Se o mundo, se o mundo fosse cheio de sapatão?

Se o mundo, se o mundo fosse cheio de sapatão?

Por toda história, em todo canto, as lésbicas, as sapatão, as caminhoneiras, as fanchas estiveram resistindo e construindo luta pela visibilidade do amor entre as mulheres. Não é uma luta individual, ou pela expressão tão somente da liberdade de uma identidade. Apresenta a força coletiva de um projeto, em que existimos, resistimos, e lutamos.

A organização das mulheres que em conjunto rompem com a lógica de exclusão das mulheres e buscam desatar o nó na garganta do povo é feita de firmeza e de coragem. Nó esse que está no racismo, no patriarcado e no capitalismo e que assim articula a invisibilidade e a exclusão, por uma relação de dominação-exploração. Que violenta e viola nossos corpos, nossa terra e nosso povo. Se nesse sistema a relação entre as mulheres é permeada pela competição e pela caracterização do errado e do doente, dizemos que é preciso calçar os sapatões e fortalecer os passos na caminhada. Hoje – e todos os dias – é dia de lambuzar pra dizer com muita alegria que tem sapatão na Parada!

Muito se caminhou desde o 1º Seminário de Nacional de Lésbicas em 1996, que marca a data do Dia Nacional da Visibilidade Lésbica e desde anteriormente, nas Associações de Lésbicas, nas Ligas, no Grupos de Ação Feminista, nos jornais Chana com Chana, nas Caminhadas da Visibilidade por cada chão deste país. Ainda há uma grande estrada sendo construída, e o Levante do Stonewall brasileiro, ocorrido no Ferros Bar em 19 de agosto de marca a data do orgulho lésbico. Nos proibiram de entregar o ChanacomChana e de existir, então intervimos. Hoje em dia tantas mais contam a história ligada a um projeto de transformação da realidade.

Ainda em meio a tanto caminhão nessa estrada, nossas mortes são silenciadas, nos é negada o direito a saúde e o direito a amar, violam nossos corpos pelo estupro corretivo desde a colonização. O dossiê do lesbocídio aponta que de 2000 a 2017 foram 180 homicídios praticados majoritariamente por homens conhecidos das vítimas, as quais eram majoritariamente não feminilizadas e negras. Lembramos aí de Luana Barbosa e, por todas elas dizemos que não haverá um minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta. Não há diálogo sobre a saúde das mulheres lésbicas e bissexuais, nem acesso e nem política para colar o velcro. Por isso também lutamos.

O contexto atual de isolamento social aumenta uma carga de medo e insegurança para o espaço familiar para muitas mulheres. Além da lesbofobia no núcleo familiar se impõe a necessidade de pagar as contas e garantir a vida da família. No contraponto a necessidade de trabalhar traz o risco de ser contaminada e ter de encarar a morte por outro viés. Dentre isso, apontamos a luta pela segurança nas ruas e nos lares. Essa luta se soma a luta por direitos, pelo acesso à saúde, pela vida, por emprego e renda para o povo brasileiro.

A lesbofobia se fortalece no neofascismo e nele encontra terreno fértil. O desgoverno Bolsonaro nos ataca, tenta nos apagar ainda mais, nos destruir, nos empurrar pro armário, queimar nossas bandeiras. Mas contamos a história que não querem contar, quebramos o armário pra não mais voltar, somos fermento na luta por uma sociedade livre, em que as cercas não nos privem, e que o povo sorri pelas ruas, se lambuzando em seus corpos a alegria de existir, hasteando as bandeiras coloridas.

Mas o mundo, mas o mundo já é cheio de sapatão, então é a revolução, revolução das sapatão!