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Por que a ocupação da Palestina por Israel interessa à juventude brasileira?

Por Leonardo Nogueira, militante do Levante Popular da Juventude

(via Brasil de Fato)

2017 é um ano simbólico para o povo da Palestina. São 50 anos de ocupação e colonização de Israel nas terras palestinas. De 1967 aos dias de hoje, Israel não reconhece a legitimidade do Estado Palestino e promove uma verdadeira política de segregação entre árabes e judeus. Um conflito histórico e muito complexo. A região da Palestina já foi alvo de inúmeras guerras e disputas entre grandes impérios. Na primeira metade do século XX, atendendo aos anseios do sionismo – movimento judaico que reivindicava a criação de um Estado judeu – a Inglaterra se responsabilizou pela “doação de terras” sob o seu domínio no território Palestino. Em 1948, o Estado de Israel foi criado e atraiu judeus de todo o mundo em busca da chamada “terra prometida”. Desde então, os conflitos pela demarcação das fronteiras seguem até os dias atuais, pois Israel avança sobre as terras que fazem parte do território palestino e promove, com isso, um verdadeiro processo de colonização.

Muro Irsaelense em Belém/Palestina.

É, no mínimo, intrigante que Israel, apesar de ser um Estado tão recente, tenha construído (ou consolidado) um enorme aparato militar voltado em larga medida ao cerceamento do povo palestino no seu próprio território. Israel tornou-se uma referência em assuntos militares ao ponto de prestar assessoria a setores da segurança pública e a comercializar armas a outros países, como é o caso do Brasil. Mas, diante desse quadro, acredito que um elemento em particular motiva-nos, jovens brasileiros/as, a refletir e solidarizar com o povo palestino: a violência desferida pelo Estado israelense contra a juventude em território palestino, assumindo formas tão semelhantes à violência cometida a esse segmento no Brasil.

Estima-se que 400 crianças foram assassinadas durante os ataques de Israel em 2014 na Faixa de Gaza, após 21 dias de bombardeios ininterruptos. Organizações dos direitos humanos têm denunciado que a expectativa de vida em Gaza é de apenas 17 anos, sendo que 54% da população dessa região têm menos de 18 anos. São mais de 300 jovens palestinos com menos de 18 anos presos em Israel. A população palestina que vive na Cisjordânia tem sua mobilidade restringida. Em cidades como Hebron, não se pode sequer circular por toda a cidade que passou a ser ocupada por forças israelenses. Pequenas bases militares também foram instaladas nas áreas de entrada e saída dos municípios da Cisjordânia, controlando a circulação dos palestinos em suas próprias terras.

O mesmo Estado que pratica uma política violenta de segregação no território palestino atuou, nos últimos anos, formando militares no Rio de Janeiro e forneceu os chamados “caveirões” disponibilizados ao Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar carioca. A polícia militar no Rio de Janeiro (e em todo o Brasil) vem sendo fortemente denunciada pelo seu caráter violento, especialmente com jovens negros das periferias de nosso país. Os dados do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) “assassinatos de jovens” do Senado afirma que das mais de 50 mil pessoas assassinadas anualmente, quase metade das mortes são de jovens, majoritariamente negros. De acordo com este mesmo relatório, dos homicídios cometidos por policiais no Rio de Janeiro durante confrontos, 99% dos casos são arquivados sem investigação, e em 21% dos casos as vítimas tinham menos de 15 anos.

A violência cometida por Israel na Palestina e a violência cometida pelo Estado brasileiro contra a população pobre possuem um aspecto em comum: impactam diretamente a vida juventude. A luta pela desocupação israelense do território palestino também é uma luta do povo brasileiro e da juventude que se solidariza com as incontáveis formas de violação dos direitos humanos na Palestina. É preciso construir um projeto de vida pra juventude no Brasil e na Palestina. Daí a importância fundamental da criação do Estado Palestino. A juventude quer viver para construir uma Palestina livre e um Brasil sem violência!

 


Um Plano Popular para enfrentar a crise  

O golpe no Brasil não tratou apenas da mudança na condução política do país, com a substituição orquestrada de Dilma por Temer. Trata-se de um profundo processo de reorganização político-econômica, com o objetivo de ampliar os lucros dos capitalistas, a partir da retirada de direitos conquistados pelos trabalhadores desde o processo de redemocratização no pós-ditadura militar.

Estas conquistas, além de melhorarem as condições objetivas da vida do povo, contribuem também para a formação da consciência política das gerações atingidas. Há um nível de cristalização do que a população aceita ou não no que diz respeito a manutenção de seus direitos, e as constantes lutas de resistência travadas – especialmente pelos setores organizados (mas com ampla aceitação da população, veja-se o grau de impopularidade do governo e suas medidas) – desde o processo de impeachment de Dilma revelam que as reformas propostas por Temer não serão aceitas passivamente. Os massivos protestos de Brasília e Rio de Janeiro nos dias 24 e 28 passados são prova disso.

Contudo, apenas o enfrentamento de resistência às reformas não é suficiente para retomar os rumos de desenvolvimento do país. É preciso que haja um enfrentamento propositivo, com capacidade de apontar não apenas medidas de restabelecimento da antiga política econômica, mas que apontem uma nova política de desenvolvimento e geração de empregos e renda; aprofundem a democracia, prevenindo golpes e ações de desestabilização; que amplifiquem os direitos da população trabalhadora, verdadeira construtora da Nação; reorganize o sistema tributário, desonerando os mais pobres e taxando as grandes fortunas; revise o sistema da dívida pública que sangra os cofres num claro intuito de manter o país de joelhos; crie mecanismos de proteção às populações vulneráveis; entre outras tantas medidas necessárias.

Assim, foi lançado pela Frente Brasil Popular nesta segunda (29) o Plano Popular de Emergência, um conjunto de propostas construídas com o intuito de apontar medidas de superação da crise pela qual o país atravessa, em suas dimensões econômica, política, social e ambiental. Além disso, o plano tem por objetivo subsidiar o debate com o conjunto da população brasileira, através do enraizamento da Frente Brasil Popular em cada canto do país.

Dentre as primeiras medidas apontadas pelo plano está a convocação imediata de eleições diretas para presidência. A incapacidade de Temer em levar adiante as reformas – fruto da resistência proporcionada pelas lutas que se travaram – levou setores do golpe a forçar a sua substituição na presidência, construindo para isso a alternativa das eleições indiretas. Mesmo que a vocalização da mídia golpista sobre o assunto não seja uníssona, há grande chance de Temer cair. Contudo, a via das eleições indiretas é inaceitável.

A votação do processo de impeachment em abril de 2016 mostrou ao Brasil quem são os parlamentares que compõem a maioria do Congresso: funcionários de carreira do poder econômico, em defesa dos interesses de seus investidores de campanha, de suas “famílias”, enfim, contra a população. A atual composição do congresso não tem a legitimidade e a menor condição ética e moral de eleger quem vai comandar o país. Assim, a saída apontada pela Frente Brasil Popular e o conjunto das forças que a compõem como pré-condição para a realização de todas as outras medidas propostas pelo Plano Popular de Emergência é a convocação imediata de eleições diretas de um novo chefe de Estado. Só assim será possível devolver um caminho de legitimidade para a política e a economia brasileiras.

Ainda, a retomada do desenvolvimento e estabilidade política no médio e longo prazo dependem também de medidas que transformem qualitativamente nossa democracia. Assim, o plano propõe a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, com objetivo de restabelecer o pacto democrático criado pela Constituição de 1988, mas desde lá sequestrado pelo poder econômico e incapaz de abarcar as transformações de que necessita a sociedade brasileira. Apenas com o estabelecimento de novas regras para a política, imunes à influência perniciosa dos interesses capitalistas, é que podemos refundar o Estado brasileiro e recolocar os interesses de seu povo em primeiro lugar.


Afirmação: um cursinho popular e um sonho coletivo

No dia 10 de abril, o cursinho popular pré-Enem Afirmação iniciou a sua segunda turma de 2017, no Colégio Estadual Júlio de Castilhos. A primeira iniciou as aulas no dia 27 de março. Nas duas turmas, cerca de 80 jovens que estudam e trabalham sonham em concluir o Ensino Médio e conquistar uma vaga na universidade. As aulas acontecem de segunda a sexta-feira, das 19h às 22h.

Em 2015, numa iniciativa do movimento social Levante Popular da Juventude, o Afirmação surge como um intensivo pré-Enem com a duração de três meses. Desde o início, é formado por professores voluntários que acreditam na importância de democratizar o acesso à Universidade: professores já formados e estudantes de licenciatura de diversas áreas. A primeira turma contou com 40 alunos. Em 2016, com 45 alunos do Protásio Alves, Júlio de Castilhos, Paula Soares, Ernesto Dornelles e Presidente Costa e Silva (escolas públicas locais), o Afirmação se consolidou como uma alternativa de cursinho popular e gratuito para os estudantes de Porto Alegre que não têm condições de pagar cursinhos privados.

Para além da divulgação online, todos os anos são realizadas passadas nas escolas para divulgar o Afirmação. Este ano, foram preenchidas 230 pré-inscrições e apesar da grande procura e demanda por cursinhos populares nas escolas públicas da cidade, ainda há muitos estudantes que desistem ou acabam evadindo, sobretudo por problemas financeiros – como a falta de passagens. No início do ano, conversamos com antigos alunos do Afirmação que entraram na universidade através das Ações Afirmativas, as conhecidas cotas sociais e raciais.

“Uma forma nova de ver as coisas”

Gabriel Farias tem 17 anos, é um jovem negro de Porto Alegre apaixonado por Teatro e que tirava as dúvidas de Matemática de todo o mundo no Afirmação. Fez a primeira e a segunda série numa escola pública no bairro Serraria, mas na terceira série conseguiu uma bolsa do governo do estado em parceria com a escola particular Madre Raffo, no Belém Novo. Eram dois ônibus para ir e dois ônibus para voltar para casa, mas ficou no Madre Raffo até à oitava série.

Depois de passar por outras escolas, foi parar ao Júlio de Castilhos no segundo ano do Ensino Médio. “O Julinho foi a melhor escola onde podia ter pisado na minha vida. Aqui eu soube aprender, soube estudar. Era a minha segunda casa”, diz Gabriel ao recordar que no passado passava mais tempo no Colégio do que em casa. A rotina era cansativa e acredita que se não tivesse conquistado a sua vaga na universidade em 2016 não iria desistir, mas passar na UFRGS, nas suas palavras, “foi um alívio”. Entrou na Federal do Rio Grande do Sul pelo Enem e pelo Vestibular, em Geologia e em Teatro. “Na família da minha mãe eu vou ser o primeiro a entrar na faculdade. A federal é feita pra gente. O Afirmação meio que me abriu as portas porque eu pude escolher”, acrescentou.

Em 2016, o Colégio Estadual Júlio de Castilhos foi ocupado pelos estudantes, um deles o Gabriel. Durante toda a ocupação as aulas do Afirmação continuaram, eram abertas a todos os estudantes e o Gabriel praticamente nunca faltou. Já tinha feito o Enem em 2015 e quando perguntamos de que forma o Afirmação contribuiu para conquistar a vaga na UFRGS conta que, para além do cursinho ter contribuído no seu amadurecimento, “com o Afirmação veio um ensino mais democrático, uma forma nova de ver as coisas. Aquele conhecimento que a gente leva para a vida, como construção do ser humano”. Sobre os professores diz que “eram muito preocupados com o Brasil, com a Política, o estado de cada um ali e isso foi muito bonito. Essa coisa de alteridade que a gente viu ali dentro e sentiu”.

Escolheu o Teatro porque “era um sonho e não vou me aposentar mesmo”. A mãe, que o ensinou a ler, preferia que tivesse escolhido Geologia, mas Gabriel não abdica do sonho por questões financeiras: “é muito bom poder fazer o que tu ama”.

Mesmo antes de entrar na Universidade como aluno cotista, em setembro de 2016, Gabriel participou do movimento contra a revisão da Lei de Cotas na UFRGS e acredita que “devemos ficar alerta”, num momento em que somamos perdas em relação à Educação pública brasileira.

“No fim tudo valeu a pena”

A Victória Bonifácio está no terceiro semestre de Relações Internacionais na UFRGS. Em 2015, integrou a primeira turma do Afirmação e entrou de primeira na Universidade. Realizou um sonho e agora vai trilhando o seu caminho no sentido de realizar muitos outros. Estudante de escola pública e de baixa renda, entrou na UFRGS pelo sistema de cotas.

Morava na Zona Sul – onde ainda mora – e saía de casa de manhã bem cedo para ir até ao Julinho, colégio onde estudava. De tarde fazia um estágio na Prefeitura, num setor da Lomba do Pinheiro. No final do dia, voltava para o Julinho para não perder as aulas do cursinho. “Chegava umas onze horas em casa. Era bem puxado, dormia pouco, mas no fim tudo valeu a pena”, diz Victória.

No ano de 2015, os professores do Rio Grande do Sul entraram em greve e Victória, que nunca teve a possibilidade ou a oportunidade de pagar um cursinho privado, recorda: “fiquei um tempo sem professores, um mês sem aulas, que coincidiu com o período em que entrei no Afirmação. O Afirmação foi o que realmente me ajudou a passar no Vestibular”. Foi pelo Vestibular que a Victória conquistou a vaga e acredita que embora Enem e Vestibular “sejam provas diferentes, algumas questões que eu não tinha nem visto na escola eu vi no Afirmação e são questões parecidas”.

O fato de serem voluntários fez com que Victória admirasse os professores do Afirmação: “eles também tinham a vida deles e sempre dispunham de um tempo para nos ajudar”. Para a Victória é uma questão de acumular mais conhecimentos, mas acrescenta: “quem sabe daqui a um tempo eu vou poder contribuir com o Afirmação”.

A estudante de Relações Internacionais acredita que o seu curso ainda é bastante elitizado, “mas tem mais cotistas como eu”. Defende que o importante é não desistir, “porque um dia tu vai conseguir. Nunca deixe que alguém diga que não vai conseguir. Se eu tou aqui, qualquer um consegue”.

“O número de vagas para cotistas é extremamente baixo”

William Abreu acabou de fazer 19 anos e entrou em Publicidade e Propaganda na PUCRS, através do Prouni – Programa Universidade Para Todos. Depois ter encaminhado os papéis da matrícula na PUC, descobriu que também tinha entrado em Ciências Sociais na UFGRS “na segunda chamada ou na lista de espera do SISU”, não recorda. “Quando eu vi que eu tinha passado pelo Prouni, que era tipo a última coisa que eu tinha me inscrito, eu fiquei muito feliz”, acrescentou o jovem da Lomba do Pinheiro, que concluiu o Ensino Médio no Colégio Estadual Paula Soares.

Para William, que frequentou o Afirmação em 2016, “cursinhos populares auxiliam a população que não tem acesso a outros meios de estudo” e são um “super bônus, auxiliando muito o ensino público, porque ele é desfasado”. O que aprendeu no Afirmação conseguiu conciliar no Enem e no Vestibular, porque “as matérias e assuntos eram as mesmas”. Enquanto estudante, jovem, negro e da periferia, William acredita que os cursinhos e os professores voluntários “são um elo para as pessoas que não são visadas pelo Ensino Superior, que é o pessoal da periferia, da escola pública. Dizem a estas pessoas que também é possível para elas entrar na Universidade. Dão um impulso para quem não tem condições”.

Com vontade de um dia também dar esse empurrão, para que mais jovens como ele entrem na Universidade, William defende que cotas são “uma política de reparação histórica com o povo negro, mas o número de vagas para cotistas é extremamente baixo”. Ainda acrescenta que, dentro da PUC, “tem um pessoal que sofre preconceito mesmo, às vezes só por ser de baixa renda”.

Em relação ao Afirmação, William deixa ainda um recado para que os jovens “aproveitem cada informação e se puxem ao máximo. No Afirmação tu pode aproveitar várias coisas que às vezes durante o período de aula ou durante o dia não tem como. Tem professores maravilhosos, que dão dicas maravilhosas”.

 

 

 


Levante pelas Diretas: o povo tem que decidir

O golpe segue seu rumo, mas os golpistas já não estão mais tão unidos. Nesta quarta-feira (17) o Brasil foi surpreendido com o vazamento de gravações envolvendo o presidente golpista Michel Temer e o senador Aécio Neves. O vazamento segue o padrão Globo de golpe: tudo orquestrado, jornalistas recebendo informações privilegiadas, criando o clima para implementar as medidas desejadas. Mas nesse caso quais são as medidas desejadas pelos setores golpistas? Eles não são um grupo só e, apesar de terem orquestrado o golpe juntos, tem interesses distintos.

Os setores golpistas já não têm uma saída unitária como tiveram durante o “fora Dilma”. O núcleo econômico do golpe está preocupado em salvar a própria pele, em garantir a continuidade dos seus negócios e, no caso dos irmãos Batista da Friboi, em não ser presos. A Globo e (o partido) Lava Jato buscam mais legitimação social, em especial depois do depoimento do Lula que desarmou Sergio Moro e desmascarou a parcialidade da operação Lava Jato. E os chamados políticos tradicionais, “fisiológicos”, mais preocupados em garantir ‘fatia do bolo’, a exemplo de Romero Jucá, só querem acabar com toda a crise política para continuar com suas atividades ilícitas.

Além da própria motivação isolada de cada um desses grupos golpistas outros fatores influenciam nessa divisão. A ‘solução Temer’ não deu certo. Com uma ampla rejeição popular o governo de Temer não conseguiu emplacar as duas principais reformas econômicas que propôs. O último mês foi decisivo neste sentido. As grandes mobilizações de Março, que começou com as mulheres nas ruas de todo o Brasil no 8 de Março, em defesa da aposentadoria, os milhares de trabalhadores e trabalhadoras que tomaram as ruas no dia 15 de Março e a maior greve geral dos últimos 30 anos, no dia 28 de abril, deram o tom de como seria o trato da classe trabalhadora com o governo. Além disso o Partido da Lava Jato não conseguiu provar nenhuma das acusações contra Lula e ainda por cima levou uma “porrada” do ex-presidente que saiu com saldo político positivo do depoimento em Curitiba.

A perseguição à Lula, ao PT, MST e todos os movimentos sociais, não tem conseguido resultados concretos. Lula saiu fortalecido do depoimento ao juiz Sergio. Os golpistas sabem que não tem chance de vitória contra o Lula em 2018 e por isso buscam uma alternativa que não passe por enfrentar eleições direitas, afinal, o programa econômico dessa elite nunca venceria nas urnas. Este talvez seja um ponto que ainda unifique os campos golpistas, o medo de uma disputa eleitoral contra Lula em 2018.

Por isso a linha política do campo ideológico dos golpistas (partido da Lava Jato e Globo) é criminalizar a política, desacreditar a população de que é importante participar da política. A Globo tenta associar a imagem da participação política à corrupção, criar um clima de negação da política para gerar novos salvadores da pátria que terão aval para quaisquer medidas desde que se estabilize o país.

Uma das saídas que o campo golpista aposta é a das eleições indiretas com a Ministra Carmem Lucia assumindo um governo provisório. A reunião chamada pela Ministra dias atrás com alguns dos empresários mais ricos do Brasil deixa clara as relações estabelecidas entre este setor da economia e o judiciário.

Para que o povo brasileiro saia vitorioso desta batalha é necessária muita unidade entre as forças progressistas. Compreender que temos diferenças de propostas para o Brasil, mas que o momento é de agitar e propagandear um programa popular de saída para a crise econômica e política. Neste sentido as organizações fizeram o esforço político de propor este programa que contem medidas emergenciais para ser adotadas.

Temos clareza que estas medidas só serão implementadas se restabelecermos a normalidade democrática no país, derrubando o governo golpista e realizando eleições diretas para que o povo tenha o direito de decidir os rumos do país, para que o novo governo eleito através do exercício da soberania popular tenha legitimidade para implementar tais medidas. Vamos precisar de todo mundo, por isso é tão importante a mobilização em cada escola, bairro, local de trabalho, igrejas.
Assim o momento é de aproveitarmos as contradições e divisões do campo golpista e ir para as ruas exigir a imediata saída de Temer e a convocação de eleições diretas para outubro! A Frente Brasil Popular e diversas outras organizações organizam atos em todas as capitais neste domingo e durante toda a semana, tendo seu ápice no dia 24 em Brasília, onde caravanas de todo país dirão um enérgico “Fora Temer!” e exigirão “Diretas Já!”. É tarefa da juventude que quer construir um Projeto Popular para o Brasil participar massivamente destes atos, mobilizar o maior número de jovens possível. Estamos num momento decisivo da história do nosso país e a nossa força reside na nossa criatividade e ações de impacto, na massificação de nossos atos e criação de comitês de mobilização da juventude em todos os locais. Essa é a nossa maior escola de formação política no momento.

“Vamos precisar de todo mundo
Um mais um é sempre mais que dois
Pra melhor juntar as nossas forças”
(Beto Guedes, Sal da Terra)


13 DE MAIO: SEREMOS PALMARES NA LUTA PELA VERDADEIRA ABOLIÇÃO

 

Muitos de nós aprendemos nas escolas que foi o ato da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, pelas mãos da Princesa Isabel, responsável pela abolição da escravatura. Pior, o fato é narrado como “bondade” de uma princesa mais humanizada, pois “libertou” os escravizados por “cordialidade”. Mas não se narra o processo de resistência, as revoltas, os quilombos, paralisações dos escravizados, processo esse que ficou conhecido como quilombagem. Pensadores e lutadores como Clóvis Moura descreve que tais lutas negras foram fundamentais para a abolição. E precisamos conhecer esse lado da história, rompendo com velho olhar eurocêntrico, enaltecendo as lutadoras e lutadores populares da época.

O movimento negro há várias décadas denuncia a falsa abolição. O dia 13 de Maio é considerado o Dia Nacional de Denúncia ao Racismo. Uma data que serve para trazer a reflexão dos impactos da falsa abolição na vida das trabalhadoras e trabalhadores brasileiros, sobretudo as negras e os negros. E dessa maneira desmentir e fazer o enfrentamento à narrativa que não aborda a luta social dos escravizados.

Já o 20 de Novembro, desde a década de 70, o movimento negro passou a comemorar como dia nacional da consciência negra, lembrando a morte de Zumbi, o maior líder do Quilombo de Palmares.  Esvaziando totalmente a importância da Princesa Isabel no 13 de maio e dando visibilidade para Zumbi, Dandara, Ganga Zumba, e tantas outras lideranças que passaram por Palmares ou enfrentaram o racismo em suas vidas e na sociedade brasileira.

Há vários equívocos na narrativa que declara a abolição como uma bondade ou concessão do império, mas vamos destacar duas principais.  A primeira é que a liberdade real só vem com a garantia de direitos e isso a canetada de ouro não proporcionou.  A abolição “liberou” milhares de vítimas da maior crueldade e exploração da nossa história, sem garantir mínimas condições de vida: inclusão social, emprego, moradia, terra, educação, etc. Na realidade, só alterou os mecanismos de opressão e exploração contra a população negra, que saiu das senzalas e foi jogada nas cidades e, depois, nas favelas, sofrendo um processo de marginalização, que perpassou também pela sua cultura e tradição.

Em 2017, completam-se 129 da abolição, mas os indicadores sociais do nosso país ainda apontam a existência da desigualdade racial e social, uma evidência concreta de que não houve abolição e que a integração do/a negro/a na sociedade de classes foi a partir do racismo, da opressão e da exploração.  As  negras e negros são 54% da população, mas a sua participação no grupo dos 10% mais pobres do país é muito maior: 75%; a população negra está 73,5% mais exposta a viver em um domicílio com condições precárias do que brancos; a cada três jovens que são assassinados, dois são negros; o trabalhador negro tem o salário 47% menor do que de um trabalhador branco com o mesmo grau de formação; 56% das mulheres negras trabalham como domésticas; a taxa de analfabetismo das pessoas com 15 anos de idade ou mais é de 8,3% para brancos e 21% para negros. Esses são alguns dos vários dados que demonstram que o racismo é bem atual, aliás o mesmo se articula bem com o capitalismo.

Para o pensador e lutador Octavio Ianni, a abolição feita aos moldes da canetada de ouro serviu para colocar a população negra como exército industrial de reserva. Importante debate, pois no atual cenário onde o número de desempregados só aumenta, não podemos fugir do debate racial. Em 2016, o IBGE pela primeira vez investigou os desempregados considerando a cor ou raça da população. A taxa de desemprego das pessoas que se declararam de cor preta (14,4%) e parda (14,1%), foi maior do que das pessoas que se autodeclararam brancas (9,5%).

Vivemos sob a lógica de um racismo estrutural, ou seja, não estamos falando simplesmente de um preconceito, mas sim de uma opressão e exploração que se expressa em todas as formas e relações, especialmente na relação fundamental da sociedade capitalista, a relação capital-trabalho.  O pensador e lutador Florestan Fernandes em seu livro “A Integração do Negro na Sociedade de Classes” aborda esse debate, ao afirmar que, no Brasil, foi realizada uma falsa abolição e nunca a classe dominante se dispôs a resolver essa contradição, muito pelo contrário, sempre legou a população negra os trabalhos mais precarizados, e até análogo à escravidão, a baixa escolaridade e toda as mazelas sociais que afeta a vida das negras e negros. Tais elementos não são coincidência ou força do destino, fazem parte de uma lógica capitalista, racista e patriarcal.

O segundo equívoco é acreditar que extinção oficial da escravidão faria com que ela não existisse mais em nosso país. Estamos há um pouco mais de um século da canetada de ouro, ainda sim existem denúncias de trabalhadoras (es) de todas etnias em condições de escravidão. Segundo os dados do Ministério do Trabalho existe mais de 24 milhões de trabalhadores em situação análoga à escravidão, sendo que em 90% dos casos são em terceirizadas. Todos os anos o Ministério do Trabalho resgata trabalhadoras (es) em situação análoga à escravidão no campo e na cidade.

Todas essas questões só reafirmam o compromisso do Levante Popular da Juventude com o povo brasileiro. A população negra sempre lutou para ocupar o seu espaço, e foi essa luta que proporcionou algumas mudanças nas suas vidas. Florestan Fernandes, em sua obra, também afirma que raça e classe dialogam, dando condições ao povo brasileiro ser uma força revolucionária determinante na luta por um mundo mais justo sem exploração e sem racismo.

É do povo negro a resistência, a bravura, pois sempre esteve presente nas lutas sociais do nosso país. Neste dia 13 de maio, nós, a juventude do campo popular, temos a obrigação de narrar a história pela voz do povo, de reafirmar o compromisso que já decretamos desde a nossa primeira carta compromisso: de se somar ao movimento negro e de fazer lutas antirracistas. Na escravidão éramos Dandara, na Ditadura éramos Marighella e na atual conjuntura seremos Palmares, a ordem fora da ordem, construindo pouco a pouco para a revolução, cada célula é uma Palmares que grita para fora por justiça social, dando voz a cada vítima do racismo, enfrentando o capitalismo, conspirando: PÁTRIA LIVRE! VENCEREMOS!

POVO NEGRO UNIDO É POVO NEGRO FORTE QUE NÃO TEME A JUTA QUE NÃO TEME A MORTE !!!

JUVENTUDE QUE OUSAR LUTAR CONSTRÓI O PODER POPULAR!!!

 


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