salve quilombo

salve quilombo
A Escola Eduardo Galeano é referência em educação popular e coletiva - Geanini Hackbardt/via MST

o despejo do quilombo campo grande e o que ele diz sobre nós

perdão amada
por não ter construído seu poema
amanhã esse poema saíra:
esperemos
Solano Trindade

passados tantos dias que perdi a conta de uma pandemia com o bambo isolamento social, acordamos com uma notícia que já vinha pairando no ar há algum tempo: o despejo de assentamentos e acampamentos do movimento dos trabalhadores rurais sem terra está pra acontecer.

quilombo campo grande. esse é o nome do local onde os policiais militares do estado de minas gerais cercaram um acampamento que resiste há mais de vinte anos, sem nenhuma consideração pelas quatrocentas e cinquenta famílias que ali residem. o povo, a luta e o suor de gente trabalhadora que tem o direito de possuir uma terra para chamar de sua não são levados em consideração.

apresenta-se o precipício da entrega, que lega em si o desprezo à moradia, saúde, educação… a vida e ao direito de viver (não em paz, porque isso nunca nos foi dado), principalmente nesses tempos de fogo, de tiro cruzado, de pandemia. para além do que o despejo diz sobre eles, das fogueiras que tocam sob nossos corpos e sobre a sede de morte nas mãos deles, sabemos é que tempo de aquilombar.

nossas pernas conhecem o caminho duro que rasgou as carnes de nossos ancestrais assim como rasgam as nossas agora. há, de fato, um caminho: a resistência. é na memória de nossas almas que nos encontramos negros fugidos.

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se eu já fui trovão que nada desfez, eu sei ser trovão que nada desfaz
Foto: Comunicação MST

a primeira ação do despejo foi atacar a construção da escola popular eduardo galeano. mas como o próprio já disse, nossas utopias servem para que não nos deixamos parar de caminhar. como já nos ensinaram tantos que travaram essa batalha antes de nós, não deixaremos de caminhar.

a simbologia de tentar apagar a produção de nossas mentes, como se fosse possível apagar a construção de uma nova cultura do mapa da história, não passa em batido. o que falha a memória é que che tomba com um livro em sua mochila. por mais que tentem — e como tentam!, nossas ideias e ideais não se vendem, não se entregam, não se conquistam.

o quilombo, também, nasce como a negação de uma realidade que não nos cabe, em valores e cultura. o nosso ser no mundo é coletivo, fraterno e potente. é o firmar de pé na resistência revolucionária pela nossa libertação e a libertação dos nossos. aquilombar é o eterno renascer e rebrotar de um sonho antigo — sonho que corta tal qual a espada de ogum. e cobra, com a justiça de xangô.

revolução é transformação.
e hemos de transformar, enquanto ainda nos resta sopro de vida pra viver.

terra para quem nela vive e trabalha.
quilombo resiste.
salve quilombo.

Sofia Sousa

Sofia Sousa é paraibana, escritora, com formação em Letras pela UEPB e estudante de Comunicação Social (Educomunicação) na UFCG. Em todas as horas, também é militante do Levante Popular da Juventude.