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Lutar pela Democracia é defender a educação

Por Jessy Dayane, diretora de políticas educacionais da UNE e militante do Levante Popular da Juventude

Nos últimos 13 anos, vivenciamos um avanço na democratização do acesso ao ensino superior no Brasil que incluiu milhares de jovens através de inúmeras políticas educacionais que ampliaram o número de vagas nas universidades e popularizaram as formas de acesso como: o REUNI; o PROUNI; o FIES; as Cotas sociais e raciais; ampliação dos Institutos federais; Mudança de avaliação de acesso para ENEM/SISU. Através dessas políticas educacionais o número de estudantes na educação superior dobrou, passando de 3,5 para 7,3 milhões entre 2002 e 2013. Apesar da expansão considerável no ensino superior, ainda assim, cerca de 80% dos jovens entre 18 e 24 anos não tem acesso às universidades no Brasil, isso evidencia que a luta pela democratização do acesso ainda permanece sendo um grande desafio para a educação brasileira.

Além dessas políticas, a aprovação do PNE em 2013, através de muita luta do movimento estudantil, garantiu a conquista da vinculação de metade do fundo social do Pré-sal para educação e saúde, sendo 75% dos royalties para educação e 25% para saúde, com objetivo de alcançar o investimento de 10% do PIB na educação. Mesmo com esses avanços que tivemos no último período, muitos desafios ainda estavam colocados para nós. A juventude brasileira estava se colocando em luta contra qualquer retrocesso, como a luta contra os cortes na educação, por garantia de permanência nas universidades e por mais avanços e conquistas nas medidas democratizantes da educação brasileira.

Depois do golpe institucional que o Brasil viveu, todas essas conquistas e avanços estão ameaçados. O programa do governo ilegítimo de Temer já estava anunciado antes mesmo do golpe ser consumado através do documento “Uma ponte para o futuro”, que na verdade representa uma ponte para o passado. Nesse documento, fica muito evidente qual projeto de país e de educação esse governo defende. Nele está proposto a “desvinculação constitucional de gastos com educação e saúde”, desobrigando Município, Estado e União a investir na educação e saúde pública. Assim que o presidente interino assume o governo, começam as declarações de que o Brasil não tem condições orçamentárias de garantir os direitos básicos que estão na nossa constituição.

O novo ministro da educação indicado pelo governo ilegítimo de Temer, Mendonça Filho (DEM-PE), tem na sua história as marcas da defesa de uma educação privatista e enfraquecimento da educação pública. O seu partido ingressou com uma ação no STF para pedir o fim da política de cotas, assim como também se posicionou contrário ao PROUNI, ao FIES e à destinação dos royalties para educação. Além da posição antipopular do seu partido em relação à educação brasileira, a experiência do próprio Mendonça Filho enquanto governador de Pernambuco foi de implementação de um projeto “experimental” de privatização das escolas estaduais e da incidência de empresas privadas reunidas no Instituto de Corresponsabilidade pela Educação (ICE) que indicavam os gestores e selecionavam os estudantes.

Em poucos dias à frente da gestão do MEC, Mendonça Filho já demonstra qual projeto de educação pretende implementar, se pronunciando em defesa do pagamento de mensalidades nas universidades públicas para cursos de extensão e pós-graduação e recebendo Alexandre Frota com suas “contribuições” para educação brasileira na defesa do “fim da ideologia política e de gênero” nas escolas, um ataque profundo que limita o ato de ensinar e aprender, e distorce o papel da educação. Essa proposta retrógrada recebeu duras críticas de amplos setores da sociedade, especialmente dos educadores que pensam a educação no Brasil. Além de ser um evidente inimigo da educação pública e voltada para os mais pobres no Brasil, o atual ministro da educação é um corrupto citado nas operações Lava Jato e Castelo de Areia.

Nesse momento precisamos intensificar a luta pela educação pública nas ruas, assim como engrossar as fileiras da luta pela democracia, contra esse governo ilegítimo. A cada dia a farsa do golpe vai sendo revelada ao povo brasileiro, com ministros indicados pelo governo golpista caindo toda semana por envolvimento com atos de corrupção, com as notícias de ataques aos programas sociais e com a ameaça de privatização do patrimônio brasileiro. Lutar pela democracia e defender a educação brasileira são duas faces da mesma moeda, não haverá educação pública, gratuita, de qualidade e popular, nem tampouco avançaremos para uma educação com caráter emancipatório se o Brasil continuar nas mãos de ratos golpistas.

Por isso, nós estudantes devemos fortalecer a construção de comitês em defesa da democracia nas universidades e escolas, construir assembleias populares que denunciem as reais intenções do golpe e que debatam propostas de ações para combater o intento golpista conservador. É tempo de construir ocupações, paralisações e greves da educação, é tempo de parar o Brasil em defesa dos nossos direitos. É tarefa da juventude, realizar ações de panfletagens e lambes, além de utilizar linguagens e formas criativas de diálogo como o teatro, a dança, a música e os murais, para ampliar ao máximo a denúncia do golpismo que além de ferir nossa democracia, ameaça nossos direitos conquistados historicamente. Lutar contra os retrocessos que estão sendo impostos à juventude brasileira é nossa missão, resistiremos a esse golpe com ousadia, alegria e ação direta.


Acordo para antecipar a eleição presidencial é um verdadeiro tiro no pé

Por Thiago Pará, secretário-geral da UNE e dirigente do Levante Popular da Juventude

Os movimentos populares, organizações políticas e partidos de esquerda que estão à frente da luta contra o golpe travestido de impeachment, fazem um amplo debate sobre a saída da crise que devemos apontar para a sociedade brasileira.

Duas posições se evidenciaram nesse debate.  Uma proposta é fortalecer a luta contra o golpe, pelo “Fora Temer” e contra a retirada dos diretos dos/as trabalhadores/as pelo governo ilegítimo até o fim do processo no Senado. A outra proposição supõe que é possível derrotar o impeachment e conseguir o número necessário de senadores se a presidenta Dilma Rousseff fizer o compromisso de apoiar a convocação de um plebiscito para consultar a população sobre a antecipação da eleição presidencial.

Os argumentos levantados por aqueles/as que defendem a segunda posição é de que a presidenta Dilma já não teria mais “condições políticas” de voltar a governar o país. Afinal, seus índices de popularidade são baixíssimos e existe um Congresso Nacional que inviabiliza sua gestão.

Além disso, esses setores da esquerda acreditam que os senadores irão mudar seu voto se for apresentada uma “proposta republicana”, no caso, a antecipação da eleição.

A questão é que, em primeiro lugar, a popularidade de Dilma é baixa justamente porque –  na tentativa de conciliação com as forças que vieram a apoiar o golpe – aplicou um ajuste econômico de natureza neoliberal, cobrando a fatura do povo brasileiro, com cortes de direitos, dos programas sociais e dos investimentos em saúde e educação.

Com isso, o governo ajudou a pavimentar o caminho do golpe, com a perda de apoio das camadas populares, que a reelegeram em 2014 com a promessa de implementação de um programa avesso ao aplicado pelo ministro Joaquim Levy.

Em segundo lugar, a inviabilidade que esse Congresso impõe à Dilma será compelido a qualquer governo progressista. Não se trata apenas de uma “antipatia à Dilma”, como simplificam alguns, mas dos interesses políticos de classe que determinam tal oposição.

Por fim, deve-se questionar: será que essa “proposta republicana” tem mesmo condição de reverter os votos dos senadores “indecisos”?

Será que eles estão preocupados com o país ou com tão somente seus interesses pessoais?

Quem são e por que esses senadores já não vieram a público apresentar essa saída da antecipação das eleições?

Até o mundo mineral sabe que, neste momento, eles estão no balcão de Temer, apreciando as “ofertas”, e farão o mesmo com os interlocutores de Dilma Rousseff.

O que a presidenta precisa fazer é escrever uma carta à Nação para apresentar qual programa e ao lado de quais forças sociais estará se reconquistar o governo. Em nossa opinião, Dilma deve adotar as linhas programáticas apresentadas pela Frente Brasil Popular, que aponta para as reformas estruturais.

Defendemos acabar com a farra dos bancos, diminuindo a taxa de juros; responsabilizar os mais afortunados pela crise, taxando lucros,  dividendos, herança, fortuna e riqueza; retomar a construção de moradia popular; acelerar o programa de reforma agrária popular; ampliar as universidades públicas para atender à demanda da juventude, entre outras medidas.

O nosso sistema político é uma herança maldita da ditadura militar, sendo conformado para atender os poderosos de sempre e só dá “condições políticas” para governar àqueles que atendem seus interesses. Não foi a Dilma que perdeu condições políticas de governar, mas o programa neodesenvolvimentista que se esgotou no quadro da crise mundial do capitalismo, bloqueando qualquer inclinação popular do governo sem enfrentar os interesses do grande capital.

Com a crise econômica global e o acirramento da luta de classes, não é possível reproduzir aquele modelo de “ganha-ganha” que garantiu altas taxas de acumulação do grande capital, conferiu ganhos aos trabalhadores com a política de valorização do salário mínimo e melhorou as condições de vida dos mais pobres com programas sociais.

Logo, não é a saída mágica de antecipar a eleição presidencial, neste momento, nos marcos desse apodrecido sistema político, que vai nos tirar dessa crise. O que precisamos, de fato, não são mais eleições, mas reformular as regras pelas quais elegemos nossos representantes. Não falar disso é uma postura política irresponsável. Necessitamos de uma profunda e radical reforma política, que não virá desse Congresso.

A nossa presidenta e companheira de gestão da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, afirmou que devemos devolver ao povo o direito de decidir sobre os rumos do país com o plebiscito sobre a antecipação da eleição presidencial.

Nós temos discordância com essa proposta. Em primeiro lugar, porque depois do golpe em curso, que nós estamos combatendo juntos nas ruas, não temos garantia nenhuma de que o mandato do presidente eleito será respeitado.

Em segundo lugar, avaliamos que as regras para a eleição dos nossos representantes não correspondem aos anseios da nossa sociedade, especialmente da juventude.  O processo eleitoral é dominado pelo poder econômico, não há instrumentos efetivos de participação direta e o Estado brasileiro não tem uma estrutura para atender as necessidades do povo brasileiro.

Por isso, defendemos a convocação de uma Assembleia Constituinte para fazer uma profunda reforma do sistema político, da estrutura do Estado, do modelo oligopolizado de comunicação e do Poder Judiciário.

Temos dúvidas também se a maioria do movimento estudantil é simpática à ideia de nova eleição, como disse a companheira Carina. O que vemos entre os estudantes é um grande desinteresse com a política institucional, uma grande desconfiança com os partidos e pouca esperança em transformar o país dentro desse sistema político.

Por outro lado, existe uma adesão expressiva e crescente nas bases estudantis à luta contra o programa neoliberal do governo golpista, que se materializa na palavra de ordem “Fora Temer”, que é, inclusive, o consenso que existe hoje na diretoria da própria UNE e na Frente Brasil Popular.

Talvez essa bandeira seja assumida pelos estudantes, no entanto, ainda não é um fato consumado. Neste momento, é um grave erro político, porque abriríamos mão do mandato que o povo deu a Dilma na eleição e que termina apenas em 2018. Por isso, defendemos abrir um amplo debate com os estudantes nas escolas, cursos técnicos e universidades para discutir a saída para a crise e massificar a mobilização, garantindo a unidade do movimento estudantil na luta pela democracia e pelas reformas estruturais.

A proposta de plebiscito para antecipar a eleição, na nossa avaliação, mais do que inócua, é um verdadeiro tiro no pé. Pois, compromete nosso principal acúmulo construído até aqui: a unidade das forças populares e democráticas contra o golpe, em sintonia com o sentimento da nossa sociedade. Assim, além de enfraquecer nossa luta contra o golpe, essa proposta poderá ser sequestrada por aqueles que já demonstraram lado nessa luta, que poderão aceitar esse acordo para legitimar a ruptura constitucional.

Não duvidamos das boas intenções dos envolvidos, mas a admissão do plebiscito para encurtar o mandato da presidenta Dilma, a partir dessa proposta de setores da esquerda, será a reprodução da velha prática de conciliação pelo alto, típica do modus operandi das elites brasileiras.

Na década de 80, o processo de redemocratização tutelado pelo “centrão”, composto por uma maioria do MDB, fundou uma “Nova República” sem enfrentar as feridas abertas pela ditadura militar. Agora, com a proposta de antecipação da eleição presidencial, a farsa se repetirá como tragédia, porque representará a anistia dos golpistas e a coroação desse mesmo “centrão” que sustenta esse sistema político que foi construído por aqueles que não queriam –  nem querem – perder o poder.


[PAPO RETO] NENHUM MINUTO DE SOSSEGO PARA UM GOVERNO GOLPISTA!

Na última semana o golpe da elite contra o povo brasileiro deu passos largos. Foram várias as notícias com os pacotes de medidas conservadoras e ataques aos direitos sociais do ilegítimo governo golpista de Temer. Direitos conquistados com muita luta ao longo dos últimos 30 anos. O momento, apesar de gerar apreensão na juventude organizada, é muito didático para compreender e impulsionar a luta por um Projeto Popular para o Brasil.

Nosso grande militante e sociólogo Florestan Fernandes afirmou que nossa burguesia é autocrática. Essa palavra de difícil compreensão está materializada da maneira muito explicita com esse processo golpista. A elite brasileira não aceita a participação popular nas decisões políticas nem tampouco aceita uma mínima ascensão social da classe trabalhadora. Tem sido assim ao longo de toda a história do Brasil. Para a burguesia brasileira o essencial é manter suas vantagens individuais em se associar de maneira subordinada às burguesias estrangeiras (em especial às dos Estados Unidos). Utiliza de todos os artifícios para manter a classe trabalhadora subordinada, em especial executando uma política econômica que mantenha altas taxas de desemprego e uma política de repressão à todas as manifestações contrárias aos seus desmandos. Para isso, conta com o apoio da mídia golpista (em especial da rede globo) para construir um discurso ideológico de legitimação das suas atrocidades e com o apoio de boa parte do judiciário que tenta dar um verniz de legalidade em suas ações.

Esta é a imagem do ilegítimo governo Temer: corruptos comandando ministérios, juízes tomando decisões completamente parciais a exemplo de Gilmar Mendes e Sérgio Moro e propostas políticas para retirar direitos dos trabalhadores. Contando ainda com a cobertura midiática para apagar a imagem de crise tentando fazer a população acreditar que agora tudo vai bem, o problema era a Dilma e o PT. Eis a autocracia burguesa, a autocracia das elites brasileiras. Uma elite branca, com ódio da classe trabalhadora, homofóbica, racista e machista. Estas elites que estão entranhadas nas instituições estatais e não tem vergonha nem escrúpulos de assassinar a democracia aos olhos de todos. Deixam nítido o que pensam do povo: “não pense em crise, trabalhe”, no melhor estilo senhor de escravos.

Para responder aos seus financiadores internacionais os golpistas de Temer terão que implementar várias medidas de ataque aos direitos dos trabalhadores. Embora façam malabarismo com as palavras não conseguem esconder: “Teremos que incentivar de maneira significativa as parcerias público privadas…”; “Sabemos que o Estado não pode fazer tudo” (trechos do discurso de Temer quando tomou posse do governo ilegítimo). Argumentos retóricos (apenas da boca pra fora) para trazer novamente o discurso do Estado mínimo neoliberal: mínimo para a classe trabalhadora e para investimentos em programas sociais e máximo para injetar dinheiro na iniciativa privada, no bolso da própria elite e de seus ‘chefes’ internacionais.

Por isso mais que nunca deve ganhar força a luta pela construção do Projeto Popular para o Brasil. Este Projeto, defendido pelos movimentos sociais populares e partidos de esquerda, é baseado na impossibilidade do discurso formal das elites virar realidade: um país de igualdade para todos. Para que tenhamos um país justo, um país onde todos e todas possam participar e ter acesso à educação, saúde, trabalho digno, moradia, terra, é preciso que as riquezas sejam socializadas tendo no Estado seu elemento planejador. Mas não esse aparato estatal criado e dominado pela burguesia e  pelas elites brasileiras. Um Estado construído a partir das lutas e demandas populares, principalmente por participação nas decisões políticas. A força das elites está em justamente impedir a participação popular nas grandes decisões do país, pra onde vai o dinheiro, qual a prioridade de investimento, descentralização de poder para combater os coronéis modernos, etc.

Nos últimos 14 anos, mesmo com todas as contradições dos governos do PT avanços foram realizados e vivenciados pela classe trabalhadora. Nós, jovens, já nascemos e crescemos sob a vitória dessas conquistas, acesso à educação, democratização das universidades, fim da miséria absoluta, conquistas de direitos das mulheres, direitos LGBTs, direitos trabalhistas, entre outros. É nesses direitos que o governo golpista terá que mexer para levar a cabo seu projeto privatizante de vender o Brasil. E nós, juventude da classe trabalhadora, seremos uma pedra no sapato dos golpistas. Não aceitamos um governo ilegitimo nem aceitaremos retrocessos e ataques aos nossos direitos.

O principal agora é organizarmos e impulsionarmos a resistência, de maneira unitária, com toda a classe trabalhadora. E um elemento fundamental é que muita gente, jovens e companheiros/as de luta que não estão em nenhuma organização, está disposta a se mobilizar contra o golpe. Então não basta manifestações virtuais (que são importantes). Precisamos organizar atos, debates, equipes de agitação e propaganda para que esse governo ilegítimo não tenha um minuto de sossego! É preciso estimular todos aqueles contrários ao golpe a se por em movimento. Como diria nosso grande lutador do povo brasileiro Carlos Marighella, “é preciso ir a ação”! Assim como a aguerrida juventude lutou durante a ditadura, nós lutaremos pela democracia e pelos nossos direitos. Só o povo pode definir os rumos da nação, não uma duzia de golpistas.

Por fim vale uma reflexão. O que esses anos de governo do PT nos ensinaram é que não se pode “servir a dois senhores”, ou se constrói um projeto de nação que rompa com os limites de um capitalismo (e de uma burguesia) dependente ou a nação e o povo brasileiro ficará sempre a mercê dos desmandos dessa elite golpista.

 


A JUVENTUDE E A LUTA PELA DEMOCRACIA

O golpe de Estado que está em curso no Brasil está recolocando em pauta um tema central para o futuro do país: a questão da democracia.

Na história da América Latina há uma disputa acirrada em torno dessa ideia. De um lado estão aqueles que entendem democracia como o “governo do povo e para o povo” (democracia social) que compreendem a participação democrática como a busca de caminhos para resolver os grandes problemas nacionais, a luta contra as desigualdades, a livre organização e a mobilização nas ruas. Do outro lado, estão aqueles que querem reduzi-la a um conjunto de “regras que permitem a disputa entre elites” (democracia conservadora), buscam o fortalecimento dos instrumentos de repressão, a participação política restrita ao voto, a criminalização da luta social e a manutenção da ordem desigual. Os defensores da democracia conservadora argumentam que o sistema democrático deve ser neutro, não deve favorecer nenhum grupo.

O golpe que ocorre agora é uma grande oportunidade para colocar em xeque o mito de que a democracia pode ser esvaziada de seu conteúdo social. Nada mais falso. Na verdade não há nenhum sistema neutro, destituído de interesses e que não esteja a serviço de alguma classe. Com seu discurso de neutralidade, o que a burguesia deseja é blindar a democracia das “perturbações populares”. No entanto, o caminho que pode tornar isso possível, o golpe, é extremamente ambíguo e mostra as fragilidades da concepção conservadora da democracia, uma vez que fica muito difícil esconder a verdadeira face autoritária da elite no poder. Golpistas é o que são, e a juventude tem denunciado insistentemente esse fato.

Ocasionalmente na história da América Latina, a eleição para a Presidência da República abriu brechas para que as forças populares impusessem a sua própria pauta no cenário político nacional. Foi isso o que ocorreu com muitos presidentes a exemplo de Salvador Allende, eleito no Chile em 1970 e Fernando Lugo, eleito no Paraguai em 2008. A classe trabalhadora percebeu que aquela era a oportunidade de colocar em pauta um programa de transformação social. Já as elites viam que o perigo era a intensificação do processo de organização e reivindicação da classe trabalhadora. Não por acaso esses dois governos foram derrubados por meio de golpes de Estado. O mesmo ocorre agora com a presidenta Dilma.

A formulação mais clara da concepção elitista de democracia foi expressa pela ideia de “populismo”. O medo da participação popular levou as elites a combaterem os presidentes “populistas”, pois representavam uma ameaça à democracia conservadora. Para a burguesia, os presidentes considerados “populistas” são aqueles que ficam próximos demais do povo, ou tem origem popular, o que pode levar a perturbação da “ordem” democrática. Por que pensam assim? Porque para as elites, presidentes desse tipo podem chegar a ter apoio popular “demais” e com isso conquistar um poder que permita a realização de mudanças estruturais, como a distribuição de renda, o controle do capital financeiro, a reforma agrária, o combate à especulação imobiliária… Sendo assim, todos os golpes de Estado que ocorreram na América Latina, como o que agora estamos presenciando, foram principalmente golpes preventivos, golpes que buscam evitar que os governos se tornassem muito populares e fortes o bastante para realizar reformas significativas.

Cinicamente, as elites sempre deram esses golpes em nome da defesa da democracia. O mesmo está ocorrendo agora quando o Congresso Nacional passa a ideia de que a Presidenta é uma criminosa e de que o impeachment interessa ao povo. Não há nada mais falso e cínico que isso. Mas também não há nada mais perigoso para nós. O próximo passo deles será o de consolidar a ideia de que continuamos em plena normalidade democrática, que o sistema político está consolidado, que o país vai bem e que o Congresso Nacional teve a sabedoria de limpar a democracia brasileira da ameaça populista! Portanto, se permitirmos que a elite se aproprie da ideia de democracia, perderemos o principal meio de luta que conquistamos. É por isso que, inevitavelmente, a luta contra o golpe e a defesa da Presidenta Dilma está diretamente ligada à nossa luta. Porque de fato nós é que somos os principais alvos dos golpistas.

A disputa em torno do significado da democracia se tornará estratégica para o futuro do povo brasileiro. Mais isso não se fará sem disputar o conteúdo social por detrás do processo democrático. A nossa vantagem, nesse momento, é que os golpistas não têm como esconder a sua face autoritária. E é aí que temos mais chances de denunciar o caráter antidemocrático da burguesia e de colocar em pauta a democracia como governo do povo e para o povo. Com certeza, a juventude que se levantou contra o golpe terá clareza de que essa luta apenas começou.

 


[PAPO RETO] De cabeça erguida, gritamos: ou para o golpe ou paramos o Brasil!

Por Palmares, por Canudos, pelo Levante Negro da Revolta dos Malês, por Eldorado do Carajás, por Negra Zeferina e por Olga Benário, não vamos baixar nossas cabeças. Pelo contrário, o momento é difícil e por este motivo temos que beber na fonte dos nossos ancestrais para alimentar a nossa mística, resistir e avançar na luta. A vida nunca foi fácil para a classe trabalhadora, para o povo brasileiro, para os negros e negras, para os LGBT, Sem-Teto e Sem-Terra. A nossa luta é histórica e nesse momento perdemos uma importante batalha. Mas, com toda certeza do mundo podemos afirmar que não perdemos a guerra. Temos um mundo pela frente recheado de batalhas e muita luta. Não podemos esquecer que nesta mesma data da aprovação do Impedimento da Presidenta Dilma ocorreu há 20 anos atrás, outro golpe na classe trabalhadora. O Massacre de Eldorado dos Carajás como ficou conhecida e até hoje impune reflete o caráter genocida das elites brasileiras.

Se calarmos até as pedras gritarão!

Está nítido que aquele ‘show de horrores’ no último domingo (17/04/16) não se resume simplesmente a uma luta partidária. É bem verdade que os partidos da direita mostraram abertamente o quanto são golpistas, conservadores e que odeiam o povo brasileiro. Porém, esses partidos e indivíduos desprezíveis estão representando seus próprios interesses, pois, são parte da elite. A guerra é contra os setores da burguesia que se unificaram para tentar destruir as conquistas sociais, os direitos trabalhistas, fazer uma reforma da previdência para ampliar a idade da aposentadoria, além de tentar destruir os movimentos sociais e organizações da esquerda. São elas, a Fiesp, CNA e CNI entre outras organizações patronais, além da burguesia internacional imperialista que estão de olho nos nossos recursos naturais, sobretudo o pré-sal. A Rede Globo que tem o golpismo em seu DNA atua como o principal porta-voz desses setores da burguesia interna e internacional.

Perdemos a batalha na votação no congresso, porém, ganhamos nas ruas e isso não é pouca coisa. Tem muitos anos que não vemos as ruas tão cheias, com uma ampla unidade dos movimentos sociais, partidos, coletivos e organizações sindicais. Ganhamos nas universidades, os artistas desse país estão se colocando em luta, os juristas, as torcidas organizadas e muitos outros virão e ampliarão as fileiras da luta. Estamos reascendendo a chama da classe trabalhadora, revivendo períodos de grande mobilização de base e transformando em luta de massas. O entendimento que devemos compartilhar é que só através da luta de massas conquistaremos a vitória.

As declarações dos parlamentares que votaram SIM ao Golpe, além de desrespeitar a Constituição e a Democracia, revelam um profundo ódio ao povo Brasileiro. Exemplo disso foram as declarações do Deputado Bolsonaro, que homenageou no momento de seu voto o torturador e assassino Brilhante Ustra, capataz da Ditadura Militar no Brasil. Esse e outros deputados golpistas tiraram a máscara e pedagogicamente contribuiu para que o povo entendesse os limites do parlamento e daqueles que votaram SIM ao Golpe, contra o Brasil e contra o povo Brasileiro.

O povo Brasileiro está indignado com tamanha aberração dos golpistas. O papel da juventude é colocar gasolina nessa indignação, escrachando todos aqueles que votaram pelo golpe e contra o povo brasileiro. É dever de cada lutador e lutadora denunciar esses golpistas e revelar o lado que estão. O corrupto Eduardo Cunha deveria estar preso e não poderia ter conduzido o processo de impedimento de uma presidenta eleita democraticamente e sem nenhum crime de responsabilidade. Precisamos revelar que o plano do conspirador Temer é vender o Brasil e destruir os direitos trabalhistas e sociais.  Sabemos que eles têm a grande mídia golpista. Porém, eles não têm as ruas. A rua é nossa, a rua é do povo e a verdade dessa história estamos revelando quando permanecemos mobilizados. Estamos ampliando cada vez mais a nossa luta e a tendência é aumentar cada vez mais. Precisamos construir o maior 1º de maio da história desse país e mostrar para as elites e para os golpistas que os trabalhadores vão parar o país e mandar assim um claro recado para o senado: Ou para o Golpe ou paramos o Brasil!

Viveremos e Venceremos!!!

Papo-reto


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