Mariana Lorenzi, Levante em São Paulo.
O projeto de lei 5.069/13 de autoria de Eduardo Cunha, recentemente aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, quer incluir no Código Penal o artigo 147-A que tipifica como delito “anunciar processo, substância ou objeto destinado a provocar aborto, induzir ou instigar gestante a usar substância ou objeto abortivo, instruir ou orientar gestante sobre como praticar, ou prestar-lhe qualquer auxílio para que o pratique, ainda que sob o pretexto de redução de danos”.
Em primeiro lugar, aborto não deveria ser assunto de direito penal, porque não devemos acreditar na demagagia penal do atual modelo de criminalização que é absolutamente incompetente para lidar com a saúde das mulheres e porque na verdade sob a criminalização sustenta-se, de forma cruelmente invisível, a triste realidade da saúde pública que é a sobrevivência das mulheres que tem dinheiro, na maioria brancas e que podem pagar por um aborto seguro.
Mas sabemos que ainda sob o paradigma atrasado da repressão ao aborto legal, existem as previsões de aborto para os casos no qual a mulher é submetida a violência sexual. Assim, esse PL se trata de uma ameaça ao mínimo que conquistamos sobre os direitos reprodutivos das mulheres, e o Deputado Eduardo Cunha como relator dessa aberração tenta mais uma vez, como veio fazendo ao longo do ano, ignorar a Constituição e agora, a Lei Maria da Penha, que trouxe avanços importantes para os direitos das mulheres.
A primeira violência que o PL 5.059 traz é de alterar o que se entende por violência sexual, que hoje é tida por qualquer relação sexual sem consentimento da vítima. Essa alteração tornará mais difícil e humilhante que a vítima seja reconhecida como tal.
O projeto, além disso, criminaliza o médico a “instruir,” “orientar” ou “prestar auxílio,” e coloca em risco tanto a informação oferecida às mulheres como a atenção médica, pois a prática ética do dever de informar a vítima de violência sobre seus direitos passa a ser considerada como crime.
Ao trazer em seu texto a expressão “substância abortiva” como termo genérico, o PL abre uma brecha para que se inviabilize o acesso aos meios anticonceptivos de emergência como a pílula do dia seguinte, e que justamente existem para evitar a necessidade de um aborto posteriormente.
Também prevê a exigência de fazer o B.O na delegacia, que reforça a institucionalização da violência contra a mulher, e que submete as vítimas a processos de humilhação, tendo que reviver a violência sofrida. Vale lembrar, ainda, que grande parte das vítimas de violência sexual são crianças ou adolescentes, muitas nem tendo ainda iniciado uma vida sexual.
Desse modo, é por todos esses motivos que esse PL veio somente para amparar os estupradores, enquanto o estupro permanece um tema intocado,, fazendo das vítimas as verdadeiros algozes.
E por fim, a conjuntura nos impõe que reforcemos as nossas convicções nas constatações mais óbvias e mínimas, como dizer que as mulheres que sofreram estupro não são criminosas por escolher abortar algo que é fruto da violência contra si, e que o Estado é laico e o corpo da mulher vem sendo disputado pelos setores mais conservadores e hipócritas. Tudo isso são reflexos do sistema patriarcal que vivemos, enraizado na sociedade brasileira.
Não é coincidência que quando os atuais deputados e senadores regulamentam os direitos reprodutivos das mulheres é para cerceá-los ao invés de aprimorá-los, e também não é coincidência que mais um retrocesso esteja sendo colocado em pauta e quem sofre são as mulheres, negras e jovens que justamente tem sub-representação no nosso sistema político! Queremos mulheres no poder e ninguém vai falar por nós!
Levante pela vida das mulheres!
Todo apoio às vítimas da violência sexual!
Fora Cunha! Já roubou demais. Não podem existir representantes de minorias religiosas na nossa política. Queremos políticos de verdade, que almejam a igualdade de direitos. A proteção e amparo a mulher em todas as fases da vida é uma necessidade emergencial no país.
Fora Cunha! Já roubou demais. Não podem existir representantes de minorias religiosas na nossa política. Queremos políticos de verdade, que almejam a igualdade de direitos. A proteção e amparo a mulher em todas as fases da vida é uma necessidade emergencial no país.