Pelo direito de se alimentar e de plantar nosso futuro: Reforma Agrária Popular

Pelo direito de se alimentar e de plantar nosso futuro: Reforma Agrária Popular
Acampados e assentados da Reforma Agraria, não hesitaram ao chamado da necessidade dos que vivem nas cidades - Guilherme Gandolfi

Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor. O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tampouco da de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços. 

Eduardo Galeano

Não entregaremos nosso direito de viver, de amar, de existir

Esta é a segunda semana da coluna Periferia Viva São Paulo. Vamos tratar sobre o direito à alimentação e a defesa da Reforma Agrária.

Alimentar-se é um direito humano básico primordial. Contudo, numa sociedade hegemonizada pelo capital que tem no neoliberalismo uma das suas faces mais perversa esse direito não é garantido a todas as pessoas. No caso do Brasil, um dos poucos países do mundo, onde não foi feita uma Reforma Agrária, neste contexto de crise econômica social e sanitária, cada vez menos as pessoas usufruem do seu direito fundamental de se alimentar.

Tão logo começada a crise provocada pelo covid-19 a fome se alastrou quase na mesma velocidade que o vírus no Brasil, isto porque o Estado brasileiro, neste momento ocupado pelo governo Bolsonaro, orienta-se por bases fascistas e genocidas, inviabiliza a sociedade brasileira até este momento, de ter acesso à saúde e de saciar sua fome.

Conforme o relatório Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2020, publicado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a população brasileira entre 2016 a 2019 atingida pela insegurança alimentar aumentou de 37,5 milhões para 43,1 milhões. Já a estimativa do Banco Mundial para o Brasil até o final de 2020 é de que 14,7 milhões de pessoas ou 7% da população do país será atingida pela extrema pobreza.

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Diante desse cenário devastador, os movimentos sociais organizaram diversas ações de solidariedade. Enquanto o governo se omite, enquanto os milionários ampliam seus lucros e buscam refúgios para salvarem-se do fim da humanidade, eis que sai o povo em defesa do povo.

Sem-terra, sem-teto, juventude, movimentos de trabalhadoras e trabalhadores por direitos, juntos continuam educando o povo. Desta vez, em vez de marchas e mastros com bandeiras tremulando, portam caixas, sacos, maços de alimentos, portam vida!

Em todos os cantos do Brasil, os movimentos agiram no combate à fome de centenas de trabalhadoras e trabalhadores impactados por todas a crises que estamos vivendo. A fome que tem o poder de devorar a humanidade, leva qualquer humano à condição de coisa, esta tendo como sua principal opoente a solidariedade, uma palavra gasta pelos meios burgueses, mas só conhece o que significa quem faz e está na luta.

As ações de solidariedade dos movimentos sociais evidenciam a centralidade da Reforma Agrária para a garantia da produção de alimentos e do combate à fome do povo, pois nas áreas de reforma agrária as agricultoras e os agricultores podem continuar a produzir comida saudável, sem venenos e diversificada.

Alimentos como mandioca, café, farinha, hortaliças, verduras, batata doce, abóbora, frutas, ovos, leite, mel entre outros são uma parte da produção que demonstra a variedade e a riqueza alimentar que a Reforma Agrária pode potencializar. Ao mesmo tempo em que organizam a sua produção preservando a natureza e cuidando para promover o equilíbrio ambiental, as agricultoras e os agricultores não prescindem dos cuidados para organizar o trabalho e desenvolver relações sociais renovadas e sustentáveis, referenciadas no trabalho coletivo e no enfrentamento da exploração do capital e das opressões de raça e de gênero.

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No estado de São Paulo, ate este momento, foram doadas quase 700 toneladas de alimentos em muitos municípios: Bauru, Jaú, Apiaí, Itaberá, Itararé, Ribeirão Preto, São Paulo Capital, Cajamar, São Bernardo do Campo, Americana, Rosana, Primavera, Teodoro, Sandovalina, Presidente Prudente, Hortolândia, Campinas, Piracicaba, Sorocaba, Franca, Jardinópolis, Itapetininga, Orlândia, Porto Feliz e tantos outros.

As aldeias indígenas Kopenoti, no município de Avaí, e Jaraguá, em São Paulo, e também os bairros Boqueirão e Jardim São Savério, na periferia da capital paulista, estão entres os lugares onde puderam também contar com as ações de solidariedade feitas com alimentos. A maior parte deles, provenientes dos assentamentos da Reforma Agrária.

Os acampados e assentados da Reforma Agraria, não hesitaram ao chamado da necessidade dos que vivem nas cidades e têm dividido o alimento que produz e tem cozinhando estes alimentos preparando as marmitas solidarias. Ao fazerem isso, rompem com o “sistema de desvínculo” que coisifica o outro e tenta arrancar nossa esperança, busca minar a ideia de que temos direitos e de que podemos lutar por eles.

As ações de solidariedade, que matam a fome no presente, pavimentam o futuro. Os movimentos irrompem diante do fascismo e dos genocidas que por ora, ninam os sonhos da burguesia, semeiam resistências, e afirmam: o Brasil pertence aos povos das florestas e dos quilombos.

Nosso país pertence a quem vive do próprio trabalho e nós persistiremos, porque aqui mora nosso passado e nosso futuro. Não entregaremos nosso direito de viver, de amar, de existir.

Edição: Rodrigo Chagas

Via Brasil de Fato

Periferia Viva

O Periferia Viva nasce como resposta ao governo genocida com sua política de morte que nos deixou a própria sorte em uma pandemia. Com o princípio da solidariedade entre os movimentos populares do campo e da cidade e a classe trabalhadora, organizamos doações e entrega de alimentos saudáveis, marmitas e itens de necessidade básica a todos. A ideia é conectar iniciativas, campanhas e demandas da sociedade que podem contribuir e fortalecer essa rede de solidariedade.