O que você vai ser quando crescer?

O que você vai ser quando crescer?

Sabemos que nem todos os sonhos são permitidos. Alguns sonhos são para poucos. Neste dia 12 de outubro, quando se comemora o dia das crianças no Brasil, queremos refletir sobre que sonhos essas crianças podem ter?

“Filho meu não vai ser bailarino!”. A construção do que é ser mulher e do que é ser homem em nossa sociedade está presente em toda a nossa vida. As meninas ganham brinquedos para aprender a cuidar da casa e dos filhos. Para as mulheres é destinada a “vocação do cuidado”. Esse processo limita os sonhos de meninas e meninos: Em 2013 92,25% das matriculas em pedagogia no Brasil eram de mulheres. Em 2012, um terço graduandos (homens) estavam cursando alguma engenharia.  Entre os 10 cursos com mais mulheres matriculadas no Brasil nenhum é engenharia. O que uma menina pode ser quando crescer?

Muitas crianças vão perceber rapidamente que o que eles TÊM que ser quando crescer é: heterossexual! Assim como ensinamos as nossas crianças o que é “ser mulher” e o que é “ser homem”, também tenta-se ensinar que as crianças devem gostar do coleguinha do outro sexo. Mas essa lição apenas gera dor e acaba expulsando centenas de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais e transgêneros das escolas. E essas crianças e jovens aparecem escondidas nos dados da evasão escolar brasileira. Não existem políticas públicas e ações nas escolas contra a transfobia, homofobia, lesbofobia e todo o preconceito que essas crianças e jovens sofrem. Enquanto isso, o debate sobre gênero é retirado dos Planos Municipais de Educação em quase todo o Brasil. O que muitas crianças desejam ser quando crescer é livre. Livre para ser quem é e amar quem quiser.

Antes de começar a sonhar com que vão ser quando crescer, algumas crianças devem se preocupar em crescer. No Brasil a cada mil crianças de até 5 anos, aproximadamente, 17 (16,8) morrem. Esse é um número elevado, que embora tenha diminuído 70% nos últimos anos 30 anos, ainda faz com o que nosso país esteja em 97º lugar no ranking mundial de mortalidade infantil. Seria possível evitar grande parte dessas mortes, com mais investimentos em nosso sistema de saúde e no combate a fome. Em Cuba, por exemplo, a taxa é uma das menores do mundo: 4,2.

Outra realidade que deve ser enfrentada na busca de um futuro melhor para as crianças é o trabalho infantil. Em nosso país mais de um milhão de crianças entre 6 e 14 anos trabalham. E 64,78% são negras (dados de 2012). Assim como a mortalidade infantil, o trabalho infantil atinge uma parcela específica de crianças. Crianças negras e pobres, que moram nas periferias do país. Quais são as condições que nosso país garante para que os filhos da classe trabalhadora possam sonhar com o próprio futuro? Em uma pesquisa realizada em 2011 pelo DIESSE foi possível identificar que o trabalho doméstico é a ocupação de aproximadamente 20% das mulheres negras nas regiões metropolitanas estudadas (Salvador, São Paulo, Recife, Porto Alegre, DF, Fortaleza e Belo Horizonte) ficando atrás apenas para o setor de serviço. Enquanto isso, o trabalho doméstico é a ocupação de apenas 10% das mulheres brancas, segundo o estudo. Esse estudo comprovou que as negras e os negros estão inseridos nos trabalhos mais precarizados e possuem menores salários.

Quais são chances de nossas crianças negras realizarem seus sonhos? Com certeza, elas partem em desvantagem em uma sociedade racista onde a chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação aos brancos. Vivemos em nosso país uma situação de extermínio de nossa juventude negra. A cada 3 assassinatos, duas vitimas são negras. Enquanto isso os dados do Censo Escolar 2005 demonstram que só 35% das crianças negras de dez anos estavam na série ideal para a idade, mas 53% das crianças brancas se encaixavam no perfil. Além disso, os negros são a minoria nas escolas privadas do Brasil, 33%.

Nesse mês, milhares de jovens vão fazer o Enem para entrar no ensino superior. Para grande parte desses jovens, entrar no ensino superior é o caminho para realizar seus sonhos. Mas, esse sistema de seleção se baseia no fato de não existirem vagas para todos, então quem tirar a melhor nota, poderá escolher.

A grande maioria que conseguir passar por esse funil (aproximadamente, 75%) vai entrar no ensino superior particular. E irá enfrentar um ensino precarizado que busca diminuir sempre os “gastos” e com altas taxas das mensalidades que aumentam a cada semestre. Caso esteja no FIES ainda corre o risco de perder o financiamento a qualquer momento e ficar sem curso e com uma grande dívida. Enquanto isso, o ensino superior público conta com uma política de assistência estudantil (o ensino particular, também deveria garantir essa assistência) limitada que não consegue garantir a permanência dos estudantes nas universidades. Os cortes de R$ 13 bilhões de reais no orçamento da educação vão de encontro a um projeto de pátria educadora.

A maioria das crianças vai ter que lutar muito para conseguir realizar seus sonhos. Não existe uma estrutura social que garanta condições iguais para nossos jovens. E é por isso que esperamos que nossas crianças aprendam, o quanto antes, que só a luta muda à vida. Mas precisamos estar unidos, neste dia 12 estaremos juntos com as crianças nas quebradas de todo o país mostrando que: “se eles lá não fazem nada, nós fazemos por aqui”, vamos juntos construir o Brasil que há de vir!

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