Nota do Levante Popular da Juventude sobre as eleições brasileiras.
No dia 25 de outubro de 2026 vivemos um momento que não poderá ser ignorado pelos livros de história. A virada histórica, que possibilitou que Luiz Inácio Lula da Silva fosse reeleito para o seu quarto mandato como presidente da República do Brasil, será lembrada pela nossa geração como um feito de quem enfrentou e derrotou a extrema direita no nosso país. Mas para além da memória das milhões de pessoas que ocuparam as ruas em defesa do Brasil, o processo de luta que inauguramos, nos marcos da disputa eleitoral, deve ser encarado como um legado a ser construído por nossa geração.
As eleições de 2026 foram marcadas por um acirramento da ofensiva imperialista no Brasil e pela ação vexatória da extrema direita brasileira ao tentar impedir que o povo pudesse escolher seu presidente à luz do que deseja para o seu próprio futuro. Desde o 1º turno, enfrentamos o poder das BETS, das BigTechs, do capital financeiro nacional e internacional, da máquina de grandes empresas de publicidade, da mídia burguesa, da desinformação, das mentiras e das milícias.
No 2º turno, assistimos a tentativa da extrema direita impedir, por parte de governos estaduais e prefeituras, que as pessoas pudessem exercer o seu direito legítimo de votar. Tudo isso em nome da eleição de Flávio Bolsonaro, um exímio representante das milícias, da corrupção e do tráfico de influências da política brasileira. Enfrentamos, sobretudo, uma estrutura que estava preparada para eleger um lacaio submisso à intervenção política, militar e econômica de Donald Trump.
Se por um lado, nossos inimigos utilizaram de todas as armas possíveis para prejudicar a candidatura de Lula, fragilizar a democracia e impedir a derrota da extrema direita nestas eleições. Do outro, nós construímos mais do que uma vitória eleitoral, mas uma vitória popular materializada no resultado das eleições, que deve ser o um primeiro passo na construção de profundas transformações no Brasil.
A disputa sobre o futuro, que tanto evocamos durante a campanha, permanece viva e necessária. O Brasil pode ser muito melhor do que é e é a força do povo que pode arrancar as vitórias necessárias para que isso aconteça. Mais do que isso, como já temos visto, o Brasil pode se tornar um exemplo ao mundo: um estandarte da luta em defesa da democracia e da soberania, uma luta que tem como protagonista o povo.
O Brasil nas mãos da juventude

Em junho de 2026, o Levante Popular da Juventude lançou a sua plataforma programática para as eleições, com propostas de políticas públicas, projetos de lei, equipamentos públicos e medidas que podem transformar a vida da juventude brasileira. Acreditamos que somos o setor da sociedade que mais sofre com os efeitos da crise do sistema capitalista, da concentração de riqueza e da precarização do trabalho. Sobretudo, a juventude negra e periférica, da classe trabalhadora, e por isso, há em nós muita sede de mudança e luta pelo futuro. Nomeamos nossa plataforma com os dizeres O Brasil nas mãos da Juventude, porque sabíamos que havia muita coisa em jogo nessas eleições, em especial, as nossas condições de vida. Então, a disposição de luta que demonstrou ter a juventude brasileira não deve ser encarada como uma surpresa!
As mobilizações, que se iniciaram a partir dos estudantes da UFF Niterói, foram verdadeiras injeções de ânimo e rebeldia para uma multidão que ocupou as ruas do Brasil durante todo o 2º turno. Como em outros momentos da história, fomos a faísca que incendiou o país. O Movimento Estudantil brasileiro teve um papel destacado e a União Nacional dos Estudantes (UNE) foi fundamental na direção política da juventude que ocupou as ruas para além dos estudantes universitários. Foi a partir da UNE, que transformamos as centenas de assembleias estudantis em brigadas voluntárias de juventude na conquista de mais votos. Foram das mobilizações que se iniciaram nas universidades, que construímos as maiores marchas da história do povo brasileiro em diversas cidades do país.
O caráter antifascista do levante da juventude, que rejeitou Flávio Bolsonaro, também se traduziu em uma vontade sincera em poder sonhar com futuro melhor do que o presente. Houve quem dissesse que a juventude brasileira estava invadida pelo conservadorismo e pelas ideias fascistas. O 2º turno das eleições demonstrou que sim, é necessário disputar a juventude, mas ao contrário do que nos tentaram fazer acreditar, o DNA da rebeldia consciente e compromissada com o povo segue correndo em nossas veias.
Agora, queremos avançar em transformações estruturais no nosso país, preencher de conteúdo as palavras democracia e soberania. Com participação popular, com democratização do poder, com políticas públicas de redistribuição de renda e de terra, com domínio sobre os nossos bens naturais. Queremos enfrentar de frente o debate sobre a regulamentação das BigTechs, a reforma do sistema político e judiciário, a precarização do trabalho, o financiamento da educação pública e as medidas econômicas necessárias para combater as desigualdades sociais que permanecem no nosso país. Queremos fortalecer a luta contra o império e a nossa fraternidade internacionalista. E sabemos que essas são tarefas de milhões e a organização popular é o único caminho para conquistá-las.
A virada brasileira é uma vitória de Nuestra América
Vivemos em um mundo em crise, marcado pela crise do sistema capitalista e pelo declínio do imperialismo norte-americano diante de uma transição global à multipolaridade. O Brasil não é um país qualquer diante desse mundo em disputa e é por isso que a disputa dos rumos do Brasil foi tão central nessas eleições. No último domingo, os olhos do mundo estavam voltados para cá, porque o resultado das eleições brasileiras pode ser determinante para um novo ciclo de acumulação de forças contra o fascismo no mundo e para o fortalecimento de uma alternativa anti imperialista, sobretudo, no Sul Global.
É necessário dizer que a vitória eleitoral brasileira pode significar um patamar elevado de condições para a derrota de governos de extrema direita e a retomada de governos progressistas na América Latina, fortalecendo a cooperação e, principalmente, a luta anti imperialista e internacionalista, a construção de caminhos para defesa da nossa pátria grande. Nossa vitória representa um freio no plano neocolonialista do imperialismo norte americano em nossa região.
Em tempos de guerra, fomos um exército nas ruas e nas redes!
Já há um tempo reconhecemos a necessidade de avançarmos na disputa das redes, nos qualificar tecnicamente e organizar a nossa mensagem política para dialogar com as pessoas no ambiente virtual. É nítido que entender a linguagem das redes e o funcionamento dos algoritmos não é uma tarefa simples, nós ainda jogamos no campo do inimigo. No entanto, o 2º turno das eleições nos mostrou que é possível disputar as redes sociais, assim como é possível disputar todos os espaços onde a luta de classes acontece.
O Exército do Lula, liderado pelo Deputado Federal André Janones, foi fundamental para orientar a nossa atuação nas redes e ampliar a nossa capacidade de falarmos para além de nós mesmos. Quanta gente que há muito havia desistido de se posicionar politicamente nas redes sociais e voltou a usar esse espaço como ferramenta de disputa da consciência. Pessoas que não utilizavam seus perfis e que passaram a utilizar para influenciar seus próprios ciclos, sem contar o senso de comunidade e de pertencimento construído pela mensagem de que “estávamos todos fazendo a mesma coisa”. O Exército do Lula criou condições para permear as entranhas das redes sociais e vencer uma batalha tão dura contra os algoritmos e o poder da Meta.
Mesmo sem saber, os 11 milhões de soldados e soldadas que se dedicaram nos últimos 20 dias a reeleger Lula, materializaram a combinação da luta ideológica, da luta institucional e da luta de massas. Fomos um verdadeiro exército, que entendeu que vivíamos um tempo de guerra, e fizemos a guerra nas redes e nas ruas. Não mais de maneira isolada e desconectada, pois garantimos que as ruas alimentassem as redes e as redes também alimentassem as ruas.
Hackeamos o algoritmo através das nossas ações coordenadas, convocamos milhares a ocuparem às ruas e fomos à Sede da Meta no Brasil denunciar o seu papel golpista ao manipular o algoritmo censurando os conteúdos produzidos pelo povo e favorecendo o bolsonarismo. Sem dúvidas, segue na ordem do dia a implementação dessa tática e a permanência dessa ação política coletiva construída pelo Exército do Lula como ferramenta de mobilização permanente.
O povo venceu e quer governar!
Em seu primeiro discurso após a vitória, o presidente Lula anunciou que fará um governo diferente de todos os outros e que governará com o povo. Isso não pode significar apenas um gesto, ainda que legítimo, de agradecimento ao papel central que o povo brasileiro cumpriu nessas eleições. Nós impomos uma derrota histórica à extrema direita, levamos Lula a um quarto mandato que muitos consideravam impossível. Conquistamos uma vitória sem precedentes no nosso país e ela só foi possível porque o povo brasileiro produziu o show.
Há muitos aprendizados a serem absorvidos pela experiência que as eleições brasileiras de 2026 produziram, mas o principal deles é que o povo brasileiro quer participar da política e quando a gente entra em cena, altera-se o rumo das coisas. Sabemos que é só a luta que nos garante conquistas, sempre foi assim e essa máxima continua prevalecendo. Por isso, queremos que a luta do povo também possa governar o Brasil!
Diante de um Congresso Nacional com capacidade de formar maioria em pautas de retrocessos e retiradas de direitos do povo, acreditamos que o governo Lula precisa governar junto de nós. Apostar no fortalecimento das suas relações com os movimentos sociais e populares e mais do que isso, aprender com o povo e ouvir as vontades do povo. Não será um governo fácil, os primeiros dias após o resultado eleitoral já demonstraram isso. Seguiremos enfrentando as chantagens do mercado financeiro, a fisiologia dos partidos de direita e as ameaças golpistas da extrema direita brasileira.
No entanto, a experiência que vivemos demonstra sem hesitação: o povo brasileiro mobilizado e organizado é a garantia da implementação de um Projeto Popular. Vencemos as eleições das nossas vidas e agora queremos dirigir o Brasil! As mobilizações massivas precisam se transformar em organização social, essa é a principal tarefa para o próximo período. O desafio é fazermos com que a luta de massas não seja uma experiência pontual, mas a sustentação do nosso projeto político. Diante disso, queremos que em cada universidade, escola ou bairro, se consolide um Levante em luta.

É hora de seguirmos vigilantes e em estado permanente de mobilização. A organização da juventude será fundamental nessa nova etapa da luta política do nosso país, por isso o levante de massas que protagonizamos precisa se transformar em organização política e atuação cotidiana nos territórios, escolas e universidades. O Levante Popular da Juventude seguirá lutando e organizando a juventude de Norte a Sul do país. Nos encontramos nas lutas, nas redes e nas ruas, porque a nossa rebeldia é o povo no poder! Se organize no Levante!

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