Apesar de Trump e da FIFA, o futebol é do povo!

A copa do mundo tem sido usada como instrumento de poder do imperialismo e de lucro do mercado.

Imagine um amontoado de crianças na rua. As que vão pro gol aproveitam e usam os próprios sapatos como traves improvisadas, qualquer objeto redondo pode ser a bola e o juiz, geralmente, não existe. A brincadeira começa e a gritaria também, cada drible gera euforia, e cada gol vira um momento de disputa: a bola passou dentro ou por fora do espaço delimitado pelos sapatos?

Essa é a imagem que queremos conversar nas nossas memórias do que significa futebol mas, infelizmente, nos deparamos com a realidade de um mercado que descaracteriza esse legado e memória em prol do lucro. Anualmente, o mercado de futebol mundial movimenta cerca de US$ 174 bilhões – e esse cenário nem sempre foi assim. Muito antes da criação do ‘futebol medieval’, na Inglaterra, segundo pesquisas históricas e antropológicas, há registros milenares da prática de chutar uma bola. A origem mais remota identificada por pesquisadores está no Ts’u-chü, jogo praticado na China entre 2.500 a.C. e 3.000 a.C., no qual soldados usavam os pés para impulsionar uma bola de couro recheada de penas por uma pequena abertura. Em nosso continente, povos maias e astecas praticavam jogos rituais com bolas pesadas de borracha, carregadas de forte simbolismo cosmológico.

O futebol, portanto, não é apenas um esporte ou uma competição entre atletas de alto padrão. Antes disso, é uma prática que expressa lazer, comunidade, socialização e pertencimento. Esse sentido de coletividade, no entanto, tem sido progressivamente apagado pela mercantilização do esporte, especialmente pela FIFA, que detém o monopólio sobre a organização e a comercialização dos direitos de transmissão e publicidade da Copa do Mundo – alguns exemplos disso são os momentos como a “pausa para hidratação” como espaços para publicidade. Assim, em consonância com o movimento do capital, vemos uma lógica de mercado que frequentemente beneficia governos que adotam políticas questionáveis ou violam direitos humanos.

Um exemplo na nossa história é o título da Copa de 1970, no México, usado pelo presidente Emílio Garrastazu Médici para promover o ufanismo e tentar encobrir o período mais violento e repressivo da ditadura militar brasileira. A mesma estratégia foi adotada em 1978, quando o torneio foi sediado (e vencido) pela seleção argentina enquanto o país vivia sob a sangrenta ditadura de Jorge Rafael Videla. O regime explorou o sentimento nacionalista para ocultar violações de direitos humanos, campos de concentração e o desaparecimento de opositores.

A partir desse histórico e dos acontecimentos recentes na atual edição da Copa do Mundo, fica evidente o abismo entre o discurso da FIFA e sua prática. A entidade tem servido de instrumento para decisões geopolíticas conforme os interesses de seus aliados: ao iniciar a guerra contra a Ucrânia, a Rússia foi banida das competições; já Israel em meio a uma ofensiva militar que organismos internacionais classificam como genocídio e os EUA, que sediam o torneio, seguem participando normalmente, sem qualquer sanção.

Antes mesmo da Copa começar, ficou evidente o anseio dos EUA em transformar esta edição em uma demonstração de força e imposição ideológica. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan teve o visto negado sem qualquer justificativa. Delegações de Senegal e Uzbequistão foram submetidas a inspeções minuciosas com detectores de metal e cães farejadores logo após o desembarque, gerando revolta e protestos. O atacante iraquiano Aymen Hussein, principal estrela de sua seleção, foi detido e interrogado por quase sete horas no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago. E, no caso mais absurdo, a delegação iraniana sequer pode dormir em solo americano e tem sido obrigada a se concentrar no México e a viajar de ida e volta no mesmo dia para disputar suas partidas nos EUA.

Essas decisões são nitidamente racistas, xenofóbicas e arbitrárias, escancararam tanto o papel tendencioso da FIFA quanto o desespero dos EUA em impor sua própria visão de humanidade, definindo quem são as “pessoas certas” para entrar no país. A definição veio do próprio Trump, ao ser questionado sobre a recepção de turistas para a Copa do Mundo.

O que estamos assistindo não é apenas uma Copa do Mundo. Vemos a FIFA guardando um silêncio seletivo que se mantém diante de genocídios e que só quebra quando os interesses de poderosos e imperialistas estão em jogo. O futebol que nasceu como ritual, do hábito humano de existir em comunidade, não pertence a Trump, nem à FIFA e não pertence a nenhum governo que use o esporte para lavar sua própria sujeira. O futebol não é do mercado, é do povo.