[Papo reto] ENEM por uma outra educação

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Nos dias 24 e 25 de outubro milhões de jovens de todo o Brasil participaram do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio. Se este exame ainda é insuficiente para avaliar e para garantir o acesso desses/as jovens ao ensino superior, é inegável que este instrumento é um avanço em relação ao tradicional vestibular realizado pelas universidades.
O ENEM se constitui numa avaliação global da experiência do ensino regular, no qual são avaliadas as competências de linguagem, ciências humanas, ciências da natureza, ciências exatas, e capacidade de redação. Tal avaliação é mediada pelos desafios e reflexões da realidade, procurando estabelecer nexos do conteúdo ministrado na sala de aula com a realidade desses jovens. Desde 2010 o ENEM é o principal meio de inserção nas Universidades Públicas, via SISU (Sistema de Seleção Unificada) e sua gratuidade para estudantes de escola pública possibilita que um maior número de jovens tenham condições de realizar as provas e concorrer ao PROUNI ou a uma vaga em qualquer instituição pública do país.
Após a realização do último ENEM a bancada conservadora liderada por Jair Bolsonaro (PR/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP) utilizou as redes sociais para denunciar uma possível “doutrinação marxista e de gênero” em virtude da prova conter questões com texto de Paulo Freire, David Harvey, Simone de Beauvoir etc. De fato, a “educação como prática de liberdade” assusta as elites e o conservadorismo. Insultaram e macularam a pensadora feminista Simone de Beauvoir com o objetivo de combater o que eles equivocadamente chamam de “ideologia de gênero”.
A reação conservadora ao ENEM é parte de um avanço do fundamentalismo nas instituições e na sociedade brasileiro. O Congresso eleito em 2014 é o mais conservador desde 1964, sendo composto majoritariamente por representantes do patronato, do latifúndio e do fundamentalismo religioso. A expressão do avanço do conservadorismo se traduz na retirada de direitos e liberdades históricas, tal como a tentativa do Eduardo Cunha (PMDB/RJ) aprovar a criminalização da heterofobia, reduzir a maioridade penal, aprofundar a terceirização e mais recentemente as investidas contra a autonomia e o direito ao corpo das mulheres, presente no PL 5069/2013. Em contrapartida, os arautos da “ética” e da “moral” na sociedade brasileira estão demonstrando sua verdadeira face, como por exemplo, dos escândalos de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas que envolvem Eduardo Cunha (PMDB/RJ).
É necessário e urgente colorir as ruas e universidades com a diversidade do povo brasileiro em defesa da educação e contra o avanço do conservadorismo. Contudo, “se muito vale o já feito, mais vale o que será”, pois apesar de oportunizar inúmeros/as jovens a possibilidade de realizar as provas, sabe-se que o número de vagas nas universidades públicas são reduzidas e que apesar da maior inserção de jovens trabalhadores/as nas universidades, o caminho para a verdadeira democratização da universidade brasileiro ainda é longo. Isso requer medidas que garanta investimento em educação pública, especialmente em políticas de permanência como a assistência estudantil. É necessário construir e consolidar as políticas que visam a permanência de negros/as, jovens mães, pessoas trans, indígenas e povos remanescentes quilombolas, setores historicamente alijados do ensino superior.
Nesse contexto, é um desafio aos lutadores/as do povo brasileiro garantir o caráter público e gratuito da educação frente os tubarões da educação e garantir que esta política pública não seja impactada pelas medidas de ajuste fiscal empreendido pelo Governo Federal que atinge diretamente os mais pobres. Na mesma proporção, é urgente defender o caráter laico da educação e do Estado brasileiro buscando construir uma educação não-sexista que tenha como norte a problematização das desigualdades que decorrem do machismo, do racismo, da homo-lesbo-transfobia.

 

Toda segunda, um texto novo será publicado
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Este post tem 2 comentários

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    Djalma Filho

    Minha única discordância com o texto é quanto a afirmativa do número de vagas reduzido no ensino superior. Os dados mostram o contrário, em 2003 haviam 114 municípios com instituições federais de ensino superior, em 2012 passaram para 237 municípios. Em 2002 3,5 Mi. de matrículas nessas instituições, passando para 7,04 Mi. em 2012. Mas os problemas de acesso, e permanência, ao ensino superior é complexo. Pode-se pontuar a concentração histórica das instituições de ensino na região sul e sudeste, por exemplo, bem como a reprodução de preconceitos e discriminações como sitado no texto. Parabéns pelo trabalho do grupo.

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    Djalma Filho

    Minha única discordância com o texto é quanto a afirmativa do número de vagas reduzido no ensino superior. Os dados mostram o contrário, em 2003 haviam 114 municípios com instituições federais de ensino superior, em 2012 passaram para 237 municípios. Em 2002 3,5 Mi. de matrículas nessas instituições, passando para 7,04 Mi. em 2012. Mas os problemas de acesso, e permanência, ao ensino superior é complexo. Pode-se pontuar a concentração histórica das instituições de ensino na região sul e sudeste, por exemplo, bem como a reprodução de preconceitos e discriminações como sitado no texto. Parabéns pelo trabalho do grupo.

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