Sapatonas convictas a derrotar a extrema direita.

“[…] uma nova onda conservadora que toma conta do Brasil desde a eleição que elegeu Jair Bolsonaro. No entanto, a LGBTI+fobia não nasce com o bolsonarismo, nasce com o surgimento da propriedade privada no capitalismo.”

Bolsonaro, em 2018, passou a ser mais conhecido na política nacionalmente, apesar de ser parlamentar há 30 anos, a partir da propagação da fake news de que o Governo de Lula e Dilma, em seus anos de gestão, propagaram um “kit gay” nas escolas públicas, com o projeto Escola Sem Homofobia, idealizado pelo Ministério da Educação (MEC), o qual pretendia realizar formações de educadores para tratar questões de gênero e sexualidade. A perseguição foi tanta, que o Governo Federal cancelou a publicação.

Imagem: Governo Federal

Em setembro de 2023, Karol Eller, influenciadora lésbica de extrema direita, apoiadora de Bolsonaro, participou de um retiro para a “cura gay” em uma igreja evangélica. Ali, ela disse ter renunciado à prática homossexual e aos vícios e desejos da carne. Dias depois, ela foi encontrada morta, com uma “carta de despedida”, afirmando que havia “perdido a guerra”, se referindo à prática homossexual. 

Foto: Reprodução/Instagram
Karol Eller, com Eduardo Bolsonaro. 

Esses dois fatos são a expressão de uma nova onda conservadora que toma conta do Brasil desde a eleição que elegeu Jair Bolsonaro. No entanto, a LGBTI+fobia não nasce com o bolsonarismo, nasce com o surgimento da propriedade privada no capitalismo. Para garantir que a posse da terra se mantivesse no sobrenome da mesma família, era necessário apenas relações afetivas que reproduzissem herdeiros e força de trabalho, ou seja, que mulheres apenas se relacionassem com homens. E não poderiam ser vários homens, mas apenas um, para ter a certeza de que a herança seria legítima. Assim, nasce a heterossexualidade e a monogamia.

Para isso se consolidar de forma hegemônica em nossa sociedade, o Estado, a Igreja e a Medicina foram fundamentais. O Estado criminalizou quaisquer relações que não fossem as heterossexuais. A Igreja transformou em pecado. E a Medicina diagnosticou como doença. E a partir disso, a heterossexualidade foi se tornando a norma. 

Em uma sociedade patriarcal, a heterossexualidade não é só uma orientação sexual, mas uma ferramenta de controle, uma forma de manter a supremacia masculina, um instrumento de poder do patriarcado, um regime político. Por meio da hiper-romantização das relações heterossexuais, sejam elas afetivas, amorosas e sexuais, a mulher é levada a construir toda a sua vida em torno de homens. Por isso dizemos que ser lésbica é revolução, por que é uma posição política que contrapõe a norma social da qual as nossas vidas foram historicamente submetidas, de modo que coloque no centro da nossa prioridade relacional as mulheres, são elas o alvo do nosso afeto, da nossa atenção, etc.

Entendido isso, o que vemos hoje é a retomada dessa simbiose entre a Igreja e o Estado para controlar nossa sexualidade. Líderes evangélicos, articulados em torno da chamada “bancada evangélica” e de uma poderosa rede midiática, aliaram-se ao projeto de Jair Bolsonaro. Essa aliança significou a captura de estruturas do Estado, juntamente com a Igreja, para a promoção de uma agenda misógina e LGBTI+fóbica.

Foto: David Ribeiro/Agência Câmara

Parlamentares católicos e evangélicos da extrema direita passaram a disputar o controle da moralidade privada, combater os movimentos feministas e LGBTI+, barrar os direitos sexuais e reprodutivos e as políticas de gênero no Congresso Nacional, cujo ápice se deu pela criação do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e o desmantelamento de políticas voltadas para a comunidade LGBTI+.

Esse cenário demonstra pra nós, a centralidade da luta institucional dentro da luta política mais geral. Nas eleições gerais de 2022, o levantamento do programa Voto com Orgulho da Aliança Nacional LGBTI+ registrou a eleição de apenas 6 parlamentares lésbicas em âmbitos federal e estadual no Brasil, que elegem no total 513 pessoas para este cargo. Já este ano, candidaturas de pessoas bissexuais, gays, lésbicas, trans, assexuais e pansexuais representam 2,35% (407 candidaturas) do total de registros, segundo dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), destas, 86 candidaturas são de mulheres que se declararam lésbicas.

Esse cenário não deve ser visto de forma fatalista, afinal, apesar da sub-representação, a cada eleição cresce o número de mulheres lésbicas no parlamento e a influência das lesbofeministas nos movimentos sociais de esquerda no Brasil. 

Se a extrema direita está articulada em torno de um projeto misógino e LGBTI+fóbico, e somos nós, as mulheres lésbicas um dos principais alvos dessa violência, é fundamental que sejamos nós também as que disputemos esses espaços de poder, e sobretudo, disputemos projetos políticos que reconheçam nossa forma de se relacionar e viver como estratégicas para a derrota do capitalismo e do patriarcado. Seremos nós, as mulheres, as sapatonas convictas, caminhoneiras, fanchas que derrotaremos a extrema direita nas urnas e nas ruas este ano.

Ana Carolina Keil – Coordenação Nacional do Levante 

Pam Medeiros- Coordenação Nacional do Levante

Maria Clara Macedo – Coordenação Estadual do Levante São Paulo