A luta de classes está online

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A linguagem dos memes e o humor como arma na batalha das ideias.

Conhecemos, não de hoje, a dinâmica predatória do sistema capitalista. O que muitas vezes podemos não nos atentar é que este sistema não se limita à exploração econômica, mas devora as próprias bases que o sustentam. E essa lógica se estende ao campo digital, onde redes sociais e algoritmos atuam como novas frentes de exploração e disputa ideológica. Se em 2018 setores progressistas subestimaram o poder dessas plataformas, a vitória da extrema-direita escancarou a urgência de ocupar esse território.

E é nessa perspectiva que trazemos o debate para as redes sociais e o fenômeno de memes que envolvem questões concretas do cotidiano dos trabalhadores, como escala de trabalho, redução de jornadas, taxação de bilionários, mas também questões mais relacionadas às subjetividades, como momentos de lazer, a brincadeira com o “ódio ao trabalho/bater ponto”, jogos com gostos pessoais que envolvem comidas, música, carros, namoro, etc.

GUERRAS, MEMES, WHATSAPP, E A DISPUTA PELA SUBJETIVIDADE NO CIBERESPAÇO

Durante as eleições de 2018 muito se ouvia, por parte da esquerda brasileira, frases como “Nossa política se faz nas ruas, e não nas redes sociais”. Um posicionamento que envelheceu de forma muito dolorida após Jair Bolsonaro ser eleito, comprovando a eficácia de seu trabalho desenvolvido com bastante antecedência e organização nas redes sociais. A maneira como a extrema-direita utilizou as redes sociais e canais de mensageria (WhatsApp e Telegram) não foi percebida de forma imediata pelo todo da esquerda e campo progressista, que após os momentos de negação e surpresa com o resultado, foi obrigado a iniciar sua imersão no entendimento desse novo campo de batalha política, e além da compreensão, iniciar também sua atuação nessa frente. 

O desafio de ocupar as redes sociais colocado para esse espectro político não deixa de lado a avaliação crítica de que não basta produzir bons conteúdos e estar presente em todas as novas redes sociais que surgem, pois o funcionamento dos algoritmos e o posicionamento político das próprias Big Techs delimitam o alcance das páginas, principalmente aquelas que rompem com a lógica do individualismo, e que propõem debates críticos, politizados e coletivos.

A construção de materiais meméticos para as redes sociais que trabalham pautas políticas não exclui outras produções como as radiofônicas, impressas, além dos materiais produzidos para sites. A memetização das temáticas pode contribuir com o despertar para novos assuntos, aproximando os consumidores do material com o tema proposto, e assim direcionando para outros canais e produtos que desenvolvam mais profundamente os assuntos. 

O uso dessa linguagem memética contribui com a aproximação do público com pautas como as do atual Plebiscito Popular, construído por Movimentos e Partidos Políticos organizados na Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo. As pautas trabalhadas pelo Plebiscito, como a redução da jornada de trabalho, fim da escala 6×1, isenção do Imposto de Renda e taxação dos super-ricos já vem sendo fonte de produção de memes há meses, e intensificaram após as eleições municipais de 2024, muito baseadas nas campanhas do Movimento VAT – Vida Além do Trabalho.



Outras pautas, muitas vezes mais sensíveis, também se valem desse recurso, como aconteceu após as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, em que páginas que utilizam do humor e dos memes construíam materiais de solidariedade para arrecadar doações para os atingidos. Outra pauta bastante importante e que gera mobilização nas redes sociais é o genocídio contra o povo palestino. Longe de ser um tema fácil de ser trabalhado, muitas páginas recorrem à linguagem dos memes, ou seja, uma linguagem viral, rápida replicação e fácil compreensão para abordar a temática e apresentar ao público a necessidade em abordá-lo nas diversas frentes da comunicação. Ao recorrer a essa linguagem mais simples e direta para iniciar os debates sobre o genocídio ocorrido em Gaza, pode abrir-se caminhos para o aprofundamento promovido por outras frentes da comunicação/jornalismo. 

Mas, se esses recursos são agora utilizados pelo campo progressista, o inverso já ocorria de maneira intensa e muito bem organizada há tempos. Usaremos a questão palestina como exemplo. 

A TIKTOKZAÇÃO DA BARBÁRIE 

Se a construção histórica do discurso pró Israel, amparado na indústria cultural e na própria maneira de se fazer jornalismo dentro dos oligopólios da mídia fez com que a população recebesse sem muitos questionamentos a visão de que a guerra é “de Israel contra terroristas”, generalizando todo o povo palestino e deslegitimando sua luta pelo seu território invadido, as redes sociais com a lógica dos algorítmos e seu intenso fluxo de postagem amortecem ainda mais os receptores. Neste ponto, inclusive, encontramos uma contradição mesmo entre aqueles que se solidarizam com a questão palestina. O fluxo de informação é tão intenso, que mesmo aqueles que são pró-palestina acabam afetados pela banalização dos fatos após serem inundados de conteúdos sobre o mesmo assunto, tornando-os, assim, como “mais um entre tantos”.

De acordo com a pesquisadora Isabela Agostinelli, em entrevista cedida à Agência Pública, imagens de bombardeios e mutilação de crianças, por exemplo, geram comoção, mas, após serem replicadas por tantos dias seguidos, acaba sendo normalizado e faz com que a população fique anestesiada em relação às imagens. 

Sem muita surpresa, sabemos do papel das Big Techs nesse cenário: de acordo com o sociólogo Michael Kwet, em um artigo para o veículo AlJazeera, as empresas de tecnologia dos EUA apoiam o genocídio e o apartheid de Israel. Para ele “As Big Techs têm sido cúmplices da ocupação, expropriação e abuso de palestinos por Israel de várias maneiras. Talvez o mais conhecido seja seu apoio à vigilância israelense generalizada da população ocupada.” A colonização, então, extrapola a conquista de terras, e as grandes empresas passam a colonizar também a tecnologia.

Compreender o capitalismo como um sistema que depende não apenas da produção econômica, mas também de condições sociais como a reprodução e os cuidados nos ajuda a entender como a luta de classes e as disputas por subjetividade se deslocaram também para as redes sociais. Nesse espaço digital, memes e conteúdos virais não apenas refletem as contradições do cotidiano dos trabalhadores, mas também se tornam ferramentas de resistência e disputa ideológica, conforme visto nas campanhas do Plebiscito Popular e nas de solidariedade internacionalista à Palestina. 

Mas, assim como o capitalismo cooptou a reprodução social para sustentar a acumulação de mais-valia, as Big Techs e seus algoritmos colonizam a tecnologia, normalizando a barbárie e anestesiando a empatia por meio do excesso de informação. Se, por um lado, a esquerda aprendeu (tardiamente) a ocupar esse território com linguagens acessíveis, por outro, enfrenta a desafiadora tarefa de romper com a lógica individualista das plataformas, que silenciam discursos coletivos e críticos. E é neste cenário que as redes sociais se consolidam como um novo campo de batalha da luta de classes, e nós podemos afirmar, sem crises, que nossa luta é nas ruas e nas redes!

Aline Antunes – Coordenadora Articulação de Redes