Superar o capitalismo passa por acabar com a LGBTI+fobia

A forma como escrevemos e lemos a história não é neutra, ela é produzida no interior das disputas materiais da sociedade. A narrativa histórica hegemônica foi intencionalmente conformada por uma classe dotada de poder material e influência ideológica, orientada por seus próprios interesses de reprodução social. A classe que detém os meios de produção material tende também a controlar os meios de produção intelectual. Sob essa lógica, determinados temas, sujeitos e contradições foram historicamente desqualificados ou reduzidos à invisibilidade política.

Diante disso, cabe uma questão fundamental: a luta que construímos hoje, enquanto pessoas negras, indígenas, mulheres e LGBTI+ é, por si só, capaz de nos constituir como  jovens revolucionários?

A resposta exige honestidade política. Se as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante, então nós, jovens militantes de esquerda, não podemos cair na ilusão de que estamos automaticamente imunes à influência ideológica da burguesia.

O capitalismo demonstrou, historicamente, notável capacidade de absorção e reconfiguração das contradições que emergem em seu interior. Mesmo pautas que confrontam valores patriarcais, racistas ou heteronormativos podem ser incorporadas pela lógica neoliberal desde que não questionem a estrutura fundamental da exploração. Em outras palavras, o sistema pode tolerar e até mercantilizar determinadas formas de diversidade da nossa comunidade, desde que a ordem de classes permaneça intacta e gere lucro.

É nesse ponto que a centralidade do trabalho se impõe como categoria estratégica para o pensamento revolucionário. A questão da comunidade LGBTI+ não pode ser apreendida exclusivamente por uma perspectiva identitária, isto é, como se estivéssemos tratando apenas de um agrupamento social portador de marcadores culturais específicos que luta contra formas particulares de opressão. Uma leitura restrita à identidade, dissociada da totalidade das relações materiais, não garante a superação efetiva de nossas contradições.

Ao contrário, quando descolada da luta de classes, a política identitária corre o risco de reforçar a fragmentação da classe trabalhadora, substituindo a construção da unidade política pela atomização das lutas. E uma classe fragmentada possui menor capacidade de enfrentar estruturalmente o capitalismo-patriarcado-racismo.

Isso não significa abandonar as lutas contra LGBTI+fobia, racismo ou machismo, tampouco relegá-las a um plano secundário. Significa compreender que tais opressões são imbricadas, em forma de um nó, dentro da própria sociabilidade capitalista, compondo mecanismos concretos de intensificação da exploração, hierarquização e divisão da classe trabalhadora, estamos falando portanto, de um estrutura de dominação e exploração chamada patriarcado-racismo-capitalismo.

Por essa razão, nossa luta deve atravessar a totalidade da realidade material! Somente ao articular as opressões específicas com a estrutura geral da luta de classes podemos contestar o sistema em sua totalidade. A libertação da população LGBTI+, assim como a emancipação das mulheres e da população negra e indígena, não será plenamente alcançada pela mera inclusão subordinada na ordem burguesa, mas pela superação histórica das relações sociais que continuamente reproduzem opressão e exploração.

Ser revolucionário, portanto, não consiste apenas em resistir à opressão imediata, mas em desenvolver consciência política capaz de transformar lutas particulares em práxis revolucionária. Portanto, a luta LGBTI+ precisa vir combinada da luta anticapitalista, antirracista e antipatriarcal, já que só seremos totalmente livres se destruirmos essa estrutura de dominação e exploração que se retroalimenta, cujo objetivo fundamental é ampliar suas taxas de lucro. 

Enquanto para nós, temos como finalidade, a vida plena para todas as pessoas, e para isso se materializar, só combinando o conjunto da diversidade da classe trabalhadora em torno de um projeto comum, que chamamos de Projeto Popular para o Brasil. Nesse período eleitoral, de disputa entre um projeto conservador de morte, apresentamos o “Brasil nas Mãos da Juventude”, uma plataforma de participação popular para que o povo opine e dê suas propostas. Vem com o Levante construir um Brasil dos nossos sonhos!

Pam Medeiros, Setor de Diversidade Sexual e de Gênero do Levante Popular da Juventude.