobreza, pois sabemos para quem serve o sistema prisional no Brasil. Vão punir o jovem branco de classe média que trafica na sua escola particular ou o menino de 17 anos que abusa sexualmente das mulheres nas festas da faculdade? Vai servir é para prender os pobres, negros, a juventude da periferia. Já vivenciamos isso, quando um grupo de jovens está andando em grupo na quebrada e a polícia chega batendo, mandando pro paredão, apontando arma,  ou mesmo matando e contribuindo para um problema que a maioria dos políticos não toca: o extermínio da juventude negra.

Enfrentaremos a direita, debatendo com o povo quais as causas e os responsáveis pelo aumento da  violência e o porque da pressa do Congreso Nacional em aprovar essa pauta, ao invés das pautas que realmente combatam a violência urbana, e que historicamente levantamos e não são ouvidas pelo sistema político, como mais investimento para educação pública,  lazer, cultura e politicas públicas que criem oportunidades para a juventude. Isto é, as pautas que interessam ao povo rumo a construção do nosso projeto de sociedade, o Projeto Popular para o Brasil, não são votadas com urgência. É hora de fortalecermos ainda mais o trabalho de base e por meio das nossas ações, lutas, atos, agitações e propaganda que vamos fazer a disputa das ideias e mostrar como age a direita no atual sistema político. Denunciar a falta de resposta e de projeto político capaz de resolver os reais problemas da juventude e do povo.

Essa semana faz 51 anos do Golpe Militar. Na mesma semana em que o Congresso mais conservador desde 1964, vota a Redução da Maioridade Penal, em uma conjuntura em que alguns setores vão para a rua defender a intervenção militar. A nós cabe continuar debatendo com a juventude sobre os responsáveis pelo Golpe e seu regime,  que não permitiu as ‘As Reformas de Base’, que matou, torturou e interrompeu um processo democrático, nos deixando como legado as atuais instituições corruptas, a Polícia Militar e os atuais políticos que hoje defendem as ideias conservadoras, nas ruas e no parlamento, que resistem a mudança do sistema político por meio de um processo participativo. Continuaremos fazendo juz ao nosso lema ‘Ousar lutar, organizando a juventude do Projeto Popular’, nos locais de atuação em que estamos, para construir a força real e enfrentar o cerco conservador com a proposta de uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema político. A hora é de avançar, Constiuinte Já.

11063280_724788534308596_48754791_n


Todas e todos rumo ao 54º Congresso da UNE! Nenhum passo atrás, em frente, venceremos!

 Durante os dias 20, 21 e 22 de março, na Universidade Nove de Julho (São Paulo/SP), ocorreu o 63º CONEG da UNE. Foram apresentadas três propostas de convocatórias para o CONUNE, nas quais incluía-se a análise de conjuntura. Segue o texto defendido pelo Campo Popular.

Campo Popular da Une

Campo Popular da Une

 1. O ano de 2015 começou com grandes desafios para o conjunto da classe trabalhadora em todo o mundo. A crise estrutural do capitalismo que eclodiu no ano de 2008 na economia dos países centrais, atinge agora um novo patamar. São os países da periferia do capitalismo que sofrem com o impacto da recessão, do desemprego e da perda de recursos humanos e naturais.

2. Enquanto nos Estados Unidos a economia demonstra sinais de recuperação, a periferia emergente e a Europa não conseguem retomar o crescimento. Todavia, isso ocorre num cenário de declínio da hegemonia política dos Estados Unidos, que segue sendo a principal potência do capitalismo imperialista, e que busca compensar sua perda de influência política com a ampliação de seu poderio militar e controle de economias e mercados internacionais.

3. Exemplo desse momento é a valorização da moeda americana perante as demais moedas e a diminuição do preço do barril do petróleo, tática que visa enfraquecer economias como a Rússia e a Venezuela numa nítida tentativa de impedir a continuidade de um projeto alternativo ao da hegemonia norte americana. Outro exemplo é o novo álibi que se tornou a “ameaça do Estado Islâmico” eleito pelo governo dos EUA como os novos maiores inimigos da humanidade, numa tentativa de promover guerras em um novo formato, que não necessitam necessariamente de enfrentamento militar, atuando sobretudo na desestabilização política e econômica de regiões, países e governos que são do interesse do imperialismo fragilizar ou derrubar, especialmente, no Oriente Médio. São as chamadas Guerras Psicológicas de Espectro Total (GPET).

4. Na Europa as ondas de mobilizações e greves que marcaram o último período desde a primavera árabe, revelam que há espaço para muita disputa. A luta pela garantia dos empregos, dos salários, da democracia e das liberdades de informação, comunicação e justiça são sinais de que a esquerda pode polarizar seu programa com os setores conservadores, como mais recentemente foi demonstrado com o Siryza, no caso da Grécia e o Podemos na Espanha.

5. O Brasil para enfrentar a crise adotou a receita de ampliação do mercado consumidor interno com a expansão do crédito, a valorização do salário mínimo, o fortalecimento dos bancos públicos e o investimento em infraestrutura. Este modelo permitiu ao país enfrentar a crise e manter taxas de crescimento que, ao contrário do que ocorria com o resto do mundo, não eram negativas.

6. Contribuiu para esta situação o processo de integração dos países da região latino-americana que, desde a primeira eleição de Chávez na Venezuela e Lula no Brasil, impulsionaram a ascensão de governos de esquerda e centro-esquerda em diversos países da região. Tal fator possibilitou a alteração do paradigma de integração sul-americana de um modelo subordinado para um modelo autônomo e antissistêmico, que vem desafiando a hegemonia norte americana na região.

7. Todavia este ciclo vem se fechando desde a eleição de Barack Obama e a mudança na política externa americana. Desde 2008, foram repetidas tentativas de desestabilização e de golpes orquestrados contra governos democraticamente eleitos em toda a américa latina, a exemplo dos ocorrido em Honduras, no Paraguai e as tentativas no Equador e na Venezuela. É a tentativa de restauração neoliberal!

8. Outro elemento deste processo de desestabilização orquestrado pelo imperialismo é sua associação à organização do capital financeiro internacional, à burguesia interna e aos setores mais atrasados e conservadores dessas sociedades. Nesse sentido, é notória a ofensiva dos interesses imperialistas e do capital financeiro internacional sobre a América Latina, que vem sendo varrida por uma onda conservadora que se expressa tanto na disputa eleitoral quanto pela disputa das ruas através de mobilizações de massa.

9. No Brasil, este quadro tomou nitidez a partir dos atos de junho de 2013. A juventude que foi alvo das políticas sociais e ascendeu ao consumo neste último período, começou a esbarrar nos limites do projeto em que foi inserida. Foi às ruas e a direita buscou disputar as demandas reivindicadas e colocadas por estes setores emergentes. O processo de disputa desse segmento e o acirramento das críticas ao governo por parte desta mesma direita foram intensificados no período eleitoral de 2014 e culminaram com a organização de atos e movimentações em torno do impeachment.

10. Há quatro movimentos que mesmo distintos são estratégias evidentemente combinadas, uma delas a deslegitimação da Dilma como mulher em cargo de poder e decisão; outra é sangrar o governo a fim de ganhar forças para as eleições 2016 e 2018; outra trata-se de implantar a agenda derrotada nas eleições e a retomada do projeto neoliberal; e soma-se a estas o golpismo tanto institucional quanto aquele orquestrado nas ruas.

11. Justamente por essa razão o momento para o conjunto das esquerdas é de organização para a ofensiva. A Dilma não foi reeleita apenas para derrotar o Aécio, mas sim para realizar um segundo governo superior ao primeiro, capaz de realizar as reformas estruturais, que teria início com o cumprimento das propostas feitas ao longo do segundo turno.

12. Começar o segundo governo indicando Joaquim Levy para o ministério da fazenda foi uma demonstração de que a estratégia adotada seria a de manter a conciliação com os setores que buscaram, por todos os meios, derrotar política e eleitoralmente a esquerda. A estratégia de conciliação com setores da burguesia está claramente esgotada. Insistir nesta estratégia é um erro que põe em xeque os avanços apontados para este segundo governo.

13. Este movimento afasta diversos setores que durante as eleições foram determinantes para garantir a vitória e que somaram forças para impedir o avanço do neoliberalismo. Esta postura de implementar parte do programa derrotado nas urnas causa uma confusão na base social responsável por eleger e sustentar o governo, de maneira que, com o acirramento da luta de classes em todos os espaços, apenas coloca na defensiva os setores da esquerda.

14. É preciso portanto que o conjunto da classe trabalhadora aponte a estratégia de superação deste projeto. A nova estratégia que precisa ser adotada deve ter como elementos centrais a realização de reformas estruturais de cunho democrático e popular. É nesse sentido que precisam ser rechaçadas todas as tentativas de ajuste apresentadas pelo ministro Levy que impactam nos direitos dos trabalhadores, assim como as MPS 664 e 665. Nossa saída para a crise não pode ser a política de austeridade.

15. As/os estudantes também foram atingidas/os com o corte de 7 Bilhões para a educação.  Este corte tem prejudicado centenas de instituições públicas, onde estudantes retomaram as aulas sem garantia dos restaurantes universitários, atrasos no pagamento de bolsas e redução de recursos em diversos programas, principalmente nos de assistência estudantil. Nas instituições pagas, também atingidas pelo corte no que tange as políticas estatais de ampliação do ensino superior, as/os estudantes encaram dificuldades na renovação do FIES, mediante a mudança no regulamento.

16. Se alguém precisa pagar a conta do ajuste são os ricos. O que significa que o caminho não é o dos ajustes mas sim o de uma Reforma Tributária, que taxe as grandes fortunas, as heranças e que façam os ricos pagarem impostos bem como uma nova política econômica.

17. Travestido por um discurso anti-corrupção, a direita internacional e interna, tem atacado um dos principais patrimônios públicos brasileiros, a Petrobrás, cujo objetivo é fragilizar a estatal e abrir suas portas para o mercado transnacional. O lema o “Petróleo é Nosso!” protagonizado pela UNE na década de 50 que culminou na criação da Petrobras, tornou-se atual e vem sendo resgatado pelos movimentos sociais a fim de defender a Petrobras, a lei de conteúdo nacional e garantir que os recursos provindos do pré-sal sejam destinados à educação e à saúde.

18. Os escândalos que envolvem a Petrobrás trazem mais uma vez a tona a necessidade e a urgência de uma Reforma Política. Não é possível combater a corrupção e ampliar a democracia no país, sem uma reforma profunda no atual Sistema Político. É essencial, para isto, tomarmos as ruas agitando a bandeira da Constituinte Exclusiva e Soberana para a Reforma do Sistema Político.

19. Um dos pontos centrais da Reforma Política é a luta pelo fim do financiamento empresarial da campanha eleitoral. Acreditamos que os principais pontos em torno dos quais é necessária a unidade é o fim do financiamento empresarial e doações com limite de pessoas físicas, a paridade de gênero, a ampliação dos mecanismos de democracia direta (plebiscito, referendo e iniciativa popular) e o voto em dois turnos nas eleições proporcionais (primeiro se vota no partido e em seguida no condidata/o).

20. Sabemos que essas mudanças jamais serão realizadas pelo atual Congresso Nacional ou qualquer outro que venha a ser eleito com as atuais regras. Por isso defendemos a convocação de uma Constituinte exclusiva e soberana para realizar a reforma do sistema político. O plebiscito popular realizado na semana da pátria em 2014 reuniu mais de oito milhões de votos e busca agora a convocação de um plebiscito oficial.

21. Temos absoluta certeza de que o caminho para a Reforma Política passa pela Constituinte, mas sabemos também que precisamos estar mobilizados no enfrentamento da PEC da contra-reforma política que tramita no Congresso Nacional, protocolada por Eduardo Cunha, e nas iniciativas do #DevolveGilmar, movimento que exige que o Ministro do STF retire as vistas colocadas a mais de um ano sobre a ADIN 4650 de iniciativa da OAB que propõe o fim do financiamento empresarial de campanhas eleitorais.

22. A Reforma Política perpassa também pela Democratização dos Meios de Comunicação. No ano em que a rede Globo completa 50 anos de existência e monopólio, a luta em torno do Projeto de Lei da Mídia Democrática precisa estar presente em todas as mobilizações de luta por mais direitos.

23. A Reforma Política passa também por Desmilitarizar nossa polícia. Hoje as negras e negros, principalmente, sofrem com uma polícia fascista, racista e genocida, que segue utilizando estratégias e métodos de tortura do período da Ditadura Cívico Militar. É papel da UNE mostrar a relação entre estas estruturas opressoras vigentes e a organizar as e os estudantes, para mudar a sociedade brasileira.

24. E é convocando e conclamando todas e todos a estarem unidos sob uma bandeira, a bandeira da União Nacional dos Estudantes que voltaremos às ruas de todo o Brasil realizando plenárias nos estados no dia 1° e atos de rua no dia 7 de Abril para defender os direitos, a Petrobras, a democracia e principalmente a reforma política através de uma constituinte exclusiva e soberana do sistema político.

25. E é com este mesmo espírito que reivindicamos a realização do 54º Congresso da UNE na cidade de Brasília-DF. Nas atuais condições de temperatura e pressão em que se encontra a luta de classes no país, não há outro lugar para reunirmos mais de dez mil estudantes que não seja a Capital Federal.

26. Precisamos dar uma resposta contundente em defesa da Educação Pública e da Reforma Política. Ao longo da história da UNE muitas e muitos morreram para que estivéssemos aqui. Não nos furtaremos de dar também nosso sangue pela nossa liberdade.

27. Todas e todos rumo ao 54º Congresso da UNE! Nenhum passo atrás, em frente, venceremos!


Páginas:1234