Monthly Archives: setembro 2016

Oficinas se destacam na programação do 3° Acampamento Nacional do Levante

Cerca de 90 atividades culturais e políticas propõe envolver e integrar participantes de diversos estados do país

A maioria das oficinas inscritas são produtos do que a militância já faz em seu cotidiano / Divulgação / Coletivo de Comunicação do Levante

A maioria das oficinas inscritas são produtos do que a militância já faz em seu cotidiano / Divulgação / Coletivo de Comunicação do Levante

Como um dos primeiros espaços nacionais de aglutinação política após o golpe de 2016, é que o 3° Acampamento do Levante Popular da Juventude se destaca. O evento mobiliza jovens de todo o Brasil por meio da cultura, música, agitação, dança, teatro e debates políticos. Com cerca de 7 mil pessoas, o “Acampa” acontece nos espaços internos e externos do estádio do Mineirinho, em Belo Horizonte (MG).

A proposta do encontro, além de articular a luta da juventude brasileira, é permitir uma troca de experiência entre todos os participantes. As oficinas são um dos momentos que possibilitam uma maior integração.

De um total de 90 oficinas, com cerca de 100 oficineiros e oficineiras, jovens puderam participar de espaços em 5 eixos temáticos de referência, envolvendo música, dança, teatro e atividades físicas.

Aline Maria, militante do Levante de Santa Maria (RS), inscreveu sua oficina de jogo e improvisação, que consiste em utilizar técnicas teatrais para improvisar situações de opressão. Segundo ela, sua motivação foi poder compartilhar experiências aprendidas no curso de teatro, especificamente na área que mais lhe interessa que é o teatro e comunidade.

“Eu acredito que todo militante deveria ter, no mínimo, uma formação para ir às ruas e fazer uma intervenção, ou algo de Agitação e Propaganda. Precisamos ter uma base nessa profissionalização que a gente tanto procura”, diz.

A maioria das oficinas inscritas são produtos do que a militância já faz em seu cotidiano. Ayde Souza (19), militante do Levante de São Luiz (MA) e oficineiro de Cacuriá – ritmo popular do Maranhão, fala que espaços como o Acampamento devem ter muito cultura e troca de experiências.

“A cultura é educação, é o que todo mundo deve conhecer, se a gente não se apossar do que está acontecendo no Brasil inteiro, não temos como mostrar isso para o mundo” afirma Ayde.

Acampamento

Iniciado na segunda-feira (5), o 3° Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude é o maior espaço de organização do movimento. O evento, que segue até sexta (9), se propõe a definir e indicar os rumos e desafios da juventude na conjuntura após o golpe.

Com uma programação que, além das oficinas, abrange debates, palestras, mesas redondas, shows e apresentações culturais, o Acampamento conta com a presença de figuras e personalidades como a atriz Letícia Sabatella, o ex-presidente Lula, o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Stédile, Laura Caprillione dos Jornalistas Livres, e o estadunidense Eddie Conway, do Panteras Negras.


Em ato do Levante da Juventude, forças políticas reafirmam luta pela democracia

A atividade foi realizada na noite de terça (6) e fez parte da programação do 3º Acampamento Nacional do movimento, que ocorre em BH desde a segunda (5) / Lidyane Ponciano / CUT Minas

A atividade foi realizada na noite de terça (6) e fez parte da programação do 3º Acampamento Nacional do movimento, que ocorre em BH desde a segunda (5) / Lidyane Ponciano / CUT Minas

Não eram apenas 40 ou 50, mas cerca de 7 mil pessoas, entre jovens do Levante Popular da Juventude e outras forças políticas, que participaram de um ato pela construção do projeto popular para a juventude brasileira. A atividade foi realizada na noite de terça (6) e fez parte da programação do 3º Acampamento Nacional do movimento, que ocorre em BH desde a segunda (5).

Entre os convidados, figuras como a presidenta da Central Única dos Trabalhadores de Minas (CUT), Beatriz Cerqueira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a dirigente do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) Soniamara Maranho e a dirigente do Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) Eliane Martins.

Todas as intervenções abordaram o contexto de golpe no Brasil e reafirmaram o compromisso com a defesa da democracia e dos direitos das trabalhadoras e trabalhadores. “Neste momento, a juventude é convocada a se organizar e levantar com a força da classe trabalhadora. Nenhum jovem a menos! De pé, à frente, juntos pela unidade e pelo ‘Fora Temer’”, disse Eliane.

Nicinha vive!

A plenária principal do evento foi nomeada pelos militantes do Levante de “Nicinha”, em memória da militante do MAB que foi assassinada no lago da barragem da Usina Hidrelétrica Jirau, em Porto Velho (RO). Emocionada, Sonimara agradeceu a homenagem e destacou a importância da juventude na transformação do país. “Não existe projeto popular, mudança de estrutura, sem a participação da juventude”, afirmou.

Política

Em sua fala, Lula defendeu os avanços dos últimos treze anos e afirmou que o PT “mostrou que outro Brasil é possível”. Ele citou políticas sociais, que melhoram as condições de vida dos trabalhadores, e a expansão do acesso à universidade.

O ex-presidente disse ainda que não há como negar a política, pois isso fortalece a direita e o discurso de ódio. “Eu precisava vir conhecer o acampamento do Levante e ver essa juventude rebelde que gosta de política. A desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta”, ressaltou.

Para Beatriz Cerqueira, a política, mais do que nunca, exige ocupar as ruas para denunciar o golpe. “Temos que gritar ‘fora’ a muita gente que, diariamente, dá golpes na classe trabalhadora”, disse. “É hora de mais escrachos, é hora de denunciar os meios de comunicação, é hora de denunciar este governo corrupto e que não nos representa, é hora de dizer esse golpe é contra nós mulheres. Mais, escrachos, mais desobediência civil, mais movimento, mais rua”, completou.


Saúde popular é oferecida a participantes do 3° Acampamento Nacional do Levante

Métodos de cuidado e prevenção são construídos por vias alternativas aos modelos usuais de medicalização

A Tenda Zefa da Guia é um espaço de amparo, cuidado e acolhimento que propicia o bem estar dos participantes / Fotos: Gerardo Gamarra / Alba

A Tenda Zefa da Guia é um espaço de amparo, cuidado e acolhimento que propicia o bem estar dos participantes / Fotos: Gerardo Gamarra / Alba

Como cuidar de 7 mil jovens acampados num estádio durante 5 dias? Esse é o desafio do coletivo de saúde do Levante Popular da Juventude no 3° Acampamento Nacional do movimento, que ocorre desde segunda (5), na capital mineira. Para garantir o máximo de cuidado com os participantes, o coletivo se mantém ativo durante quase 24 horas por dia.

Em um espaço físico denominado Tenda Zefa da Guia – nome dado em homenagem à parteira e agricultora Dona Josefa da Guia, que resistiu a desapropriação de terras quilombolas em Sergipe – diversas pessoas se somam à equipe de saúde, principalmente estudantes de medicina, enfermagem, fisioterapia e psicologia. Integrantes de outros movimentos sociais, como as mulheres cuidadoras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), também contribuem com o trabalho.

A estudante de enfermagem e militante do Levante no Rio Grande do Norte Kell Medeiros explica que o movimento se propõe a construir um Projeto Popular para Saúde, com a perspectiva de buscar o que foi, historicamente, negado à saúde do povo brasileiro. Nesse sentido, o coletivo de saúde pratica os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), desde a universalização da saúde até um tratamento que fuja de um modelo hospitalizado. “Pra gente saúde não é ausência de doença, mas bem estar total do indivíduo”, afirma.

A Tenda Zefa da Guia é um espaço de amparo, cuidado e acolhimento que propicia o bem estar dos participantes. Lá é possível fazer massagens, tomar remédios naturais e fitoterápicos, fazer um sessão de acupuntura, descansar em uma cama e até conversar com psicólogos.

Kell explica que tratar da saúde é também cuidar do ambiente. Por isso, as outras equipes visitam constantemente os arredores do acampamento para verificar a higienização dos locais, o acesso a água potável e alimentação de qualidade.

“Trabalhar com a saúde no Levante não é algo novo, mas garantir um espaço amplo como este do ‘3° Acampa’, com uma organização grande com um alinhamento ao projeto político, é a primeira vez. É a juventude se colocando para cuidar da juventude”, aponta.

Acampamento nacional

Desde a segunda (5), o 3° Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude acontece no estádio do Mineirinho, em Belo Horizonte (MG). Com equipes de saúde, segurança, alimentação, comunicação, alimentação, entre outras, o evento é organizado pelo próprio movimento. O encontro, que conta com programação até sexta (9), se propõe a discutir os rumos da luta política da juventude brasileira por meio de oficinas, debates, palestras, shows e apresentações artísticas.


Acampamento de jovens reúne 7 mil e pede uma nova Constituinte

Levante Popular da Juventude lotou Mineirinho por cinco dias para debater questões políticas

Realizado em um momento complicado do país, o acampamento aproveita a potência de indignação dos jovens / Gerardo Gamarra / Alba

Realizado em um momento complicado do país, o acampamento aproveita a potência de indignação dos jovens / Gerardo Gamarra / Alba

 As cores, a arte e as ideias de 7 mil jovens estiveram presentes no 3º Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude, em Belo Horizonte, realizado de 5 a 9 de setembro no Mineirinho. O acampamento foi marcado por debates políticos e inúmeras atividades culturais. Passaram por lá personalidades como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o pantera negra Eddie Conway, e a atriz Letícia Sabatella. Também estiveram presentes muitas lideranças de movimentos populares e sindicais, jornalistas, apoiadores. O criador do Wikileaks, Julian Assange, participou através de videoconferência. Para garantir sua realização, o evento contou com o apoio da Secretaria de Governo do Estado de Minas Gerais.

Crescimento

O acampamento mostrou o crescimento e a diversificação do Levante. Em 2011, quando aconteceu o primeiro encontro nacional, compareceram mil pessoas. Cinco anos depois, são 7 mil. No primeiro acampamento, a proporção era de 80% de universitários para 20% de jovens de periferia. Hoje é de 52% de universitários para 48% de jovens de periferia. E 58% dos jovens se declararam LGBT em sua inscrição.

“Desde o primeiro acampamento, o movimento discute como ser cada vez mais parecido com a sociedade. E o Brasil é composto em sua maioria por jovens de periferia, por negros, jovens trabalhadoras e trabalhadores”, declara um dos coordenadores nacionais do Levante, Thiago Ferreira, do Pará.

Daqui pra frente

Realizado em um momento complicado do país, o acampamento aproveita a potência de indignação dos jovens. O “Fora, Temer” foi o grito que mais se ouviu, mas parece não bastar. “Conseguimos tirar o Temer. E depois disso, o que vamos fazer?”, questiona Nataly Santiago, do Rio Grande do Norte, da coordenação nacional do movimento.

Para responder à demanda, o Levante sai do encontro disposto a participar fortemente dos protestos pela retirada de Temer e, ao mesmo tempo, defender a realização de uma assembleia Constituinte para o Brasil.


“Para mim, o centro de tudo é a questão da justiça social”

Ermínia Maricato é uma arquiteta com longa trajetória de reflexão teórica e enfrentamento dos problemas urbanos / Divulgação / Coletivo de Comunicação do Levante

Ermínia Maricato é uma arquiteta com longa trajetória de reflexão teórica e enfrentamento dos problemas urbanos / Divulgação / Coletivo de Comunicação do Levante

Ermínia Maricato esteve presente no 3° Acampamento do Levante e falou sobre direito à cidade e novo ciclo da esquerda

Ermínia Maricato é uma arquiteta com longa trajetória de reflexão teórica e enfrentamento dos problemas urbanos. Atualmente, é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), mas já foi coordenadora do programa de pós-graduação da mesma faculdade (1998-2002), secretária de habitação de São Paulo (1989-1992) e secretária-executiva do Ministério das Cidades (2003-2005).

Presente no 3° Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude – que aconteceu entre os dias 5 e 9 de setembro, em Belo Horizonte (MG) – ela conversou com o Brasil de Fato MG sobre acesso a moradia e reforma urbana, seu objeto de estudo e área de atuação há quatro décadas.

Brasil de Fato MG: Você tem dito, em diversas oportunidades, que as cidades brasileiras se tornaram inviáveis. O que isso quer dizer?

Ermínia Maricato: Inviável porque não se pode ter paz numa cidade onde existe tanta injustiça. Temos uma legislação avançada, como a lei da mobilidade urbana, que aponta que a prioridade é o pedestre e a bicicleta não motorizada, depois vem o transporte coletivo, depois o transporte de carga e depois o automóvel. No entanto, em cidades de porte médio é impressionante o que se gasta para o automóvel circular. É insano e irracional imaginar que vamos resolver os problemas das cidades colocando automóveis no centro da matriz da mobilidade, matando no trânsito 42 mil pessoas por ano. Esse é um dado de 2013 da USP. É muito impacto, até na saúde mental das pessoas, por conta de todo o tempo perdido no trânsito, que tem a ver com depressão, ansiedade e comportamento impulsivo.

Quando o Brasil começou a discutir reforma urbana?

O movimento da reforma urbana, como todas as grandes propostas para o país, nasce antes de 1964. Mas essa pauta não chegou a ser um projeto da população e não ficou tão importante como a reforma agrária. Na luta contra a ditadura foi retomado o movimento de reforma urbana. Participaram moradores da periferia, movimentos sociais, de luta por creches, além de professores, pensadores… isso enquanto os partidos estavam proibidos e os sindicatos caçados.

Já visualizando hoje, eu comparo ao Levante, esse novo movimento que consegue agregar e pautar não só a cidade, mas sim o campo, a moradia, o direito a educação…

O programa “Minha Casa Minha Vida” foi um avanço?

Eu sou muito crítica ao programa, não só eu, raros arquitetos com experiência acadêmica ou no setor público vão concordar com ele, porque os agentes de mercado [empreiteiras, por exemplo] foram muito fortes. A habitação não é apenas casa, as pessoas precisam da cidade. Precisamos colocar o pobre para ocupar a cidade e não o jogar em guetos. Isso é um erro, tirar o pobre para fora da cidade, como se a periferia fosse um depósito de gente.

Qual a importância do 3° Acampamento do Levante?

Muita gente da minha geração ficou muito triste com os últimos acontecimentos, com o golpe, com a perda de direitos conquistados a duras penas. Eu divulguei pela rede social o release do Levante e é muito interessante ver o impacto que isso gerou nas pessoas que conheço, que estavam desesperançadas. Eu costumo dizer que nós terminamos um ciclo com a votação do golpe, mas nós já tínhamos começado outro, com o Levante. Acompanhei os escrachos, que era uma super novidade, e desde então ficou claro para mim que na sociedade brasileira havia novos sujeitos, novos personagens na cena política. E o melhor de tudo é que são jovens, mas, além de jovens, são incrivelmente criativos, inventivos, dão muita lição à esquerda da minha geração.


Páginas:123