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DERROTAS DA ESQUERDA: O QUE 2016 TEM A NOS ENSINAR?

O ano de 2016 será marcado profundamente pelas derrotas das forças progressistas no Brasil. A primeira derrota por fora das urnas, com a consumação do Golpe em 31 de Agosto, a segunda derrota por dentro das urnas, nas eleições de 2 de Outubro. Tais derrotas são importantes em si mesmas, mas mais do que isso elas apontam para a reconfiguração política que está em curso em nosso país. Portanto, é fundamental que todas e todos os militantes de esquerda tiremos as lições delas.

1. Não podemos explicar a derrota eleitoral sem o Golpe

Muitas das avaliações sobre o pleito municipal de 2 de Outubro, tanto de intelectuais progressistas, mas principalmente dos analistas da grande mídia, tem atribuído a derrota eleitoral do PT, aos equívocos cometidos pelo próprio partido. Contudo, essa é uma análise um tanto superficial, pois ignora a conjuntura latino-americana de ofensiva neoliberal, e o contexto de linchamento político e de criminalização que o PT disputou essas eleições. A triangulação entre a grande mídia, o sistema jurídico-policial e direita partidária construiu um “consenso anti-petista” que inviabilizou a maior parte de suas candidaturas e de seus aliados. Isso significa que qualquer força política que estivesse no lugar do PT nessa correlação de forças estaria igualmente estrangulada por essa ofensiva neoliberal.

2. Não podemos reduzir essa derrota eleitoral ao Golpe

Ao mesmo tempo, não podemos justificar essas derrotas somente pelos méritos do inimigo. Não podemos isentar o PT, pelos erros que levaram ao Golpe, e consequentemente, as derrotas eleitorais nessas eleições municipais. O PT deixou de ser um instrumentos de organização política dos setores populares para a disputa de hegemonia na sociedade, e tornou-se mais uma máquina eleitoral para a disputa de espaços institucionais. Deixou um programa de reformas estruturais do Estado, pela gestão de politicas públicas que melhorassem a vidas das pessoas, desde que não gerassem conflitos. Nesse esforço foi mais amoldado pela lógica da administração pública, do que conseguiu moldá-la. Fez alianças pragmáticas, mas não construiu ao longo de sucessivos governos correlação para que pudesse prescindi-las, ao contrário, foi tornando-se cada vez mais refém dessas alianças. De modo que ao término de 13 anos de governos petistas qual o saldo de organização popular e consciência política que essa experiência legou? Portanto, a derrota de ontem não foi construída somente a partir do Golpe, ela foi consequência de uma estratégia equivocada. As responsabilidades sobre as derrotas de 2016 devem ser divididas entre os méritos do inimigo e os limites da estratégia hegemônica da esquerda.

3. A derrota do PT não favoreceu outras forças políticas de esquerda

A crise do PT tem estimulado as forças políticas de esquerda a se assanharem para assumir o lugar de força hegemônica no campo progressista. Contudo, o resultado das eleições de ontem não demonstra que o espólio eleitoral do PT esteja sendo capitaneado por alguma sigla. É certo que PC do B e PSOL tiveram candidaturas de destaque em centros políticos importantes. Mas as suas conquistas foram mínimas frente ao tamanho da derrota do PT. Analisando o número de vereadores eleitos, enquanto PC do B cresceu 4,8% (46 vereadores a mais), e o PSOL cresceu 8,2% (4 vereadores a mais), o PT perdeu 44% de sua representação nas câmaras municipais, o que significa 2.272 vereadores a menos. Ou seja, não está em curso a transição de um polo político de esquerda a outro, está em curso a perda de terreno institucional das forças progressistas. Portanto, essa derrota não deve ser vista somente como a derrota do PT, mas é uma derrota do campo progressista, que em muitos locais não conseguiu se apresentar como alternativa viável, deixando a disputa política entre frações burguesas. É uma derrota que se apresenta no plano institucional, mas suas raízes são mais profundas. De modo geral essa derrota é a expressão da incapacidade de todas as forças políticas progressistas constituírem força social, centrando suas energias no trabalho subterrâneo de formação política e organização do povo.

4. A Direita sai fortalecida em todas as suas matizes

O terreno perdido pelo PT tem sido conquistado por partidos conservadores. Em primeiro lugar destaca-se, na fumaça da fragmentação partidária que virou o sistema politico brasileiro, o crescimento das siglas menores (PSD, SD, PSC, PRB, etc). Essa pulverização só favorece a Direita, na medida em que os partidos conservadores maiores tem muito mais capacidade e afinidade política para agenciá-los na conformação de alianças eleitorais estaduais e nacionais.

Nesse emaranhado de siglas duas forças políticas conservadoras se fortalecem. A primeira é a direita fundamentalista, associada às Igrejas pentecostais, que já vinha numa curva ascendente no cenário político, mas com as restrições de financiamento e com campanhas mais curtas, tendem a se consolidar cada vez mais como uma força decisiva, convertendo seus fieis em milhares de cabos eleitorais. O destaque fica com o PRB, sigla vinculada a Igreja Universal, que apresentou candidaturas altamente competitivas em SP, e está no segundo turno no RJ.

A segunda força que despontou, foi a extrema-direita ideológica que embora não tenha assumido centralidade nas disputas, ganhou um terreno que não havia no histórico recente da política nacional. Esteve presente não só na votação expressiva do filho de Bolsonaro, na disputa a prefeitura do RJ, mas também em dezenas de candidaturas bem sucedidas à vereadores encarnadas por lideranças coxinhas do MBL, do Vem pra Rua e do Partido Novo.
Por fim, entre os partidos grandes, o PSDB saiu muito fortalecido, em especial, pela vitória surpreendente em São Paulo, e pela presença no segundo turno em várias capitais. O anti-petismo, de modo geral, fortaleceu a Direita em todas as suas matizes.

5. A rejeição ao sistema político foi capturada pela Direita

As jornadas de junho de 2013 constituíram-se num fenômeno que até hoje suscita várias interpretações. Contudo, é inegável que dentre as motivações daquelas mobilizações estava o sentimento de inconformidade com o atual sistema político, em especial na juventude. Não é por menos que entre as palavras de ordem mais entoadas estava o grito de “Não me representa”.

Esse sentimento de não representação, que permaneceu desde então, não necessariamente é um caldo conservador. De modo geral todas as pessoas progressistas não se vem representados no Congresso Nacional, sabem dos vícios do nosso sistema político, da ausência de participação popular direita, de como ele é vulnerável ao poder econômico, etc. Portanto, há uma dimensão potencialmente emancipatória na crítica a essa institucionalidade da democracia burguesa.

Contudo, de 2013 pra cá essa rejeição as instituições políticas foi sendo capturada pela Direita. Principalmente através da campanha midiática e das mobilizações “Fora Dilma”, foi se fortalecendo essa associação entre um sistema politico corrupto e o PT, que inicialmente se consolidou na classe média, mas atualmente transbordou para praticamente todos os segmentos da sociedade. O fato de o PT estar encabeçando o governo federal, e a incapacidade dessa experiência representar uma nova institucionalidade política, reproduzindo práticas do sistema ao invés de superá-las, favoreceu enormemente a ancoragem desse discurso.

Nessa eleição a rejeição ao sistema político ficou evidente em pelo menos dois aspectos. O primeiro foi no crescimento das abstenções, votos nulos e brancos, chegando a mais de 40% no RJ e em SP. O que representa claramente um ceticismo crescente com relação a efetividade do voto. O segundo aspecto foi no discurso das candidaturas conservadoras. Aqui se destaca a narrativa construída por Dória em São Paulo, que se afirmava como gestor e não como político. Não há como explicar o sucesso de sua candidatura, a não ser por essa capacidade de dissociar-se da política e dos políticos (e do imaginário a eles vinculado: corrupção, mentira, ineficiência). A mágica de Dória foi a de negar o status quo político, sendo ele um representante desse status quo.

A exceção desse processo de sequestro de discurso político, foi a campanha de Freixo no Rio de Janeiro. Esta foi uma das poucas candidaturas que conseguiu canalizar à esquerda essa subjetividade de alternativa ao modus operandi da política, que infelizmente não se apresentou em outras disputas.

6. Desafios para a construção de um novo ciclo da esquerda no Brasil

Essas derrotas anunciam o encerramento de um ciclo na esquerda brasileira. Isso não significa a dissolução do PT, mas significa que ele não terá mais o mesmo papel protagônico de antes. Esse processo de reorganização da esquerda nos coloca um conjunto de desafios.

O primeiro desafio é o da unidade. Estas eleições demonstraram a incapacidade da esquerda se unificar mesmo sob as condições políticas mais adversas. Para evitarmos o pior cenário que é o da dispersão da esquerda, será necessário superarmos o sectarismo e o hegemonismo.

O segundo desafio é de projeto. O fim da experiência neodesenvolvimentsta, e a implementação do neoliberalismo que tende a se aprofundar, exige que formulemos um novo projeto que seja uma alternativa popular para as crises que estão em curso. Esse novo projeto deverá apresentar além de um programa econômico e social, uma resposta à esquerda para a crise de legitimidade do atual sistema político. Por isso que a luta por uma Constituinte se coloca como uma bandeira essencial na perspectiva de refundarmos as instituições políticas no Brasil, garantindo efetivamente a participação popular no controle do Estado.

O terceiro desafio é organizativo. Diante da mudança do papel que o PT passará a exercer na esquerda, precisamos de uma nova engenharia organizativa que assuma o comando político. Na atual conjuntura nenhuma força isolada tem essa capacidade. Precisamos de um novo arranjo politico que congregue partidos, correntes, movimentos populares e militantes sociais. O embrião desse instrumento vem se forjando nas lutas desde 2015, e chama-se Frente Brasil Popular. Contudo, esta experiência permanece muito aquém das nossas necessidades. A Frente deverá se tornar um espaço de organização política e social de todos aqueles que se opõem ao programa neoliberal, capilarizado por todo território nacional.


SEMINÁRIO NACIONAL CAROLINA MARIA DE JESUS: ESSA CASA É NOSSA!

Depois de uma imersão de 5 dias, estudando, debatendo e analisando as diretrizes para o 3° Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude. Saímos do Seminário Carolina Maria de Jesus, renovados na luta e certos de que este é o momento crucial para colocarmos em prática a nossa proposta de sociedade para o Brasil.

Dizemos e afirmamos que a “Nossa rebeldia é o povo no poder” por isso, neste 3° encontro que se aproxima, precisamos nos manter firmes na construção do projeto popular. Uma proposta de vida para a juventude brasileira que atue contra o genocídio da juventude negra, o racismo, machismo e a LGBTfobia. Que priorize a universalização e acesso ao ensino superior. Por uma proposta que forneça à nossa juventude trabalhos dignos, que não nos explorem. Um projeto que não subordine os jovens camponeses à migração, que garanta a eles o direto à terra. E que também contemple o acesso à cidade aos jovens que, majoritariamente, são marginalizados nas periferias do Brasil, bem como à saúde e à cultura. Que democratize os meios de comunicação, para que o nosso povo não seja manipulado por uma mídia corrupta.

photo715570199401703507Por fim acreditamos que o principal passo para esse nosso projeto é a consolidação de uma Constituinte soberana e exclusiva do sistema político brasileiro. É através do atual modelo de gestão do nosso país, que os nossos povos são explorados, marginalizados e violentados. É através do atual modelo de gestão do nosso país, que somos jogados no quarto de despejo.

O Acampamento Nacional em terras marcadas pela exploração do imperialismo

O crime de Mariana despejou por 826 km um rastro de lama que cheira a morte de nossas terras, roubadas pelo agronegócio, reviradas pela mineração, dos nossos rios drenados pelas barragens, das nossas cidades marcadas pela pobreza, violência e exclusão, da vida de jovens exterminados, de um sistema político nas mãos de uma elite corrupta e assassina, vendida ao imperialismo. Só a luta trará justiça para Mariana, só a luta mudará a vida! E a vida necessita ser uma nova vida! Por isso nós, jovens, do Levante Popular da Juventude nos movemos organizados em nossos bairros, comunidades, escolas e universidades por um novo projeto para o Brasil, um projeto popular!

O Acampamento Nacional será um momento importante na trajetória de lutas de Minas Gerais que traz em seu leito histórico a resistência do povo Borun contra a invasão colonial, o quilombo dos Ambrósios, a luta de Chico Reis pela libertação de cada homem e mulher escravizada, a resistência estudantil a ditadura militar, a resistência dos sem terra em Ariadnópolis, as greves dos professores do SindUTE, o picho no concreto, as marchas pelo asfalto.

Em setembro virá um Levante Popular da Juventude do Brasil inteiro para declarar com nossas cores, amores e saberes esse novo Brasil que nasce de nós, germina por nossas células, pela certeza que essa obra caberá somente ao povo brasileiro.

Encerramos o nosso Seminário Nacional Carolina Maria de Jesus com o compromisso de viralizar e enraizar um novo projeto de vida para a juventude brasileira, sem as marcas da exclusão social, econômica, política e cultural. Voltamos para os nossos estados marcados pela força e luta dessa mulher-trabalhadora-escritora que nos alertou: jogaram o nosso povo num Quarto de Despejo, mas somos a voz de milhares de jovens e eles não nos calarão, essa casa é nossa! O Brasil é nosso!

E será por esse exemplo de vida, com a mesma força e ousadia que mobilizaremos jovens de centenas de cidades para o 3º Acampamento Nacional! Em 2012 fomos mil, três mil em 2014 e agora seremos sete mil jovens.

Percorreremos rios e estradas, horas e dias, para chegar até Minas Gerais. O que nos move? O que nos faz um em meio a toda a nossa diversidade? É o peito que se enche de rebeldia, as cabeças que florescem sonhos e as mãos que chamam por outras mãos!

É tempo de avançar de mãos dadas! É tempo de acender a rebeldia e apontá-la para a tomada do poder!

A NOSSA REBELDIA É O POVO NO PODER!


Acordo para antecipar a eleição presidencial é um verdadeiro tiro no pé

Por Thiago Pará, secretário-geral da UNE e dirigente do Levante Popular da Juventude

Os movimentos populares, organizações políticas e partidos de esquerda que estão à frente da luta contra o golpe travestido de impeachment, fazem um amplo debate sobre a saída da crise que devemos apontar para a sociedade brasileira.

Duas posições se evidenciaram nesse debate.  Uma proposta é fortalecer a luta contra o golpe, pelo “Fora Temer” e contra a retirada dos diretos dos/as trabalhadores/as pelo governo ilegítimo até o fim do processo no Senado. A outra proposição supõe que é possível derrotar o impeachment e conseguir o número necessário de senadores se a presidenta Dilma Rousseff fizer o compromisso de apoiar a convocação de um plebiscito para consultar a população sobre a antecipação da eleição presidencial.

Os argumentos levantados por aqueles/as que defendem a segunda posição é de que a presidenta Dilma já não teria mais “condições políticas” de voltar a governar o país. Afinal, seus índices de popularidade são baixíssimos e existe um Congresso Nacional que inviabiliza sua gestão.

Além disso, esses setores da esquerda acreditam que os senadores irão mudar seu voto se for apresentada uma “proposta republicana”, no caso, a antecipação da eleição.

A questão é que, em primeiro lugar, a popularidade de Dilma é baixa justamente porque –  na tentativa de conciliação com as forças que vieram a apoiar o golpe – aplicou um ajuste econômico de natureza neoliberal, cobrando a fatura do povo brasileiro, com cortes de direitos, dos programas sociais e dos investimentos em saúde e educação.

Com isso, o governo ajudou a pavimentar o caminho do golpe, com a perda de apoio das camadas populares, que a reelegeram em 2014 com a promessa de implementação de um programa avesso ao aplicado pelo ministro Joaquim Levy.

Em segundo lugar, a inviabilidade que esse Congresso impõe à Dilma será compelido a qualquer governo progressista. Não se trata apenas de uma “antipatia à Dilma”, como simplificam alguns, mas dos interesses políticos de classe que determinam tal oposição.

Por fim, deve-se questionar: será que essa “proposta republicana” tem mesmo condição de reverter os votos dos senadores “indecisos”?

Será que eles estão preocupados com o país ou com tão somente seus interesses pessoais?

Quem são e por que esses senadores já não vieram a público apresentar essa saída da antecipação das eleições?

Até o mundo mineral sabe que, neste momento, eles estão no balcão de Temer, apreciando as “ofertas”, e farão o mesmo com os interlocutores de Dilma Rousseff.

O que a presidenta precisa fazer é escrever uma carta à Nação para apresentar qual programa e ao lado de quais forças sociais estará se reconquistar o governo. Em nossa opinião, Dilma deve adotar as linhas programáticas apresentadas pela Frente Brasil Popular, que aponta para as reformas estruturais.

Defendemos acabar com a farra dos bancos, diminuindo a taxa de juros; responsabilizar os mais afortunados pela crise, taxando lucros,  dividendos, herança, fortuna e riqueza; retomar a construção de moradia popular; acelerar o programa de reforma agrária popular; ampliar as universidades públicas para atender à demanda da juventude, entre outras medidas.

O nosso sistema político é uma herança maldita da ditadura militar, sendo conformado para atender os poderosos de sempre e só dá “condições políticas” para governar àqueles que atendem seus interesses. Não foi a Dilma que perdeu condições políticas de governar, mas o programa neodesenvolvimentista que se esgotou no quadro da crise mundial do capitalismo, bloqueando qualquer inclinação popular do governo sem enfrentar os interesses do grande capital.

Com a crise econômica global e o acirramento da luta de classes, não é possível reproduzir aquele modelo de “ganha-ganha” que garantiu altas taxas de acumulação do grande capital, conferiu ganhos aos trabalhadores com a política de valorização do salário mínimo e melhorou as condições de vida dos mais pobres com programas sociais.

Logo, não é a saída mágica de antecipar a eleição presidencial, neste momento, nos marcos desse apodrecido sistema político, que vai nos tirar dessa crise. O que precisamos, de fato, não são mais eleições, mas reformular as regras pelas quais elegemos nossos representantes. Não falar disso é uma postura política irresponsável. Necessitamos de uma profunda e radical reforma política, que não virá desse Congresso.

A nossa presidenta e companheira de gestão da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, afirmou que devemos devolver ao povo o direito de decidir sobre os rumos do país com o plebiscito sobre a antecipação da eleição presidencial.

Nós temos discordância com essa proposta. Em primeiro lugar, porque depois do golpe em curso, que nós estamos combatendo juntos nas ruas, não temos garantia nenhuma de que o mandato do presidente eleito será respeitado.

Em segundo lugar, avaliamos que as regras para a eleição dos nossos representantes não correspondem aos anseios da nossa sociedade, especialmente da juventude.  O processo eleitoral é dominado pelo poder econômico, não há instrumentos efetivos de participação direta e o Estado brasileiro não tem uma estrutura para atender as necessidades do povo brasileiro.

Por isso, defendemos a convocação de uma Assembleia Constituinte para fazer uma profunda reforma do sistema político, da estrutura do Estado, do modelo oligopolizado de comunicação e do Poder Judiciário.

Temos dúvidas também se a maioria do movimento estudantil é simpática à ideia de nova eleição, como disse a companheira Carina. O que vemos entre os estudantes é um grande desinteresse com a política institucional, uma grande desconfiança com os partidos e pouca esperança em transformar o país dentro desse sistema político.

Por outro lado, existe uma adesão expressiva e crescente nas bases estudantis à luta contra o programa neoliberal do governo golpista, que se materializa na palavra de ordem “Fora Temer”, que é, inclusive, o consenso que existe hoje na diretoria da própria UNE e na Frente Brasil Popular.

Talvez essa bandeira seja assumida pelos estudantes, no entanto, ainda não é um fato consumado. Neste momento, é um grave erro político, porque abriríamos mão do mandato que o povo deu a Dilma na eleição e que termina apenas em 2018. Por isso, defendemos abrir um amplo debate com os estudantes nas escolas, cursos técnicos e universidades para discutir a saída para a crise e massificar a mobilização, garantindo a unidade do movimento estudantil na luta pela democracia e pelas reformas estruturais.

A proposta de plebiscito para antecipar a eleição, na nossa avaliação, mais do que inócua, é um verdadeiro tiro no pé. Pois, compromete nosso principal acúmulo construído até aqui: a unidade das forças populares e democráticas contra o golpe, em sintonia com o sentimento da nossa sociedade. Assim, além de enfraquecer nossa luta contra o golpe, essa proposta poderá ser sequestrada por aqueles que já demonstraram lado nessa luta, que poderão aceitar esse acordo para legitimar a ruptura constitucional.

Não duvidamos das boas intenções dos envolvidos, mas a admissão do plebiscito para encurtar o mandato da presidenta Dilma, a partir dessa proposta de setores da esquerda, será a reprodução da velha prática de conciliação pelo alto, típica do modus operandi das elites brasileiras.

Na década de 80, o processo de redemocratização tutelado pelo “centrão”, composto por uma maioria do MDB, fundou uma “Nova República” sem enfrentar as feridas abertas pela ditadura militar. Agora, com a proposta de antecipação da eleição presidencial, a farsa se repetirá como tragédia, porque representará a anistia dos golpistas e a coroação desse mesmo “centrão” que sustenta esse sistema político que foi construído por aqueles que não queriam –  nem querem – perder o poder.


Há algo de podre no reino

 

Vivemos uma sensação generalizada na sociedade brasileira de insatisfação e de indignação com as instituições políticas. Ainda que estejamos passando por um período de acentuada polarização da sociedade, este sentimento perpassa todas as posições do espectro político-ideológico. Emana do dia 16, das manifestações golpistas, contudo, também se materializa no seu polo oposto, o dia 20, nos atos em defesa da Democracia e contra os Ajustes, bem como naqueles que não foram nem em uma, nem em outra manifestação.

Retirada da obra de William Shakespeare, escrita por volta de 1600, a frase “Há algo de podre no reino da Dinamarca” tornou-se uma das sentenças mais marcantes proferida por Hamlet, o herdeiro do trono. Hamlet nauseado com as tramas de poder da sucessão à coroa, que envolveram a morte do pai, por seu irmão, sintetizou nessa frase a angústia e o desprezo com relação ao centro de poder.  Transpondo esta afirmação para outra tragédia, a da política brasileira, poderíamos nos perguntar: de onde exala esse cheiro de podre que é sentido tanto no calçadão de Ipanema quanto em uma quebrada de Itaquer

O esforço da grande mídia tem sido o de dar o tom vermelho e o contorno de uma estrela para essa podridão, traduzindo esse sentimento de insatisfação em repulsa à corrupção. É claro que se trata de uma repulsa seletiva, circunscrita ao PT e aos aliados do governo. As ocorrências de corrupção que envolvem os tucanos, ou mesmo setores empresarias, alguns inclusive vinculados a mídia (como demonstra a operação Zelotes) não fedem, nem cheiram. A construção da imagem do PT como organização criminosa, pela mídia em tabela com setores da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário criou o caldo subjetivo para as manifestações massivas dirigidas por grupos ultra-conservadores, que exigem o Impeachment da Presidenta. Se o que está apodrecendo no reino é o PT, por consequência, a sua extirpação significaria a purificação do sistema político e o restabelecimento dos padrões éticos.

Nada lembraria mais a sórdida Dinamarca de Hamlet do que a derrubada de um presidente recém eleito por uma trama palaciana, como os setores conservadores vem articulando desde o início deste ano. Contudo, o agravamento das condições econômicas do país, aprofundada pela atual política econômica, deixou de ser um discurso entoado pela elite e começou a ganhar materialidade na vida das pessoas. O aumento do custo de vida da população, o desemprego, a diminuição dos ganhos salariais, o corte de investimentos públicos são indicadores sensíveis para a massa da população. O discurso da corrupção seletiva que até então não tinha adesão neste segmento começou a ganhar ressonância, o que se reflete nos atuais índices de popularidade do governo.

Fora levy

Ao mesmo tempo, os setores progressistas da sociedade não deixam de sentir asco olhando para as nossas instituições políticas. Um Congresso dominado pelo lobby empresarial e religioso, que tem uma de suas casas presidida por um gangster da política, Eduardo Cunha.  Um Governo incapaz de implementar o programa pelo qual foi eleito, apesar das concessões expressas na sua composição ministerial. O financiamento empresarial e o pragmatismo político corroendo as agremiações partidárias. Não é por menos que a convocação de um Assembleia Constituinte, tornou-se uma bandeira diante desse sistema político falido.

Nos últimos dias a via do Impeachment como alternativa a crise, parece ter perdido força. Isto não significa que ela saia de cena, mas ficará restrita aos setores conservadores mais radicalizados. A mídia saberá instrumentalizá-los para provocarem um desgaste permanente ao longo do mandato, sem ter que sujar as suas mãos.

Diante disso, outra saída vem sendo gestada como alternativa à crise: a “Agenda Brasil”. O governo permanece, a ordem institucional fica intacta, mas a pauta quem define é o mercado.  A iniciativa política protagonizada por Cunha e sua agenda de reformas conservadora, de regressão de direitos, entra agora em uma nova fase. Impulsionada por Renan Calheiros, entra em curso uma agenda essencialmente econômica, de corte neoliberal, frente a um governo fragilizado e impopular.

Há algo de podre no reino…


Constituinte é a resposta positiva para a saída da crise

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Foto: Winnie Lo

Um ano após o Plebiscito Popular que recolheu quase 8 milhões de assinaturas favoráveis a uma Constituinte do Sistema Político, mais de 800 pessoas de 19 estados e diversos movimentos se reúnem na área externa da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, palco de muitas lutas, resistência e aglutinação de forças do povo mineiro.

O Encontro Nacional e Popular pela Constituinte acontece com o intuito de afirmar a necessária luta pela reforma do Sistema Político reassumindo a bandeira da CONSTITUINTE, num período de fortalecimento do capitalismo, aprofundamento da crise econômica e intensa ofensiva conservadora.

Vários temas serão discutidos durante todo o dia em grupos de debates, entre eles estão os moldes do processo de Constituinte, a metodologia de trabalho com o povo e a construção das Assembleias Populares pela Constituinte.

O principal desafio para massificar a campanha pela CONSTITUINTE é construir uma meta-síntese comum que organize a militância que deseja fazer as reformas centrais necessárias para o pais.


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