A nossa luta é diária e por sobrevivência

Por Vitória Lessa

homofobia

Estou diariamente em contato -seja pelo meu círculo de amigos, seja pela minha militância- com notícias de jovens LGBTs sendo brutalmente assassinados e por isso me é tão clara a imprescindibilidade da criminalização da homofobia no Brasil. Assim, fico chocada ao ver pessoas comumente defendendo que é exagero, que são casos isolados, crimes passionais, que ser LGBT é moda.
A influência da religião cristã, e muitas vezes do fundamentalismo religioso, no Brasil é visível nas esferas política e social. Na primeira, é estampadamente visível a propaganda discriminatória feita por alguns líderes religiosos (com uma crescente influência e presença no quadro político brasileiro) que defendem que a homossexualidade é proibida pelo primeiro testamento da bíblia. Embora sejam facilmente manipuláveis as interpretações de escritos de mais de 5 mil anos, a religião não pode entrar como mérito em questões políticas em um Estado laico.
No segunda, temos uma sociedade brasileira muito marcada por ideais conservadores, herança da ditadura militar quando a defesa da moral e dos bons costumes de uma família margarina serviam imperavam ditando regras sociais e justificando atos terríveis. Esse conservadorismo, advindo da religião ou não, desponta em um país heteronormativo e patriarcal.
O primeiro significa que o padrão aceitável pela maior parte da população é a heterossexualidade, enquanto o segundo significa que as estruturas de nossa sociedade foram erguidas através da submissão da mulher ao homem. Ambas as características influenciam diretamente no elevado grau de homofobia presente em nossa nação. Em um país onde é valorizado ser homem, portanto (na visão do senso comum) “macho”, “bruto”, “garanhão” e heterossexual, a vida de qualquer um que se oponha a isso não é fácil.
Ilustrativamente: seja uma mulher que “recusa” tal homem, seja um homem que se nega a prestar tal papel, o homossexual não se encaixa num sistema patriarcal e heteronormativo.
Infelizmente a vida de um homossexual no Brasil frequentemente segue a mesma sequência: é criado, como qualquer menino, para crescer e ser um garanhão másculo que subjuga as mulheres ou para ser uma princesa feminina em busca de um casamento com um rapaz lindo, no qual ela prestará o papel de esposa submissa e prestativa (na casa e na cama); chega a adolescência e ele/ela começa a se ver diferente dos colegas, passando por um momento complicado de auto conhecimento e dúvidas, os/as colegas notam, também, que ele/ela é diferente e começam as provocações e até agressões; e finalmente, os/as LGBT se assume primeiro para si mesmo, em um processo complicado e longo (afinal não foi assim que aprendeu que seria) e depois para sua família, muitas vezes em uma experiência traumática.
A discriminação vai acompanhá-lo/a por toda sua vida, seja pela sua família, seja por “amigo/as”, seja por estranhos na rua, seja por colegas de escola/faculdade/trabalho, etc. Seus relacionamentos nunca serão tranquilos, demonstrações de afeto sempre poderão representar uma ameaça, apresentar o/a parceiro/a a família pode nunca ser possível. Não é raro perder vagas de empregos, sofrer perseguição de professores/as/chefes por razões homofóbicas e ter pessoas queridas se afastando.
No entanto a pior discriminação sempre será a violenta. O/A LGBT hoje não tem segurança para andar nas ruas. Basta que alguém ache que está muito “afetado/a” ou “pintoso/a” para desencadear um espancamento sério ou assassinato. O Brasil é oficialmente, segundo dados de ONGs LGBT, o país com maior número de assassinatos LGBTfóbicos não institucionalizados. Isto porque existem países, como o Irã, onde a homossexualidade é crime com pena de morte até os dias de hoje e nesses locais a violência homofóbica é institucional.
Como eu disse, tornou-se comum e (ao meu ver) aceito ouvir casos de assassinatos motivados puramente por ódio à orientação sexual/identidade de gênero de alguém. A mobilização contra essa tentativa de genocídio (declarado, inclusive, diversas vezes por agressores que querem eliminar essa “praga” ou “raça”) é ínfima. Em contrapartida, a incitação à violência é amplamente divulgada por sujeitos como Marcos Feliciano e Silas Malafaia que estimulam o combate aos homossexuais. Os resultados de suas campanhas já são visíveis: enquanto em 2010 eram 240 os assassinatos homofóbicos, em 2014 o número subiu para 271.
Ainda assim os dados -não oficiais, visto que não existe oficialmente esse censo-não são 100% confiáveis, visto que muitos assassinatos LGBTfobicos podem ser registrados como crimes passionais/acidentes/desaparecimentos/etc. Além disso o número de mortes de transexuais e travestis é muito mais alto e muito menos divulgado, visto que essa população é na maioria das vezes marginalizada (e me orgulho muito de minhas amigas trans que hoje vivem realidades diferentes, não podia deixar de falar, pois-embora eu não tenha propriedade- tenho consciência da dificuldade que é fugir desse destino).
A nossa luta é diária e é por sobrevivência. Porque toda vez que eu leio -note-se que pela 6ª vez essa semana- que “jovem homossexual é assassinado a facadas em metro em SP” eu recebo a exata mensagem que o assassino desejava passar: eu sou a próxima.
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