Solidariedade na batalha das ideias

Solidariedade na batalha das ideias
Ilustração: Marcela Nicolas

A cada mês de Campanha de Solidariedade Periferia Viva os desafios se ampliam, mas também ampliamos as potencialidades dessa iniciativa. Se na maioria das vezes nos falta dinheiro e estrutura, nos sobra disposição e criatividade para seguir em frente construindo outras linhas de ação para o trabalho comunitário.

Assim, o vínculo com o povo, a vivência no território e a troca de experiências com as famílias nos abrem espaço para um novo salto de qualidade da campanha: a batalha das ideias.

Desde o princípio, a política de solidariedade que defendemos está pautada na necessidade de elevação da consciência do povo, de fazermos a disputa ideológica a partir da ampliação de um olhar crítico das pessoas sobre a realidade que as cerca.

A entrega da cesta de alimentos é uma porta de entrada para um diálogo com as famílias, para a construção de uma relação cada vez mais orgânica com as comunidades. E aí entra o nosso papel de educadores e educadoras populares: é necessário ouvir o que o povo tem a dizer, mas é igualmente fundamental provocá-lo, questioná-lo e incentivá-lo a refletir sobre o mundo em que vive.

Uma das experiências que simbolizam esse nosso compromisso é a entrega de livros junto com as doações da campanha. Essa ação foi realizada em diversos estados, mas gostaríamos de destacar especialmente a experiência da campanha da Escola Nacional Paulo Freire, que contou com doações da Editora Expressão Popular para a entrega de livros nos bairros Jardim São Savério e Boqueirão.

A emoção e o brilho nos olhos das pessoas ao receberem os exemplares são um relato comovente da potência desse tipo de ação. Se os livros abrem um novo horizonte para quem os lê, a nossa iniciativa em doá-los é também uma nova janela que se apresenta para a troca, o diálogo e o cuidado com o povo nas suas mais diversas dimensões.

Em agosto, a batalha das ideias teve um novo marco com a distribuição da 1ª edição do Jornal Periferia Viva, também realizado pela campanha da Escola. O jornal é uma iniciativa de comunicação popular que visa fortalecer o vínculo dos moradores com seu próprio bairro e estreitar a nossa relação com a comunidade. Foram quase dois meses de preparação em que perguntamos às famílias assistidas desde o nome que elas queriam para o jornal até os conteúdos que elas gostariam de ver e produzir.

Zetildes fez um texto sobre o histórico de organização popular do Jardim São Savério; Dida, do Boqueirão, mandou a receita de um bolo que faz sucesso na sua casa; as fotos dos Agentes Populares de Saúde ilustram a nova iniciativa da campanha que movimenta os bairros desde julho. Com a contribuição de cada um, fomos construindo coletivamente essa primeira edição, que certamente é apenas a primeira de muitas que ainda estão por vir.

A prática da comunicação popular através de um jornal comunitário carrega diversas potencialidades. É um instrumento onde o povo pode contar sua própria história, mostrar sua cultura e o que produz – são os trabalhadores e trabalhadoras no comando da narrativa sobre si mesmos.

O jornal abre, também, uma interlocução direta entre os movimentos populares que constroem a Campanha e o território onde ela atua, fortalecendo a disputa ideológica em comunidades que, em geral, tem como referência de comunicação apenas o discurso da mídia comercial.

Além disso, assim como aprendemos com os tablóides do Brasil de Fato, a distribuição é um momento especial para o diálogo corpo a corpo com as pessoas, o que é uma marca do trabalho popular. Em suma, o jornal Periferia Viva é um novo instrumento feito pelo povo e para o povo, uma nova ferramenta em permanente construção e que pode ser adaptada nos mais diversos estados em que a Campanha de Solidariedade é realizada. 

A batalha das ideias é um desafio permanente dos movimentos populares, ainda mais num contexto de derrota estratégica, que é o que a esquerda tem vivido atualmente. Por isso, cada iniciativa que nos abra espaço para discutir política com o povo e elevar o nível de consciência dos trabalhadores e trabalhadoras precisa ser encarada com muita responsabilidade, criatividade e animação.

É preciso contar a história que a história não conta. É preciso fazer da comunicação uma arma para a transformação que queremos no mundo. 

Texto publicado originalmente na Coluna do Periferia Viva no Brasil de Fato